Existe algo curioso no universo das bebidas. Somos capazes de passar horas discutindo a idade de um whisky, a origem de um gin, a complexidade de um Cognac ou a influência de determinado barril na maturação de um destilado. Mas nem sempre dedicamos a mesma atenção ao profissional que transforma todo esse conhecimento em uma experiência diante de nós. E talvez esteja aí uma das maiores injustiças da cultura das bebidas. Porque um grande bartender não é simplesmente alguém que conhece receitas. É um profissional que precisa dominar técnica, química, história, percepção sensorial e, sobretudo, pessoas. Um bom coquetel pode impressionar pelo equilíbrio. Uma grande experiência, porém, permanece na memória por algo mais difícil de explicar: a sensação de ter sido verdadeiramente bem recebido. Foi justamente essa combinação de habilidades que esteve no centro do World Class 2026, campeonato mundial de coquetelaria promovido pela Diageo, realizado na Escócia entre 18 e 23 de outubro. Profissionais de 49 países chegaram à competição depois de conquistar suas etapas nacionais. Todos tinham conhecimento, experiência e criatividade suficientes para representar seus mercados. Mas apenas uma pessoa receberia o título de Global Bartender of the Year. A vencedora foi Zana Möhlmann, nascida nos Países Baixos e representante de Singapura. O Brasil também teve uma trajetória que merece atenção: Michell Agues, de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, chegou à competição mundial depois de anos de dedicação, formação profissional e tentativas de conquistar o título nacional. Duas histórias que ajudam a compreender algo maior: a coquetelaria contemporânea está deixando de ser vista apenas como uma atividade de serviço para ocupar um espaço cada vez mais respeitado na gastronomia, na cultura e na hospitalidade internacional.
O que realmente se avalia em um campeonato mundial de coquetelaria?
Imagine precisar preparar um coquetel diante de alguns dos profissionais mais respeitados do mundo. Não basta que a bebida esteja equilibrada. É necessário explicar suas escolhas, demonstrar conhecimento sobre o destilado, executar técnicas com precisão e apresentar uma experiência que faça sentido para quem está à sua frente. O World Class 2026 explorou essas diferentes competências em desafios que envolveram marcas como Johnnie Walker, The Singleton, Tanqueray No. TEN, Don Julio e Ketel One. Em uma das provas, os participantes trabalharam velocidade e precisão. Em outra, desenvolveram harmonizações entre coquetéis e gastronomia durante uma viagem de trem até a destilaria Glen Ord. Houve também o desafio de criar uma bebida gaseificada pronta para consumo e uma apresentação na qual o coquetel precisava conquistar a atenção de uma sala inteira. Mas uma das provas mais interessantes envolveu Johnnie Walker Black Label. Os competidores precisaram desenvolver três coquetéis relacionados a músicas que representassem momentos de suas trajetórias profissionais. A proposta pode parecer simples, mas carrega uma ideia sofisticada: uma bebida também pode contar uma história. Um coquetel não precisa existir apenas para apresentar uma combinação inédita de sabores. Ele pode transmitir uma lembrança, uma referência cultural ou uma experiência pessoal. Naturalmente, existe um limite importante. Criatividade não pode servir como desculpa para a falta de equilíbrio. Um coquetel não se torna melhor apenas porque possui ingredientes raros, técnicas elaboradas ou uma apresentação extravagante. A verdadeira habilidade está em fazer com que cada elemento tenha uma função. O destilado precisa ser compreendido. Os ingredientes devem conversar entre si. A temperatura, a diluição e a textura precisam contribuir para o resultado. E, ao final, alguém precisa sentir prazer em beber aquilo. É uma exigência aparentemente óbvia, mas que separa a execução técnica da verdadeira excelência.
Zana Möhlmann e a sofisticação de fazer alguém se sentir bem recebido
A trajetória da vencedora ajuda a compreender por que o World Class valoriza tanto a hospitalidade. Nascida nos Países Baixos, Zana Möhlmann descobriu a profissão durante um período de viagens pela Ásia. Posteriormente, desenvolveu sua carreira em Amsterdã, integrando a equipe de abertura do Super Lyan, projeto de Ryan Chetiyawardana. Mais tarde, estabeleceu-se em Singapura. Atualmente, é responsável pela direção de bebidas dos bares Manhattan e East47, no Conrad Singapore Orchard. Sua vitória foi decidida por um júri internacional de 16 profissionais, entre eles Ago Perrone, do Connaught Bar, em Londres; Monica Berg, do Tayēr + Elementary; e Lorenzo Antinori, do Bar Leone, em Hong Kong. É interessante observar o que chamou a atenção dos jurados. Ao comentar o resultado, Ago Perrone destacou a imaginação, o comprometimento e a capacidade de Zana de demonstrar a hospitalidade de uma verdadeira anfitriã. Não foi apenas uma celebração da técnica. Foi o reconhecimento de uma maneira de receber pessoas. E considero essa distinção particularmente importante. Em um momento no qual tantos estabelecimentos procuram impressionar com equipamentos, apresentações e ingredientes extraordinários, existe uma qualidade que continua insubstituível: a atenção genuína ao cliente. Um bartender pode executar perfeitamente uma receita e ainda assim oferecer uma experiência indiferente. Por outro lado, um profissional que compreende as preferências de quem está diante dele consegue transformar uma bebida relativamente simples em uma lembrança especial. Zana conquistou o título mundial no dia em que completou 29 anos. Como parte do reconhecimento, terá a oportunidade de desenvolver com a Diageo um coquetel pronto para beber, previsto para chegar a diferentes mercados em 2027. É uma demonstração concreta de como a carreira de um bartender pode ultrapassar os limites de um balcão e alcançar o desenvolvimento de produtos e a representação internacional de marcas.
