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Whisky & Spirits

OAK Radar — Quando até os puristas quebram as próprias regras

A Scotch Malt Whisky Society estreia no universo dos blended whiskies, Johnnie Walker reúne duas gerações de Brora e Aberfeldy desafia nossa compreensão da maturação.

Por Equipe OAK 11 min de leitura 5 notícias

OAK Radar — Quando até os puristas quebram as próprias regras
O The Blender’s Notebook marca a estreia da Scotch Malt Whisky Society em uma categoria que, durante décadas, ocupou um lugar diferente dos single malts em seu universo de apreciadores.Divulgação / Scotch Malt Whisky Society.

Há tradições que sobrevivem porque resistem às mudanças. Outras permanecem relevantes justamente porque sabem quando questionar suas próprias certezas. No universo do whisky, onde uma palavra no rótulo pode valer mais do que anos de trabalho dentro de uma destilaria, essa diferença merece atenção.

A Scotch Malt Whisky Society, reconhecida por selecionar e engarrafar whiskies de barris individuais, acaba de apresentar um blended Scotch. A Johnnie Walker decidiu reunir, em uma mesma composição, destilados de Brora produzidos antes e depois de seu fechamento histórico. E a Aberfeldy escolheu dedicar seis anos de maturação a uma etapa que muitos consumidores ainda chamariam simplesmente de acabamento.

São três histórias que colocam em perspectiva nossas ideias sobre categoria, idade e identidade.

Mas o Radar de hoje também olha para aquilo que acontece fora da taça. Um incidente ambiental em Speyside levanta questões sobre a responsabilidade de uma indústria profundamente ligada à paisagem escocesa. Em Paris, o encerramento antecipado de uma das maiores feiras de arte do mundo revela como funcionam os privilégios de acesso no mercado do colecionismo.

No fundo, todas essas histórias tratam da mesma questão: a diferença entre preservar o valor de uma tradição e transformá-la em uma verdade que ninguém mais pode discutir.

Destaque editorial

Whisky & Spirits

O clube que transformou os single malts em objeto de culto acaba de quebrar sua própria tradição

O clube que transformou os single malts em objeto de culto acaba de quebrar sua própria tradição
Com aproximadamente 70% de malt whisky e 30% de grain whisky, o The Blender’s Notebook questiona antigas divisões entre as categorias do Scotch.Divulgação / Scotch Malt Whisky Society.

Existe um preconceito curioso no universo do whisky: quanto mais sofisticado o apreciador acredita ser seu paladar, maior parece ser sua necessidade de demonstrar distância dos blended whiskies. É uma hierarquia informal, construída ao longo de décadas, na qual o single malt frequentemente ocupa o lugar de protagonista e o blended acaba relegado à condição de coadjuvante.

Pois uma das instituições mais respeitadas entre os entusiastas resolveu colocar essa certeza à prova.

Nesta segunda-feira, 26 de outubro, a Scotch Malt Whisky Society anunciou o lançamento do The Blender’s Notebook, um blended Scotch whisky de 18 anos, engarrafado a 50% de álcool. A novidade é especialmente interessante porque a sociedade construiu sua reputação internacional selecionando barris individuais e valorizando as características particulares de cada whisky.

Agora, decidiu demonstrar o que acontece quando diferentes destilados trabalham juntos.

A composição reúne aproximadamente 70% de malt whiskies e 30% de grain whiskies. Segundo a própria sociedade, cerca de 60% dos componentes passaram por barris ligados ao universo do Jerez, enquanto os outros 40% receberam influência de barris ex-bourbon. A receita inclui whiskies de diferentes idades, entre eles componentes de 20 e 27 anos.

E aqui aparece uma primeira lição.

Se existem whiskies de 27 anos dentro da composição, por que a garrafa informa apenas 18? Porque, pela legislação escocesa, a idade declarada de um blended Scotch corresponde ao componente mais jovem utilizado. A idade do whisky não é uma média matemática dos destilados que o compõem.

A segunda lição é ainda mais interessante.

Blending não significa necessariamente diluir personalidade. Quando executado com competência, pode representar uma das atividades mais exigentes da produção de whisky: compreender diferentes estruturas aromáticas, antecipar como elas irão interagir e construir um resultado que nenhum componente isolado conseguiria oferecer.

