EM 1961, DOISNEAU TROCOU PARIS POR COGNAC
Robert Doisneau ficou conhecido por encontrar humanidade onde outros talvez enxergassem apenas rotina. Sua câmera percorreu cafés, calçadas, subúrbios, trabalhadores e personagens anônimos da França do pós-guerra. Mas, em 1961, ela foi parar a quase 500 quilômetros das ruas parisienses que ajudaram a torná-lo célebre. O destino era Cognac. Naquele ano, André Renaud, então dirigente da Maison Rémy Martin, convidou Doisneau para realizar um trabalho fotográfico sobre a casa e seu território. O fotógrafo voltou sua lente para os vinhedos da Charente, para os rostos de quem trabalhava ali e, sobretudo, para os gestos envolvidos em um savoir-faire transmitido entre gerações. O resultado foram 65 fotografias. E então aconteceu algo curioso. Elas desapareceram do olhar público. Não porque tivessem sido perdidas. Ao contrário: o conjunto permaneceu preservado nos arquivos da Rémy Martin por mais de seis décadas e nunca havia sido apresentado ao público como série. Agora, 65 anos depois, aquelas imagens finalmente saem do arquivo. A partir de 19 de setembro de 2026, a Maison apresenta em Cognac a exposição Robert Doisneau et Rémy Martin: Regard sur le Cognac, reunindo pela primeira vez os 65 registros feitos naquela viagem. A mostra permanecerá aberta durante um ano, até 19 de setembro de 2027. Mas talvez o mais interessante não seja simplesmente descobrir fotografias inéditas de um dos grandes nomes da fotografia francesa. É perceber o que existe dentro delas. Porque Doisneau não fotografou apenas Cognac. Fotografou as pessoas que faziam o Cognac. E, olhando essas imagens hoje, surge uma pergunta especialmente interessante para a OAK: quanto daquele mundo de 1961 ainda existe dentro de uma taça produzida em 2026?
CHAMPAGNE, MAS SEM ESPUMANTE
A fotografia de Doisneau diante dos vinhedos ajuda a lembrar algo que às vezes desaparece quando olhamos para uma garrafa de Cognac: antes do alambique, existe vinho. Cognac é uma aguardente vínica protegida por denominação de origem. A região é dividida em seis crus, e a Rémy Martin fez uma escolha particularmente importante para construir sua identidade: desde 1948, trabalha exclusivamente com eaux-de-vie provenientes de Grande Champagne e Petite Champagne. E aqui existe uma confusão bastante comum. Grande Champagne e Petite Champagne não são a região francesa famosa pelo espumante. São duas áreas de cultivo dentro da denominação Cognac. O nome está relacionado às características calcárias desses solos — justamente um dos elementos que favorecem eaux-de-vie capazes de suportar longos períodos de envelhecimento. É dessa combinação que surge outra expressão encontrada nas garrafas da maison: Cognac Fine Champagne. Para carregar essa denominação, o Cognac precisa ser produzido exclusivamente com eaux-de-vie de Grande Champagne e Petite Champagne, sendo pelo menos 50% provenientes de Grande Champagne. A uva predominante é a Ugni Blanc. Depois da colheita, ela é prensada e fermentada durante aproximadamente cinco a sete dias, dando origem a um vinho branco seco, ácido e de baixo teor alcoólico — em torno de 7% a 9%. Não é um vinho pensado para chegar à mesa. É justamente essa acidez que o torna adequado à destilação. Depois vêm os alambiques de cobre. O Cognac exige dupla destilação. Na Rémy Martin, o vinho é destilado com suas borras (lees), uma decisão técnica que contribui para o perfil aromático das eaux-de-vie e para sua capacidade de evoluir durante anos — ou décadas — dentro da madeira. É aqui que as fotografias de 1961 começam a ficar ainda mais interessantes. Tecnologia, controle de qualidade e conhecimento enológico avançaram enormemente desde que Doisneau esteve em Cognac. Mas a sequência essencial que ele encontrou permanece reconhecível: uva, vinho, cobre, madeira e tempo. Sessenta e cinco anos depois, talvez seja essa a parte mais fascinante da exposição. Ela não mostra apenas como o Cognac era feito. Mostra quanto de seu passado ainda precisa existir para que ele continue sendo Cognac.
