Existe um exercício simples — e um tanto cruel — para medir o tamanho de uma marca. Pegue tudo aquilo que hoje parece inseparável dela e apague. No caso de The Macallan, comece pelos leilões milionários. Depois retire os decanters de cristal, as caixas de madeira impecavelmente acabadas, as boutiques, os restaurantes estrelados, as colaborações com artistas e a espetacular destilaria contemporânea que parece brotar das colinas de Speyside como se a própria paisagem tivesse contratado um arquiteto. Apague também, por alguns minutos, aquelas garrafas cor de mogno que ensinaram gerações de apreciadores a associar Macallan a uma determinada ideia de elegância. Continue voltando no tempo. Até 1824. Ali, numa propriedade rural próxima ao rio Spey, não encontramos um magnata da indústria, um financista ou um visionário cercado de investidores. Encontramos Alexander Reid. Professor. Agricultor. E, por fim, destilador. É com ele que começa uma das trajetórias mais improváveis do whisky escocês. Segundo a própria destilaria, Reid obteve sua licença para destilar em 1824 e produziu naquele mesmo ano o primeiro whisky de The Macallan, em Easter Elchies. Quase duzentos anos depois, uma única garrafa da casa seria arrematada por £2,18 milhões. É tentador saltar diretamente para esse número. Números com tantos zeros têm esse inconveniente: puxam os olhos como um incêndio no horizonte. Mas a parte mais interessante está antes. Muito antes. Porque, para compreender como uma garrafa pode chegar a valer milhões, talvez seja necessário voltar ao homem que começou tudo quando sequer existia um mercado capaz de imaginar tamanha extravagância.

O HOMEM SEM ROSTO

Há algo quase perfeito na história de Alexander Reid. Não sabemos como ele era. Não existe, até onde se conhece, um retrato sobrevivente do fundador de uma das marcas de whisky mais famosas do planeta. Seu rosto desapareceu. Sua decisão, não. A ironia é difícil de resistir. Vivemos numa época em que fundadores se tornam parte do produto, CEOs viram personagens públicos e empresas gastam fortunas tentando associar uma marca a um rosto cuidadosamente iluminado. Alexander Reid fez exatamente o contrário — ainda que involuntariamente. Desapareceu da imagem e permaneceu na história. Sabemos que foi professor e agricultor de cevada. Trabalhava numa pequena propriedade, com cerca de sete acres, arrendada nas terras do Earl of Seafield. Sete acres. Hoje, quando pensamos em Macallan, pensamos em escala global. Naquele momento, porém, a história cabia praticamente dentro de um campo. E talvez seja justamente isso que a torne interessante. O primeiro Macallan não nasceu grandioso. Nasceu pequeno. Literalmente.

1824 NÃO FOI UM ANO QUALQUER

Para entender por que Reid decidiu instalar uma destilaria naquela propriedade, é preciso recuar apenas um ano. Em 18 de julho de 1823, o Parlamento britânico aprovou o Excise Act, legislação que transformaria profundamente a produção de whisky na Escócia. Até então, boa parte do destilado produzido nas Highlands circulava num território cinzento — ou nem tão cinzento assim — em que agricultores, destiladores clandestinos, cobradores de impostos e contrabandistas conviviam numa espécie de dança permanente entre necessidade econômica e autoridade do Estado. O novo sistema tentava mudar a equação. Entre outras medidas, estabelecia uma taxa de £10 para o licenciamento de um alambique e reorganizava a tributação sobre a produção. A lógica era bastante britânica em sua pragmática elegância: se não era possível acabar com o whisky ilegal, talvez fosse mais sensato tornar o whisky legal suficientemente atraente. Funcionou. Nos anos seguintes, a destilação legal ganhou terreno, e uma nova fase da indústria escocesa começou a tomar forma. Alexander Reid estava entre os homens que aproveitaram aquela mudança. Em 1824, conseguiu sua licença. E então ocorreu algo que, visto daquele instante, devia parecer absolutamente comum. Um alambique foi aceso. Cevada fermentada encontrou cobre. Álcool começou a correr. O primeiro lote nasceu. Não houve fanfarra. Não houve fotógrafos. Nenhum crítico levantou uma taça para anunciar o começo de uma dinastia. A história, quase sempre, tem esse hábito irritante: seus momentos decisivos raramente avisam que são decisivos.