Naturalmente, a excelência não está garantida pela categoria. Existem single malts extraordinários e blended whiskies extraordinários, assim como existem exemplares pouco interessantes em ambos os grupos.

O lançamento da SMWS é importante justamente por deslocar a discussão. Em vez de perguntar se um whisky é single malt ou blended, talvez devêssemos começar perguntando o que ele consegue expressar.

A sociedade não abandonou sua identidade. Pelo contrário: utilizou sua experiência com barris individuais para experimentar outra forma de composição.

Há uma ironia elegante nisso tudo. Uma instituição associada à celebração das diferenças entre os whiskies resolveu mostrar que algumas diferenças podem se tornar ainda mais interessantes quando reunidas.

Talvez o verdadeiro sinal de conhecimento não seja defender uma categoria a qualquer custo.

Seja ter repertório suficiente para reconhecer qualidade mesmo quando ela aparece em uma garrafa que contraria nossas preferências.

Whisky & Colecionismo

Uma destilaria fechou em 1983. Agora, seu passado e seu futuro estão dentro do mesmo Johnnie Walker

Uma destilaria fechou em 1983. Agora, seu passado e seu futuro estão dentro do mesmo Johnnie Walker
O Johnnie Walker Vault reúne duas gerações de Brora em uma composição que conecta a história da destilaria à sua produção contemporânea.Divulgação / Diageo — Johnnie Walker.

Imagine abrir uma garrafa e encontrar, em uma mesma composição, whiskies produzidos em uma destilaria antes de seu fechamento e outros destilados depois de sua reabertura, décadas mais tarde. É essa a proposta de um dos lançamentos mais interessantes da Johnnie Walker em 2026.

Apresentado em 14 de outubro, o Johnnie Walker Vault é o primeiro blended Scotch permanente da linha de prestígio criada no espaço de experimentação da marca, em Edimburgo. A composição foi desenvolvida pela master blender Emma Walker e tem como um de seus elementos centrais a destilaria Brora.

A história de Brora ajuda a explicar a relevância do lançamento. Fechada em 1983, a destilaria tornou-se um nome de culto entre colecionadores. Sua reabertura, em 2021, criou uma situação rara: a possibilidade de comparar destilados produzidos em dois períodos separados por quase quatro décadas.

Emma Walker decidiu ir além da comparação e reunir essas duas gerações no mesmo whisky.

O resultado também utiliza componentes associados a outras destilarias e instalações históricas do grupo, incluindo Clynelish, Cardhu e Port Dundas. A garrafa, de desenho geométrico, é apresentada como uma expressão permanente, embora sua distribuição inicial seja restrita.

Com preço sugerido de £1.100, o lançamento é vendido em canais selecionados, entre eles a Harrods, em Londres, e a Johnnie Walker Experience, em Edimburgo.

Mas seu verdadeiro interesse não está no preço.

O blending permite construir experiências que não dependem exclusivamente da personalidade de uma destilaria. Ao combinar componentes produzidos em épocas diferentes, um master blender pode criar relações entre estilos, texturas e características aromáticas que não existiriam da mesma forma em um single malt.

É importante, porém, não confundir essa possibilidade com uma garantia de superioridade. A presença de um whisky raro não torna automaticamente extraordinária toda a composição.

O que o Johnnie Walker Vault oferece é uma interpretação líquida da memória de Brora.

E talvez essa seja uma das possibilidades mais interessantes do blended Scotch: não apenas reunir whiskies de lugares diferentes, mas permitir que períodos distintos da história conversem dentro de uma mesma taça.

Whisky & Spirits

Aberfeldy passou seis anos no Madeira. Quando um acabamento deixa de ser apenas um acabamento?

Aberfeldy passou seis anos no Madeira. Quando um acabamento deixa de ser apenas um acabamento?
Limitado a 276 garrafas, o Aberfeldy 27 Years Old Madeira Double Cask propõe uma discussão sobre o papel de longos acabamentos na identidade de um single malt.Divulgação / Dewar’s Aberfeldy Distillery.

A palavra *finishing* tornou-se tão comum no mercado de whisky que muitas vezes deixamos de questionar o que realmente significa. Em geral, ela descreve a transferência de um destilado já maturado para outro tipo de barril, buscando acrescentar novas características sensoriais. Mas o lançamento de um Aberfeldy de 27 anos apresenta uma pergunta pouco habitual: e quando essa segunda etapa dura seis anos?

