Durante séculos, a Escócia aprendeu que fazer whisky exige paciência. Agora está descobrindo que, às vezes, exige também saber quando parar. Alambiques que deveriam estar produzindo new make permanecem silenciosos. Destilarias diminuem ritmos. Armazéns continuam recebendo barris enquanto executivos refazem projeções sobre um consumidor que mudou mais depressa do que o líquido consegue envelhecer. Depois de aproximadamente 15 anos de expansão, o Scotch voltou a conviver com uma expressão que sua indústria preferia deixar nos livros de história: “whisky loch” — o lago de whisky. Um excesso de destilado amadurecendo enquanto a demanda não acompanha o ritmo imaginado anos atrás. A comparação com a crise dos anos 1980 é inevitável, embora o cenário atual ainda não tenha a mesma dimensão. O problema nasce de uma peculiaridade quase cruel dessa indústria: whisky é uma previsão econômica engarrafada muitos anos depois. Uma montadora pode diminuir a produção quando percebe que seus carros deixaram de vender. Uma destilaria que pretende colocar no mercado um single malt de 18 anos em 2044 precisa começar a produzi-lo em 2026. É preciso adivinhar o futuro. E a Escócia aparentemente exagerou na dose. O Financial Times estima aproximadamente 1,4 bilhão de litros de whisky atualmente em maturação, estoque equivalente a cerca de três anos de consumo. Ao mesmo tempo, destilarias começaram a interromper ou reduzir produção. A Holyrood, em Edimburgo, está entre aquelas que paralisaram seus alambiques; a GlenWyvis anunciou dificuldades financeiras; e até grandes grupos vêm ajustando capacidade e custos. Mas chamar isso simplesmente de “crise mundial do whisky” seria precipitado. Porque existe uma segunda história acontecendo milhares de quilômetros ao sul da Escócia. E ela passa pelo Brasil.
O MUNDO DESACELEROU. O BRASIL ACELEROU.
Em 2024, as exportações mundiais de Scotch caíram 3,7% em valor. No mesmo ano, a América Central e do Sul avançou 22,4%, movimentando aproximadamente £500 milhões em Scotch exportado pela Escócia. O Brasil foi ainda mais revelador. Chegaram ao país o equivalente a 52 milhões de garrafas de 700 ml — aproximadamente 10 milhões de garrafas a mais do que no ano anterior. Crescimento de 22,8% em apenas doze meses. Isso colocou o Brasil entre os dez maiores destinos do Scotch no mundo em volume, à frente de mercados historicamente importantes. Há outra pista interessante nos dados brasileiros. Entre abril de 2025 e março de 2026, as importações de whisky pelo país cresceram cerca de 17% em valor, enquanto o volume avançou apenas 1,3%. O valor médio implícito das importações, portanto, aumentou fortemente. Esses números abrangem whisky em geral, não apenas Scotch, mas sugerem que o mercado brasileiro não está simplesmente colocando mais garrafas na mesa: há também mais dinheiro circulando por garrafa importada. E isso muda completamente a maneira como devemos olhar para a crise escocesa. Talvez o problema do whisky não seja simplesmente haver gente bebendo menos. Talvez seja onde estão as pessoas que ainda querem beber — e qual whisky elas querem comprar.
O BRASIL PODE GANHAR COM A CRISE?
À primeira vista, a conta parece simples: se existe whisky demais na Escócia e a demanda mundial perdeu velocidade, os preços deveriam cair. No whisky, porém, quase nenhuma conta é tão simples. O excesso não está distribuído igualmente entre categorias, idades e destilarias. Um grande estoque de destilado jovem destinado a blends não cria, por encanto, mais Macallan 18, Talisker 25 ou Springbank 21. Whisky em excesso não significa whisky raro em excesso. Para o Brasil, o efeito mais provável pode acontecer antes nas estratégias comerciais do que nas etiquetas. Quando mercados maduros perdem força, países que ainda apresentam crescimento deixam de ser coadjuvantes no mapa das grandes companhias. Em 2024, enquanto as exportações globais de Scotch recuaram 3,7% em valor, a América Central e do Sul avançou 22,4%. O Brasil recebeu o equivalente a 52 milhões de garrafas de 700 ml, crescimento de 22,8% em volume sobre o ano anterior. É difícil ignorar o recado desses números. Durante muito tempo, o brasileiro foi tratado pela indústria internacional como consumidor promissor. Agora começa a interessar também como consumidor necessário. Isso pode significar mais lançamentos chegando oficialmente ao país, maior variedade de rótulos, campanhas mais agressivas, disputa por espaço no varejo e investimentos para conquistar um consumidor que ainda está ampliando seu repertório. Não significa, necessariamente, uma liquidação de Scotch. Preço no Brasil continua atravessando câmbio, impostos, logística, margens de distribuição e posicionamento de marca. Além disso, diante de estoques elevados, grandes grupos podem preferir diminuir a produção presente a destruir o valor percebido de produtos construídos durante décadas como símbolos de prestígio. É justamente o que o silêncio de alguns alambiques começa a dizer. Às vezes, a maneira mais eficiente de proteger o preço do whisky amanhã é produzir menos whisky hoje. E aí surge a grande vantagem desta crise. Enquanto a Escócia tenta descobrir como produzir menos, o Brasil talvez esteja começando a descobrir como beber melhor.
