Durante décadas, as companhias aéreas aperfeiçoaram uma ciência pouco romântica: descobrir quantas pessoas poderiam colocar dentro de um avião sem comprometer excessivamente a experiência. Mais assentos. Menos espaço. Melhor aproveitamento da aeronave. A Air France decidiu investir também na direção contrária. Retirou assentos, criou suítes privativas, ampliou sua oferta gastronômica e transformou a primeira classe em uma extensão do universo do luxo francês. Então veio a guerra no Irã. O combustível ficou mais caro, rotas foram afetadas e empresas aéreas passaram a rever sua capacidade. Nesta sexta-feira, 18 de setembro de 2026, o presidente-executivo do grupo Air France-KLM, Ben Smith, revelou à Reuters que a receita das viagens premium e de primeira classe cresceu 11%, mesmo depois de aumentos nas tarifas. Reuters +1 A questão deixou de ser apenas quanto custa voar com luxo. Passou a ser quanto uma companhia aérea consegue ganhar oferecendo menos lugares — e cobrando muito mais por eles.

QUATRO SUÍTES PARA QUEM NÃO QUER SENTIR QUE ESTÁ NUM AVIÃO

A nova geração da La Première foi apresentada em março de 2025. Nos Boeing 777-300ER equipados com o produto, são apenas quatro suítes. Cada uma reúne uma poltrona, uma chaise longue e uma cama de aproximadamente dois metros, com cortinas que permitem criar um espaço privativo. O investimento não nasceu de uma simples vontade de oferecer conforto. A companhia pretendia disputar passageiros capazes de escolher entre a aviação comercial de primeira classe e um jato particular. Reuters Essa é uma mudança importante na definição de concorrência. Para parte dos passageiros, a alternativa à Air France não é necessariamente a Lufthansa ou a British Airways. É uma aeronave executiva. A primeira classe comercial não oferece a mesma liberdade de horários, aeroportos e itinerários de um jato privado. Mas pode entregar privacidade, gastronomia e serviço sofisticado aproveitando uma estrutura operacional compartilhada com centenas de outros passageiros. É uma proposta econômica diferente. E, segundo Smith, alguns antigos usuários de jatos particulares estão escolhendo a primeira classe, inclusive para evitar a exposição associada às emissões da aviação privada.

A alta do combustível e as alterações de rotas pressionam a aviação comercial. A Air France aposta na receita das cabines superiores para ajudar a enfrentar esse cenário. Crédito: Air France

O conflito no Irã elevou os custos de combustível e provocou mudanças nas operações aéreas internacionais. Em 16 de setembro, American Airlines, United Airlines e Southwest Airlines informaram ajustes em seus planos de capacidade diante da pressão sobre os custos. A American estimou que a recente alta do combustível acrescentaria aproximadamente US$ 1 bilhão às suas despesas do quarto trimestre. Reuters A Air France também enfrenta esse ambiente. Mas sua estratégia de receitas está produzindo um resultado relevante. Em entrevista à Reuters, Smith afirmou que as reservas e receitas das cabines superiores continuam crescendo, apesar do aumento das passagens. A receita de viagens premium e de primeira classe avançou 11%, segundo dados fornecidos pela companhia. Reuters O número merece atenção, mas também uma distinção: crescimento de receita não significa, isoladamente, crescimento equivalente de lucro. A empresa não divulgou nessa entrevista uma margem específica que permita medir quanto desse avanço efetivamente compensou o aumento dos custos. Ainda assim, o dado mostra que a companhia encontrou passageiros dispostos a pagar tarifas mais elevadas num momento em que o setor enfrenta dificuldades. E isso nos leva à verdadeira estratégia.

PARIS É O PRODUTO QUE A CONCORRÊNCIA NÃO CONSEGUE COPIAR

Gastronomia, Champagne e serviço de inspiração francesa são componentes da experiência premium da companhia. Crédito: Air France

Uma poltrona pode ser copiada. Uma cama maior também. Outra companhia pode contratar um chef famoso, melhorar seus vinhos e instalar portas nas suítes. Mas existe um ativo que a Air France possui de maneira particularmente convincente: sua associação com Paris. A cidade concentra moda, gastronomia, hotelaria, arte e algumas das marcas mais reconhecidas do luxo mundial. A companhia utiliza esse repertório para construir uma experiência que começa antes de o passageiro chegar à França. Em seus serviços, a Air France trabalha com chefs renomados e uma seleção de vinhos e destilados franceses. A carta de bebidas contou com a curadoria do sommelier Xavier Thuizat, ligado ao Hôtel de Crillon. Air France KLM Não se trata simplesmente de servir Champagne a bordo. Trata-se de fazer com que o passageiro reconheça a França antes mesmo de aterrissar. Em sua entrevista à Reuters, Smith destacou precisamente o poder da capital francesa como destino cultural e de luxo. Reuters A Air France não está tentando transformar qualquer avião em um hotel de luxo. Está tentando transformar seu avião em uma experiência francesa.