Anunciado em 20 de outubro, o Aberfeldy 27 Years Old Madeira Double Cask integra a Exceptional Cask Series da destilaria escocesa. Selecionado pela malt master Stephanie Macleod, o whisky passou aproximadamente 21 anos em carvalho anteriormente utilizado para bourbon antes de seguir para barris de vinho Madeira, onde permaneceu por mais seis anos.

A edição é limitada a 276 garrafas, engarrafadas a 55,4% de álcool, com preço sugerido de £600.

A proporção de tempo merece atenção. Seis anos representam mais de um quinto da maturação total declarada. Isso não significa que a segunda madeira tenha contribuído exatamente com essa mesma proporção para o resultado sensorial. A influência de um barril depende de diversos fatores, incluindo sua atividade, histórico de uso, composição química e condições de armazenamento.

Também não existe uma regra universal que determine um limite fixo de duração para que uma transferência seja chamada de acabamento.

O Madeira acrescenta outra dimensão à discussão. Trata-se de um vinho fortificado cuja produção envolve processos capazes de desenvolver características próprias de frutas, especiarias e notas oxidativas. Entretanto, o efeito final sobre o whisky dependerá das condições específicas do barril e da interação com o destilado.

Segundo a descrição oficial, o Aberfeldy apresenta maçã vermelha, mel, casca de laranja cristalizada e canela, preservando parte do caráter tradicionalmente associado à destilaria.

Sem uma degustação independente, seria precipitado afirmar quanto dessas características vem de cada etapa.

Mas o lançamento oferece uma excelente lição: a expressão *cask finish* não deve levar o consumidor a imaginar que a segunda madeira exerceu necessariamente uma influência superficial.

Em alguns whiskies, aquilo que chamamos de acabamento pode representar um capítulo longo e decisivo da maturação.

Whisky & Spirits / Sustentabilidade

O whisky escocês depende da água. Um desastre no rio Spey expõe o outro lado dessa relação

O whisky escocês depende da água. Um desastre no rio Spey expõe o outro lado dessa relação
A região de Speyside reúne importantes destilarias escocesas e ecossistemas fluviais cuja preservação é fundamental para as comunidades locais.Informar o fotógrafo e a fonte da imagem efetivamente licenciada.

Poucas indústrias construíram uma relação tão profunda com sua geografia quanto a do whisky escocês. Montanhas, rios, nascentes e paisagens aparecem constantemente nas histórias contadas pelas destilarias. A água, além de indispensável à produção, tornou-se parte da identidade cultural do Scotch. Mas um incidente ambiental em Speyside lembra que essa relação envolve responsabilidades muito concretas.

Em outubro, a Diageo pediu desculpas pelos danos associados a um vazamento de soda cáustica que atingiu o Knockando Burn, afluente do rio Spey, em maio de 2026. O incidente está relacionado à destilaria Cardhu, uma das instalações do grupo na região.

Representantes da comunidade pesqueira relataram danos graves em aproximadamente dois quilômetros do curso d'água, incluindo a morte de peixes e outros organismos aquáticos. A agência ambiental escocesa, SEPA, continua investigando o episódio e avaliará eventuais medidas de fiscalização e responsabilização.

A Diageo declarou que reforçou seus controles ambientais e que trabalha com as autoridades e representantes locais em medidas de recuperação.

É importante distinguir esses fatos. Os danos relatados e o pedido de desculpas da empresa são públicos. A extensão definitiva das consequências, assim como eventuais sanções, depende da investigação e dos procedimentos das autoridades competentes.

O episódio também oferece uma oportunidade de compreender melhor o papel da água na indústria. Ela participa da preparação do mosto, da fermentação, de sistemas de resfriamento e, em determinadas circunstâncias, da redução da graduação alcoólica antes do engarrafamento.

Mas os rios escoceses são muito mais do que recursos industriais. Sustentam ecossistemas, atividades econômicas, pesca e comunidades que convivem com as destilarias há gerações.

Existe uma contradição que merece ser discutida. As marcas frequentemente utilizam a origem geográfica como argumento de autenticidade e prestígio. Entretanto, essa mesma origem exige proteção permanente, investimentos e transparência quando alguma coisa dá errado.

A reputação de uma destilaria não depende apenas da qualidade do whisky que ela produz.

Também depende da maneira como administra os impactos de sua presença no território.

