Destaque editorial
Whisky & Spirits
O clube que transformou os single malts em objeto de culto acaba de quebrar sua própria tradição

Existe um preconceito curioso no universo do whisky: quanto mais sofisticado o apreciador acredita ser seu paladar, maior parece ser sua necessidade de demonstrar distância dos blended whiskies. É uma hierarquia informal, construída ao longo de décadas, na qual o single malt frequentemente ocupa o lugar de protagonista e o blended acaba relegado à condição de coadjuvante.
Pois uma das instituições mais respeitadas entre os entusiastas resolveu colocar essa certeza à prova.
Nesta segunda-feira, 26 de outubro, a Scotch Malt Whisky Society anunciou o lançamento do The Blender’s Notebook, um blended Scotch whisky de 18 anos, engarrafado a 50% de álcool. A novidade é especialmente interessante porque a sociedade construiu sua reputação internacional selecionando barris individuais e valorizando as características particulares de cada whisky.
Agora, decidiu demonstrar o que acontece quando diferentes destilados trabalham juntos.
A composição reúne aproximadamente 70% de malt whiskies e 30% de grain whiskies. Segundo a própria sociedade, cerca de 60% dos componentes passaram por barris ligados ao universo do Jerez, enquanto os outros 40% receberam influência de barris ex-bourbon. A receita inclui whiskies de diferentes idades, entre eles componentes de 20 e 27 anos.
E aqui aparece uma primeira lição.
Se existem whiskies de 27 anos dentro da composição, por que a garrafa informa apenas 18? Porque, pela legislação escocesa, a idade declarada de um blended Scotch corresponde ao componente mais jovem utilizado. A idade do whisky não é uma média matemática dos destilados que o compõem.
A segunda lição é ainda mais interessante.
Blending não significa necessariamente diluir personalidade. Quando executado com competência, pode representar uma das atividades mais exigentes da produção de whisky: compreender diferentes estruturas aromáticas, antecipar como elas irão interagir e construir um resultado que nenhum componente isolado conseguiria oferecer.
Naturalmente, a excelência não está garantida pela categoria. Existem single malts extraordinários e blended whiskies extraordinários, assim como existem exemplares pouco interessantes em ambos os grupos.
O lançamento da SMWS é importante justamente por deslocar a discussão. Em vez de perguntar se um whisky é single malt ou blended, talvez devêssemos começar perguntando o que ele consegue expressar.
A sociedade não abandonou sua identidade. Pelo contrário: utilizou sua experiência com barris individuais para experimentar outra forma de composição.
Há uma ironia elegante nisso tudo. Uma instituição associada à celebração das diferenças entre os whiskies resolveu mostrar que algumas diferenças podem se tornar ainda mais interessantes quando reunidas.
Talvez o verdadeiro sinal de conhecimento não seja defender uma categoria a qualquer custo.
Seja ter repertório suficiente para reconhecer qualidade mesmo quando ela aparece em uma garrafa que contraria nossas preferências.