A ESCÓCIA JÁ VIU ESSE FILME
Há um detalhe incômodo nessa história: não é a primeira vez. No fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, a indústria escocesa também acreditou que o crescimento continuaria. Produziu, expandiu capacidade e encheu armazéns para abastecer uma demanda futura que acabou não chegando como esperado. Quando o consumo perdeu força, sobrou whisky. O fenômeno ficou conhecido como “Whisky Loch” — o lago de whisky — e deixou cicatrizes profundas. Destilarias reduziram produção; outras fecharam. Nomes que hoje despertam veneração entre colecionadores passaram anos tratados quase como ativos dispensáveis de uma indústria tentando sobreviver ao próprio excesso. Port Ellen encerrou a produção em 1983. Brora havia fechado no mesmo ano. St. Magdalene também desapareceu naquele período. Décadas depois, garrafas produzidas por algumas dessas destilarias passariam a alcançar valores extraordinários no mercado secundário — e Port Ellen e Brora acabariam ressuscitadas pela Diageo. É uma das ironias mais elegantes do whisky: aquilo que um dia existiu em excesso pode, com tempo suficiente, tornar-se raridade. Mas seria um erro olhar para 2026 e simplesmente anunciar a repetição de 1983. A indústria de hoje é maior, mais internacional e menos dependente dos mesmos mercados. Índia, Brasil e outras economias emergentes alteraram a geografia do consumo. O próprio Scotch deixou de depender apenas daquele bebedor tradicional que colocava uma dose de blended whisky no copo ao final do dia. Há highballs, coquetelaria, turismo de destilarias, colecionismo, lançamentos especiais e uma geração que chegou ao whisky por caminhos que praticamente não existiam durante a última grande crise. Por isso, talvez não estejamos diante de uma crise mundial do whisky. Estamos diante de algo mais interessante: uma correção mundial das expectativas sobre ele. A Escócia produziu durante anos acreditando que o crescimento seria contínuo. Agora precisa encontrar equilíbrio entre os milhões de litros que já colocou para dormir e um consumidor que acordou diferente. Para o Brasil, esse rearranjo merece ser acompanhado de perto. Se o país continuar crescendo enquanto mercados tradicionais amadurecem ou recuam, seu peso dentro das decisões das grandes companhias tende a aumentar. Não apenas como destino para blends de grande volume, mas como mercado capaz de receber portfólios mais amplos, experiências, educação e produtos de maior valor agregado. Talvez essa seja a oportunidade escondida atrás dos alambiques silenciosos. Porque toda crise de excesso obriga uma indústria a responder a duas perguntas. Quanto devemos produzir? E, principalmente: para quem estamos produzindo? Hoje, uma parte cada vez mais importante dessa resposta pode estar a quase dez mil quilômetros das Highlands. No Brasil.
VAI FICAR MAIS BARATO?
É provavelmente a pergunta que o consumidor fará primeiro. Se existe whisky demais amadurecendo na Escócia, as garrafas vão ficar mais baratas? Talvez algumas. O whisky, como categoria, não necessariamente. O primeiro erro seria imaginar milhões de barris excedentes sendo despejados no mercado com etiquetas promocionais. Grandes grupos construíram marcas durante décadas e dificilmente sacrificarão posicionamento para resolver em poucos meses um problema que pode ser administrado durante anos. Há ainda câmbio, impostos, frete, distribuição e margens locais entre um armazém em Speyside e uma prateleira em São Paulo. Mas existe outra força em jogo. Se Estados Unidos, Europa e China compram com menos entusiasmo enquanto Brasil, Índia e outros mercados continuam relevantes, aumenta a disputa por esses consumidores. E essa concorrência pode aparecer não apenas no preço, mas naquilo que talvez seja ainda mais interessante para quem gosta de whisky: mais rótulos, lançamentos, ativações, educação e portfólios antes reservados aos mercados considerados prioritários. O Brasil pode deixar de ser apenas um país para onde se exporta whisky e tornar-se um país pelo qual as marcas disputam espaço. Há, porém, uma última ironia escondida dentro dos alambiques que estão sendo desligados agora. Whisky que não for produzido em 2026 simplesmente não existirá em 2036. Se a indústria reduzir demais a produção para corrigir o excesso atual e a demanda voltar a crescer nos próximos anos, determinadas categorias e idades poderão enfrentar o problema inverso no futuro. É o paradoxo que torna esse negócio tão fascinante. Quando existe whisky demais, já é tarde para produzir menos. Quando existe whisky de menos, já é tarde para produzir mais. Por isso, falar em “crise mundial do whisky” talvez seja simples demais. O que existe hoje é uma indústria corrigindo uma aposta feita anos atrás. Alguns mercados perderam velocidade. Outros continuam crescendo. Há estoques elevados, alambiques silenciosos e executivos tentando calcular quanto whisky alguém desejará beber quando 2026 já for uma fotografia antiga. E no meio desse rearranjo está um país que, durante décadas, parecia sempre ocupar a promessa do futuro. O Brasil. Desta vez, porém, há uma diferença. Enquanto parte do mundo desacelera, o brasileiro continua construindo repertório, descobrindo regiões, entendendo barris, migrando de blends para single malts e aprendendo que idade, raridade e preço não são sinônimos de qualidade. Talvez seja justamente aí que esteja a oportunidade. A Escócia não precisa apenas descobrir quanto whisky produzir. Precisa descobrir quem será o próximo grande consumidor dele. Milhões de barris permanecem imóveis nos armazéns escoceses enquanto essa resposta é procurada. O líquido espera. O mercado, não.