O PARADOXO: MENOS PASSAGEIROS, MAIS RECEITA

Com apenas quatro suítes nos aviões equipados com a nova La Première, a Air France aposta na disposição de determinados passageiros de pagar mais por espaço, privacidade e atendimento. Crédito: Air France

A primeira classe ocupa um espaço que poderia receber um número maior de passageiros em outra configuração. Por isso, oferecer luxo não é automaticamente um bom negócio. O preço cobrado precisa justificar a área utilizada, os custos adicionais de serviço e o investimento na cabine. A Air France já havia informado que seu serviço de primeira classe era lucrativo quando apresentou a nova La Première em 2025. Naquele momento, Smith também destacou o crescimento dos clientes de luxo que viajavam por lazer. Reuters O movimento ganhou uma dimensão maior nos resultados do grupo. Em fevereiro de 2026, a Air France-KLM anunciou lucro operacional recorde superior a € 2 bilhões referente a 2025. A Reuters apontou a força da demanda premium como um dos fatores do desempenho, ao lado de condições favoráveis de combustível naquele exercício. Reuters Agora, com o combustível mais caro, a estratégia enfrenta um teste diferente. A questão não é provar que todo passageiro rico continuará viajando independentemente das condições econômicas. É descobrir se uma combinação de marca, experiência e exclusividade permite à companhia preservar receita quando os custos aumentam. Os dados divulgados até agora indicam crescimento nas cabines superiores, mas não demonstram que o luxo, sozinho, seja responsável pela resiliência financeira da empresa.

O LUXO ESTÁ DEIXANDO DE VENDER APENAS OBJETOS

A transformação da Air France faz parte de uma mudança mais ampla. Marcas de luxo estão procurando maneiras de ampliar o tempo que seus clientes passam dentro de seus universos. Uma maison de moda pode abrir um restaurante. Um fabricante de automóveis pode criar residências. Uma companhia aérea pode transformar a viagem numa experiência de gastronomia, design e hospitalidade. O produto continua existindo. Mas deixa de ser a única razão da compra. Para a Air France, isso significa que a experiência começa muito antes de o avião pousar em Paris. O passageiro não compra apenas um assento entre duas cidades. Compra espaço, serviço, privacidade e uma interpretação particular do estilo de vida francês. A guerra tornou essa estratégia economicamente mais relevante — embora também tenha exposto a companhia aos mesmos riscos de combustível e operação enfrentados pelo restante do setor. Talvez a grande transformação da aviação premium esteja justamente aí. Durante décadas, as empresas procuraram ganhar mais dinheiro descobrindo quantos passageiros caberiam dentro de um avião. A Air France está tentando demonstrar que, para alguns passageiros, o verdadeiro luxo começa quando sobra espaço.

OAK EM 30 SEGUNDOS

AIR FRANCE LA PREMIÈRE O luxo francês a 35 mil pés. Companhia: Air France. Produto: La Première — primeira classe de luxo. Aeronave: Boeing 777-300ER equipado com a nova cabine. Configuração: Apenas quatro suítes privativas por aeronave. Conforto: Poltrona, chaise longue e cama de aproximadamente dois metros. Gastronomia: Alta cozinha, vinhos e Champagne. Nova geração: Apresentada em março de 2025. Desempenho: Crescimento divulgado de 11% na receita das viagens premium e de primeira classe. O DIFERENCIAL: Uma experiência que combina privacidade, gastronomia e hospitalidade francesa para disputar até mesmo passageiros da aviação executiva. O NEGÓCIO: Menos assentos, tarifas mais elevadas e maior receita nas cabines superiores. O crescimento divulgado é de receita, não necessariamente de lucro. PARA VIVER: Uma experiência de viagem para quem valoriza espaço, privacidade e atendimento personalizado. PARA OBSERVAR: Se a expansão das receitas premium continuará compensando os custos crescentes de combustível e operação. O OLHAR OAK: Durante décadas, as companhias aéreas tentaram descobrir quantas pessoas cabiam dentro de um avião. A Air France aposta em outra pergunta: quanto alguém está disposto a pagar para esquecer que está dividindo a aeronave com outras centenas?