Destaque editorial
Relógios e colecionismo
O relógio de um presidente diz mais sobre ele do que seu discurso?

Um presidente pode comandar as Forças Armadas, receber chefes de Estado e participar de decisões que afetam milhões de pessoas. Mas, quando aparece diante das câmeras, um objeto de poucos centímetros também pode despertar atenção: o relógio em seu pulso.
Na semana em que o Brasil se prepara para o segundo turno presidencial, vale observar como líderes internacionais utilizaram, conscientemente ou não, a relojoaria como parte de sua imagem pública.
Barack Obama ficou conhecido por usar um Jorg Gray 6500, cronógrafo de quartzo recebido como presente de integrantes de sua equipe de segurança em 2007. O modelo, associado a um preço relativamente acessível para os padrões da relojoaria, acompanhou parte importante de sua trajetória na Casa Branca.
O contraste chamava atenção: um dos homens mais poderosos do mundo não precisava de um relógio suíço de cinco ou seis dígitos para demonstrar autoridade.
Mas seria incorreto interpretar a escolha apenas como uma estratégia de modéstia. O presente também tinha valor afetivo, mostrando que objetos pessoais podem carregar significados diferentes daqueles atribuídos pelo público.
Joe Biden apresentou outra linguagem. Na posse presidencial de janeiro de 2021, apareceu usando um Rolex Datejust de aço com mostrador azul e pulseira Jubilee.
O Datejust é um dos modelos mais reconhecidos da relojoaria suíça. Sua identidade combina tradição, funcionalidade e prestígio, sem recorrer necessariamente à extravagância de peças altamente complicadas.
Biden também foi fotografado utilizando relógios Omega e Seiko, demonstrando que um mesmo líder pode alternar acessórios com propostas bastante diferentes.
Donald Trump, por sua vez, construiu uma imagem empresarial historicamente associada ao luxo, aos imóveis e ao sucesso financeiro. Relógios de marcas prestigiadas já fizeram parte de sua apresentação pública, em sintonia com essa identidade.
Esses exemplos revelam algo importante: na política, o relógio pode reforçar uma narrativa, mas não comprova virtudes pessoais.
Um modelo acessível não torna alguém automaticamente humilde. Um Rolex não transforma seu proprietário em um governante competente. E a ausência de acessórios caros tampouco garante proximidade com a população.
O significado depende do contexto, da ocasião e da história de cada peça.
A indústria relojoeira conhece bem essa linguagem. Há séculos, relógios são associados a conquistas, memória, precisão e pertencimento. A política apenas acrescenta novas camadas de interpretação.
Em uma campanha eleitoral, fotografias circulam rapidamente e detalhes visuais podem ganhar proporções inesperadas.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja quanto custa o relógio de um presidente, mas por que sentimos tanta necessidade de descobrir.
Afinal, um relógio pode contar histórias sobre seu proprietário. O que ele não consegue fazer é dizer se alguém merece governar.