O HOMEM ENTRE OS BARRIS
O TEMPO NÃO FAZ O COGNAC SOZINHO
Na fotografia de Doisneau, um homem trabalha cercado por barris. Sessenta e cinco anos depois, a cena continua explicando uma das partes mais importantes do Cognac. Depois da dupla destilação, o líquido que entra na madeira ainda não tem a cor âmbar que associamos à bebida. É uma eau-de-vie transparente, com cerca de 70% de álcool, que começará uma transformação capaz de durar anos ou mesmo décadas. Na Rémy Martin, essa relação com a madeira tem características próprias. A maison utiliza barris feitos com carvalho proveniente principalmente das florestas do Limousin, madeira conhecida por seu grão relativamente aberto. Antes de virar barril, ela permanece exposta ao tempo durante dois a três anos, processo que ajuda a modificar seus taninos antes do contato com a bebida. Depois começa uma negociação lenta entre álcool, madeira e ambiente. O Cognac respira através do barril. Temperatura e umidade das caves interferem em sua evolução, enquanto parte do líquido evapora — a conhecida “parte dos anjos”. Dependendo do destino daquela eau-de-vie, ela pode inclusive ser transferida para barris progressivamente mais antigos durante o envelhecimento. É uma diferença interessante para quem chega ao Cognac vindo do whisky. Nos dois universos, dizer apenas a idade conta uma parte da história. Onde o líquido envelheceu, em qual madeira e como essa madeira foi administrada também importam. Na Rémy Martin, há hoje cerca de 140 mil barris de eaux-de-vie Fine Champagne armazenados em Merpins. Algumas dessas aguardentes permanecerão ali durante décadas antes de serem consideradas prontas para determinado assemblage. E aqui aparece uma palavra fundamental. Assemblage. Uma garrafa de Cognac pode reunir muitas eaux-de-vie diferentes. O trabalho do maître de chai não é simplesmente encontrar a mais velha ou a mais intensa, mas combinar diferentes componentes de maneira que o resultado preserve a identidade da casa ao longo do tempo. Na Rémy Martin, essa responsabilidade está hoje nas mãos de Baptiste Loiseau, maître de chai desde 2014. Antes de assumir, trabalhou durante anos ao lado de sua antecessora, Pierrette Trichet, aprendendo a selecionar, envelhecer e combinar as eaux-de-vie da maison. É difícil olhar novamente para a fotografia de 1961 sem pensar nisso. O homem que Doisneau encontrou entre aqueles barris pertencia a outra geração. As ferramentas mudaram. O conhecimento técnico avançou. Os métodos de controle se tornaram mais precisos. Mas uma parte essencial do trabalho continua dependendo de algo surpreendentemente humano: provar, esperar e decidir quando o tempo fez o suficiente.
DOISNEAU NÃO FOTOGRAFOU UMA MARCA. FOTOGRAFOU PESSOAS.
Seria fácil imaginar que um fotógrafo contratado por uma maison de Cognac em 1961 voltaria para Paris com uma coleção de imagens impecáveis de garrafas, adegas e vinhedos. Doisneau fez outra coisa. Seu interesse estava também nos rostos, nas mãos e nos pequenos gestos de quem trabalhava naquele universo. A própria Rémy Martin descreve o conjunto como um registro das paisagens da Charente, mas sobretudo das mulheres e dos homens responsáveis por transmitir aquele savoir-faire de geração em geração. Isso ajuda a entender por que essas fotografias continuam interessantes 65 anos depois. Elas registram um momento anterior à transformação do luxo em uma indústria global de comunicação. Não havia Instagram, campanhas pensadas para circular em segundos ou a necessidade de transformar cada etapa da produção em conteúdo. Havia gente trabalhando. Doisneau encontrou viticultores, trabalhadores e personagens ligados à vida da maison e fez aquilo que caracterizou boa parte de sua obra: prestou atenção no ser humano antes de prestar atenção no cenário. É justamente por isso que essas imagens escapam da aparência de uma campanha publicitária antiga. Funcionam como documento. Mostram roupas, ferramentas, barris, ambientes e maneiras de trabalhar. Mas mostram também algo mais difícil de preservar em um arquivo: a relação das pessoas com aquele trabalho. E aqui 1961 encontra 2026 novamente. Hoje a Rémy Martin pode utilizar laboratórios, dados climáticos, controle preciso de estoques e instrumentos que aqueles trabalhadores jamais conheceram. Mas Cognac continua dependendo de uma cadeia de pessoas — do viticultor ao destilador, do tanoeiro ao maître de chai — tomando decisões que uma máquina ainda não transforma simplesmente em tradição. Talvez seja esse o verdadeiro luxo escondido nas fotografias de Doisneau. Não aquilo que custa mais. Aquilo que demora gerações para aprender. A exposição foi construída exatamente em torno dessa ideia de transmissão: os 65 registros mostram os gestos, rostos e momentos cotidianos daquele universo, segundo a apresentação oficial da maison.