MAS COMO ERA O PRIMEIRO MACALLAN?

Aqui começamos a caminhar sobre terreno mais delicado. Porque essa talvez seja justamente a pergunta para a qual não existe resposta. Não há uma ficha de degustação de 1824 esquecida numa gaveta descrevendo notas de “passas, figos secos, chocolate amargo, especiarias e casca de laranja”. Seria confortável imaginar isso. Também seria contar a história de trás para frente. O whisky feito por Alexander Reid pertencia a outro universo técnico. Os métodos eram diferentes. Os equipamentos eram diferentes. O controle sobre fermentação e destilação estava muito distante da precisão disponível hoje. A própria indústria do Scotch ainda passaria por profundas transformações ao longo do século XIX e do início do XX. Também seria necessário esperar décadas para que a relação entre The Macallan e os barris associados ao universo do sherry ganhasse o peso que mais tarde teria na identidade da casa. Nesse processo, uma figura se tornaria fundamental: Roderick Kemp, que assumiu a destilaria em 1892 e ajudou a consolidar a reputação de qualidade que passaria a acompanhar o nome Macallan. Por isso, imaginar o whisky de Reid simplesmente como uma versão mais rústica de um Macallan contemporâneo é sedutor. E provavelmente errado. O passado não é uma versão em baixa resolução do presente. É outro mundo. Ainda assim, um elemento associado à identidade técnica de The Macallan atravessaria gerações: os pequenos alambiques.

A PRIMEIRA OBSESSÃO

The Macallan construiu parte de sua identidade em torno de alambiques excepcionalmente pequenos. A ideia por trás deles é relativamente simples: tamanho, formato e contato do líquido com o cobre influenciam o caráter do destilado. Ao longo do tempo, esses equipamentos se tornaram tão ligados à imagem da casa que ganharam praticamente um nome próprio: “Curiously Small Stills”. Hoje, eles fazem parte dos chamados Six Pillars, princípios que The Macallan utiliza para explicar elementos centrais de sua identidade. Segundo a destilaria, seu tamanho e desenho contribuem para um new make spirit rico e frutado. Há algo curioso nisso. A indústria costuma recompensar escala. Mais equipamento. Mais volume. Mais eficiência. O luxo, às vezes, caminha na direção contrária. Produz menos para preservar aquilo que considera caráter. É fácil romantizar a cena e imaginar Alexander Reid diante de seus alambiques formulando uma filosofia empresarial destinada a sobreviver por dois séculos. Certamente seria uma ótima campanha publicitária. A história, infelizmente, raramente é tão organizada. Mas a questão permanece: até onde é possível crescer sem diluir aquilo que tornou o produto especial? Toda marca de luxo, cedo ou tarde, precisa responder a essa pergunta. Algumas respondem com marketing. Outras tentam responder com tempo.

Três anos depois da fundação, aparece um número capaz de nos aproximar daquela pequena destilaria. Em 1827, entre janeiro e julho, The Macallan produziu aproximadamente 6.500 litros de álcool. Para os padrões atuais, parece quase uma quantidade artesanal. Na época, porém, o número dizia outra coisa. Aquilo já não era uma experiência improvisada de um agricultor. A destilaria funcionava. Produzia. Vendia. Encontrava compradores. Começava, lentamente, a construir reputação. E fazia isso numa região onde produzir whisky estava longe de ser novidade. Durante gerações, agricultores escoceses transformaram cevada excedente em destilado, especialmente em períodos nos quais o trabalho agrícola diminuía. O whisky podia ser produto, comércio, tradição e uma maneira engenhosa de preservar o valor de uma colheita. Reid não inventou o whisky em Speyside. Fez algo talvez mais difícil. Transformou uma prática local em um negócio capaz de sobreviver ao homem que o iniciou.