Michell Agues: o brasileiro que encontrou uma profissão e passou a formar outros profissionais
A história brasileira nesta edição merece um capítulo próprio. Michell Agues, de São Gonçalo, construiu uma carreira de aproximadamente duas décadas na coquetelaria. Antes de vencer o World Class Brasil 2026, havia conquistado o segundo lugar nas edições nacionais de 2022 e 2025. Poderia ter desistido. Preferiu continuar. Em maio deste ano, finalmente conquistou o título brasileiro com uma criação autoral inspirada na história do samba. Mas há um detalhe em sua trajetória que considero ainda mais significativo. Michell iniciou seu caminho na profissão com apoio do Learning for Life, programa gratuito de capacitação profissional do Instituto Diageo. Anos depois, aquele aluno chegaria à final mundial de uma das competições mais importantes do setor. É uma história que merece ser contada porque demonstra que investir na formação de profissionais pode produzir resultados que ultrapassam o ambiente de uma sala de aula. O programa Learning for Life havia formado 33.818 pessoas no Brasil até agosto de 2026, segundo dados divulgados pelo Instituto Diageo. Entre os participantes que concluíram o curso no período de julho de 2025 a julho de 2026, a instituição informa que 67% ingressaram no mercado de trabalho em até três meses. São números que merecem atenção, especialmente em um setor no qual a qualificação profissional interfere diretamente na qualidade do atendimento. A trajetória de Michell mostra uma das possibilidades concretas abertas por esse tipo de iniciativa. Hoje, além de atuar como bartender, ele desenvolve consultorias e participa da formação de novos profissionais. Segundo informações divulgadas durante a competição, acumula mais de 150 consultorias e 14 títulos em disputas internacionais de coquetelaria e flair. O reconhecimento internacional de um profissional com essa trajetória também ajuda a combater uma percepção antiga: a de que trabalhar atrás de um balcão seria apenas uma ocupação temporária. Para muitos profissionais, a coquetelaria é uma carreira construída com estudo, dedicação e especialização. E deveria ser reconhecida como tal.
Por que formar bartenders também é importante para as grandes marcas?
Existe uma dimensão econômica nessa discussão que não pode ser ignorada. Um destilado pode levar anos para ser desenvolvido. No caso de determinados whiskies, décadas. Durante esse período, produtores, master distillers, blenders e especialistas em maturação trabalham para construir características sensoriais específicas. Mas o contato final com o consumidor frequentemente acontece em poucos minutos. E, muitas vezes, quem conduz essa experiência é um bartender. É ele quem pode explicar a diferença entre dois destilados, apresentar uma maneira de consumo ou sugerir uma combinação que valorize determinadas características. Isso significa que a formação de profissionais também influencia a maneira como o público percebe a qualidade de uma marca. Um bartender bem preparado não precisa transformar o atendimento em uma apresentação comercial. Pelo contrário. Seu conhecimento permite recomendar com critério, respeitando as preferências do cliente. Para empresas como a Diageo, programas de formação e competições também representam uma estratégia de relacionamento com o setor e de valorização de seu portfólio. Existe, portanto, um interesse comercial legítimo. Mas o impacto pode ser mais amplo quando a formação oferece habilidades que permanecem com o profissional independentemente da marca com a qual ele venha a trabalhar. O conhecimento adquirido não desaparece ao final de um campeonato. Ele acompanha o bartender durante sua carreira. E chega ao consumidor por meio de experiências melhores.
A Escócia mostrou que respeitar o whisky não significa limitar suas possibilidades
A escolha da Escócia como sede da final mundial acrescentou um significado especial ao World Class 2026. Estamos falando de um país cuja história, cultura e economia possuem uma relação profunda com o whisky. Durante o evento, a Diageo também promoveu o Scotland Served, iniciativa que envolveu mais de 400 estabelecimentos escoceses em experiências relacionadas ao Scotch Whisky e à coquetelaria. Para quem acompanha o universo do whisky, essa aproximação merece atenção. Ainda encontramos consumidores que acreditam que determinados rótulos devem ser apreciados exclusivamente puros. Mas a história dos coquetéis mostra que o whisky participa há muito tempo de receitas clássicas. A questão não deveria ser estabelecer uma única maneira correta de consumo. Deveria ser compreender o que acontece sensorialmente em cada preparação. O gelo modifica a temperatura e a diluição. A água pode alterar a percepção aromática. Ingredientes ácidos, doces e amargos influenciam o equilíbrio final. Um profissional que compreende esses mecanismos consegue trabalhar com maior precisão. E existe uma diferença importante entre esconder as características de um whisky e utilizá-las intencionalmente para construir uma experiência. Um blend equilibrado pode oferecer versatilidade. Um whisky com notas frutadas pode estabelecer relações interessantes com determinados ingredientes. Já um destilado intensamente defumado exige cuidado para que suas características não dominem completamente a receita. Nenhuma dessas possibilidades representa, por si só, uma falta de respeito ao produto. Respeitar um destilado significa conhecer sua identidade e compreender as consequências das escolhas feitas durante o preparo. É justamente esse conhecimento que diferencia um bartender especializado de alguém que apenas reproduz receitas.