POR QUE ESSAS FOTOGRAFIAS APARECEM JUSTAMENTE AGORA?
Durante mais de seis décadas, o trabalho permaneceu preservado nos arquivos da Rémy Martin. Agora existe uma razão precisa para tirá-lo de lá. 2026 marca, na França, as celebrações do bicentenário da fotografia, e a Rémy Martin decidiu integrar essa programação apresentando publicamente, pela primeira vez, o conjunto realizado por Robert Doisneau em Cognac. São 65 tiragens de um trabalho encomendado em 1961 por André Renaud, então dirigente da maison. A coincidência dos números é quase perfeita: 65 fotografias, 65 anos depois. Mas há algo mais interessante acontecendo. Ao recuperar esse arquivo, a Rémy Martin não está apenas contando sua própria história. Está mostrando como uma maison pode transformar aquilo que normalmente ficaria escondido em caixas e arquivos corporativos em patrimônio cultural. E isso muda a maneira de olhar para aquelas imagens. O trabalhador que carrega uvas pelo vinhedo não precisava saber que seria observado por alguém em 2026. O homem sobre os barris não estava reconstruindo uma cena histórica. As pessoas fotografadas por Doisneau estavam simplesmente vivendo aquele presente. É exatamente isso que o tempo transformou em documento. A exposição também coincide com as Jornadas Europeias do Patrimônio. Haverá uma pré-abertura em 18 de setembro, e nos dias 19 e 20 de setembro a visita será gratuita. Depois, a mostra segue instalada diante da Maison histórica da Rémy Martin, em Cognac, até 19 de setembro de 2027. Talvez seja essa a grande ironia da história. Em 1961, Rémy Martin contratou um fotógrafo para registrar seu presente. Sessenta e cinco anos depois, descobriu que havia encomendado seu passado.
QUANDO UMA MARCA GUARDA MAIS DO QUE GARRAFAS
Há algo curioso em abrir um arquivo depois de 65 anos. O produto que motivou aquelas fotografias continua existindo. A maison continua produzindo Cognac. Os vinhedos continuam sendo colhidos. E barris continuam esperando pacientemente nas caves. Mas as pessoas mudaram. É por isso que o trabalho de Doisneau ganhou um significado que provavelmente nem mesmo a encomenda original poderia prever. Hoje, aquelas 65 fotografias permitem observar não apenas como se produzia Cognac em 1961, mas como era o mundo ao redor dele: as roupas, as ferramentas, os ambientes de trabalho, as relações humanas e uma França rural que começava a atravessar profundas transformações sociais e econômicas. Doisneau tinha uma habilidade especial para isso. Ele não precisava de acontecimentos extraordinários. Seu território era justamente o cotidiano — e sua fotografia encontrava significado em pessoas que provavelmente jamais imaginaram que seus rostos seriam observados seis décadas depois. Talvez por isso a exposição funcione melhor quando esquecemos por alguns instantes que estamos dentro de uma maison de luxo. Porque aquelas imagens fazem uma pergunta maior: o que uma empresa consegue preservar quando decide guardar sua própria memória? Uma garrafa antiga preserva líquido. Um barril preserva parte de um processo. Um arquivo fotográfico pode preservar uma época inteira. E talvez seja essa a melhor maneira de olhar para o encontro entre Robert Doisneau e Rémy Martin. Em 1961, uma maison de Cognac pediu a um fotógrafo que registrasse seu mundo. Em 2026, descobrimos que ele havia feito algo maior. Doisneau não fotografou apenas como se fazia Cognac. Fotografou quem fazia o tempo valer a pena.
OAK SERVIÇO
Robert Doisneau et Rémy Martin: Regard sur le Cognac Onde: Maison Historique Rémy Martin — Cognac, França Abertura: setembro de 2026 Em cartaz até: 19 de setembro de 2027 Acervo apresentado: 65 fotografias realizadas por Robert Doisneau em 1961 Visitação: há opções de visita apenas à exposição e experiências combinadas com visita à Maison Historique.