ANTES DE “MACALLAN”, HOUVE “MAGHELLAN”

Até o nome guarda uma pequena cápsula daquele mundo. A região foi historicamente associada ao nome Maghellan. Segundo a tradição apresentada pela destilaria, sua origem estaria relacionada a magh, termo ligado à ideia de “terra fértil”, combinado a uma referência a St. Fillan, santo associado à antiga igreja daquela área. Terra fértil. É difícil encontrar uma metáfora mais conveniente. Daquele pequeno pedaço de Speyside cresceria algo muito maior do que Alexander Reid poderia razoavelmente imaginar. Vieram outros proprietários. Outros mercados. Outras crises. Outras guerras. O gosto dos consumidores mudou. A Escócia mudou. A indústria mudou. Em 1892, Roderick Kemp assumiu a destilaria e se tornou uma das figuras centrais de sua história, reforçando a preocupação com qualidade, maturação e seleção de madeira. Décadas mais tarde surgiria um barril que, silenciosamente, faria a ponte entre aquela velha destilaria rural e o extravagante mercado de colecionadores do século XXI. O ano era 1926.

O BARRIL QUE ESPEROU O MUNDO MUDAR

Em 1926, destilado de The Macallan foi colocado no barril que mais tarde ficaria conhecido como cask 263. E permaneceu ali. Enquanto o século acontecia do lado de fora. Governos caíram. A Europa entrou em guerra. A televisão invadiu as salas. Homens caminharam na Lua. Computadores deixaram de ocupar edifícios e começaram a caber sobre mesas. O barril continuou parado. Madeira e álcool conversando lentamente no escuro. Durante 60 anos. Em 1986, o whisky finalmente foi engarrafado. O barril rendeu apenas 40 garrafas. Algumas receberam rótulos criados por artistas, entre eles Sir Peter Blake e Valerio Adami, transformando um whisky já excepcionalmente raro também em objeto artístico e de coleção. Uma das garrafas com rótulo de Valerio Adami chegou à Sotheby's, em Londres, em 2023. O valor final foi de: £2,18 milhões. Naquele momento, estabeleceu um recorde mundial em leilão para uma garrafa de vinho ou destilado.

Agora é preciso fazer o caminho inverso. Retire a casa de leilões. Retire os milhões. Retire o artista. Retire os sessenta anos de maturação. Volte a 1824. A um professor. A um agricultor. A sete acres de terra. A pequenos alambiques aquecendo uma propriedade às margens do Spey. De um lado, terra, cevada, cobre e trabalho. Do outro, colecionadores, arte, prestígio e milhões. Entre os dois existe quase um abismo. E, curiosamente, é justamente dentro desse abismo que mora a história de The Macallan.

QUANTO VALERIA O PRIMEIRO MACALLAN?

Provavelmente essa é a pergunta errada. Se algum recipiente comprovadamente ligado à primeira produção de Alexander Reid surgisse hoje, seu conteúdo dificilmente seria tratado apenas como whisky. Seria quase arqueologia líquida. Mas talvez o objeto mais valioso de 1824 nunca tenha sido o líquido. Foi uma sucessão de escolhas. Reid escolheu obter uma licença. Escolheu destilar. A destilaria desenvolveu e preservou uma associação com pequenos alambiques. Outras gerações consolidaram padrões de produção e maturação. Roderick Kemp ajudou a aprofundar uma cultura de qualidade e atenção à madeira. Décadas depois, outra decisão entraria para a história: deixar um whisky de 1926 amadurecer durante sessenta anos. Esperar. Palavra simples. Negócio difícil. Num mundo que recompensa velocidade, esperar pode ser uma das formas mais caras de luxo. Porque luxo costuma ser confundido com preço. É sua definição mais visível — e talvez a menos interessante. O verdadeiro luxo também pode estar em possuir tempo suficiente para recusar a pressa. Em tomar uma decisão cujo resultado não aparecerá no trimestre seguinte. Nem no ano seguinte. Talvez nem durante a vida de quem a tomou. Alexander Reid certamente não imaginou colecionadores disputando uma garrafa de sua destilaria por milhões de libras. Não imaginou boutiques internacionais. Não imaginou cristal Lalique. Não imaginou restaurantes, campanhas globais ou uma destilaria monumental integrada às colinas de Speyside. Nem sequer deixou para nós o próprio rosto. Mas, dois séculos depois, conseguimos reconhecer algo talvez mais duradouro do que uma fotografia. Uma maneira de fazer. Uma insistência. Uma ideia de caráter. A garrafa milionária veio muito depois. O luxo começou quando ainda não havia ninguém olhando.