A paisagem escocesa ajuda a vender milhões de garrafas pelo mundo. Preservá-la não pode ser apenas uma parte bonita da publicidade.

Arte & Colecionismo

A Art Basel Paris fechou antes do previsto. Mas os grandes colecionadores já haviam comprado suas obras

A Art Basel Paris fechou antes do previsto. Mas os grandes colecionadores já haviam comprado suas obras
A Art Basel Paris 2026 encerrou suas atividades antes do previsto, após registrar vendas expressivas durante as apresentações reservadas a colecionadores.

Uma das feiras de arte mais importantes do mundo encerrou suas atividades dois dias antes do previsto. O motivo não foi a falta de compradores, nem uma crise de interesse pelas obras expostas. Foi a preocupação com a segurança diante de manifestações anunciadas para o fim de semana em Paris.

A Art Basel Paris 2026 fechou suas portas na sexta-feira, 23 de outubro, cancelando os dois dias finais de visitação. A decisão afetou galerias, profissionais e visitantes que planejavam conhecer a feira durante o sábado e o domingo.

Mas havia um detalhe curioso: uma parcela expressiva dos negócios mais importantes já havia acontecido.

Segundo informações compiladas pela organização e divulgadas pela imprensa especializada, mais de 300 obras foram negociadas por aproximadamente US$ 147 milhões nos dois primeiros dias de prévias. Galerias também relataram vendas milionárias de artistas como Gerhard Richter e Georg Baselitz.

Esses valores são baseados em informações comerciais divulgadas pelos participantes e não equivalem a um balanço financeiro integral e auditado de todas as transações.

O episódio permite observar uma característica pouco compreendida do mercado internacional de arte: as feiras possuem diferentes níveis de acesso.

Antes da abertura geral, compradores convidados, consultores e colecionadores importantes participam de apresentações reservadas. É nesse período que muitas das obras mais disputadas encontram seus compradores.

O público que chega posteriormente pode descobrir que determinadas peças já foram vendidas ou até retiradas dos estandes.

Esse modelo não é exclusivo da arte. Ele aparece também em lançamentos de relógios, automóveis de coleção e produtos de luxo distribuídos inicialmente a clientes selecionados.

O acesso antecipado funciona como um benefício comercial e como instrumento de relacionamento.

Mas a antecipação do encerramento em Paris revela uma questão adicional: o que acontece com os expositores menores, que dependem de um período mais longo para conquistar compradores e estabelecer contatos?

Para uma grande galeria, os principais negócios podem estar concluídos nas primeiras horas. Para outra, os últimos dias representam oportunidades importantes de visibilidade.

A Art Basel Paris mostrou que uma feira pode manter sua força comercial mesmo quando perde parte do calendário.

Também demonstrou que, no mercado da arte, estar presente nem sempre significa ter acesso às mesmas oportunidades.

O privilégio, muitas vezes, começa antes da abertura das portas.

Encerramento

O olhar da OAK

**O problema não é mudar de opinião. É não ter repertório para isso.**

Existe uma curiosa necessidade humana de transformar preferências em verdades absolutas. No whisky, isso acontece quando alguém decide que um single malt será sempre superior a um blended. No colecionismo, quando o valor de uma obra passa a ser confundido com o preço que alguém aceitou pagar por ela.

São maneiras diferentes de cometer o mesmo erro: permitir que um rótulo substitua o julgamento.

A decisão da Scotch Malt Whisky Society de lançar seu primeiro blended é especialmente interessante por isso. Uma instituição reconhecida por celebrar a individualidade dos barris resolveu demonstrar que a combinação também pode produzir excelência.

Enquanto isso, a Johnnie Walker transforma duas gerações de uma destilaria em uma mesma composição, e a Aberfeldy nos lembra que aquilo que chamamos de acabamento pode representar seis anos de transformação.

Mas a edição de hoje também exige uma reflexão menos confortável. Não faz sentido celebrar a origem de um whisky sem discutir a preservação dos lugares que tornam sua produção possível.

Talvez o verdadeiro repertório seja justamente essa capacidade de apreciar uma boa garrafa sem perder a curiosidade, o senso crítico e a disposição para rever certezas.

Porque conhecer whisky não é decorar nomes de destilarias ou colecionar opiniões definitivas.

É aprender a fazer perguntas cada vez melhores.

*Carlos Henrique — Revista OAK*

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