O Brasil precisa olhar com mais atenção para quem está atrás do balcão
Nos últimos anos, aprendemos a reconhecer o trabalho dos grandes chefs. Sabemos seus nomes, acompanhamos seus restaurantes e compreendemos que uma experiência gastronômica pode carregar uma visão autoral. Com os bartenders, esse reconhecimento ainda está em construção. E deveria avançar. O Brasil possui ingredientes extraordinários, tradições regionais e profissionais capazes de desenvolver uma linguagem própria na coquetelaria internacional. Mas não basta utilizar frutas tropicais ou referências culturais brasileiras para construir identidade. É necessário dominar técnicas, conhecer profundamente os ingredientes e compreender como transformar repertório em experiências consistentes. A trajetória de Michell Agues demonstra que existe talento e dedicação para competir nesse ambiente internacional. O próximo passo é ampliar a visibilidade desses profissionais, fortalecer sua formação e criar oportunidades para que compartilhem conhecimento. Também cabe ao consumidor participar dessa valorização. Quando visitamos um bar, podemos ir além de simplesmente escolher uma bebida pelo nome. Podemos perguntar sobre a proposta da carta, conhecer os destilados utilizados e compreender as escolhas de quem desenvolveu as receitas. Não é necessário dominar termos técnicos para apreciar uma boa experiência. Basta curiosidade. E um bom bartender saberá transformar essa curiosidade em uma conversa agradável.
O verdadeiro prêmio está além do troféu
O World Class 2026 terminou com uma vencedora, dezenas de profissionais reconhecidos e novas histórias para a coquetelaria internacional. Mas talvez seu maior valor esteja naquilo que permanece depois da competição. Zana Möhlmann volta ao trabalho com uma responsabilidade ainda maior como referência internacional. Michell Agues retorna ao Brasil levando uma experiência que poderá compartilhar com outros profissionais. E os participantes de diferentes países levam consigo novas técnicas, referências e conexões. A formação continua. O trabalho continua. E os clientes continuam chegando aos bares. É ali, longe dos jurados e das câmeras, que o conhecimento precisa encontrar seu verdadeiro propósito. Porque a excelência não está apenas na capacidade de preparar uma bebida tecnicamente perfeita. Está em compreender que, do outro lado do balcão, existe uma pessoa com expectativas, preferências e histórias próprias. Na Revista OAK, acreditamos que a cultura das bebidas merece ser discutida com a mesma profundidade dedicada à gastronomia, à arquitetura, ao design e às demais expressões de um estilo de vida sofisticado. Isso significa olhar para os destilados, naturalmente. Mas também para quem os produz, estuda, apresenta e serve. Significa reconhecer o trabalho dos bartenders brasileiros, compreender as transformações do setor e valorizar iniciativas que contribuam para elevar o conhecimento profissional. O World Class 2026 oferece um excelente ponto de partida para essa conversa. E deixa uma reflexão que considero particularmente importante: O melhor bartender do mundo não é apenas aquele que sabe preparar uma bebida extraordinária. É aquele que compreende que a pessoa diante dele é ainda mais importante do que aquilo que existe dentro do copo.
OAK EM 30 SEGUNDOS | WORLD CLASS 2026
O mundo escolheu sua melhor bartender. E o Brasil fez história. O que aconteceu: A Diageo reuniu bartenders de 49 países na Escócia para o World Class 2026. Zana Möhlmann, representante de Singapura, conquistou o título mundial. O brasileiro Michell Agues alcançou o Top 12, o melhor resultado nacional na história da competição. O que merece atenção: Mais do que preparar coquetéis, os competidores foram avaliados por criatividade, domínio técnico e hospitalidade. O campeonato evidencia como o bartender se tornou um profissional fundamental na cultura das bebidas. O olhar da OAK: O verdadeiro luxo de um bar não está apenas na raridade das garrafas ou na sofisticação das receitas. Está no conhecimento de quem serve e na capacidade de transformar uma bebida em uma experiência memorável. Nossa avaliação Técnica e conhecimento: ★★★★★ Criatividade e inovação: ★★★★★ Hospitalidade: ★★★★★ Relevância para o Brasil: ★★★★★ Em uma frase: Um grande bartender não serve apenas coquetéis. Serve conhecimento, cultura e hospitalidade.





