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Estilo, comportamento, charutos e cultura masculina

A ALFAIATARIA ENLOUQUECEU? O QUE A SÃO PAULO FASHION WEEK ESTÁ DIZENDO SOBRE O NOVO HOMEM.

Da revolução da alfaiataria na SPFW à independência de Kim Jones, o Radar OAK investiga a nova elegância masculina, o luxo de segunda mão, o retorno de um Cohiba histórico e os desafios de um bourbon de 21 anos.

Por Equipe OAK 9 min de leitura 5 notícias

Modelo apresenta criação de João Pimenta na São Paulo Fashion Week N61, com alfaiataria desconstruída e referências à elegância dos músicos de jazz.
João Pimenta reinventa os códigos da alfaiataria na SPFW N61, transformando elementos clássicos do vestuário masculino em novas formas de expressão.Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite / SPFW

Durante muito tempo, a elegância masculina foi definida por regras. O terno precisava obedecer a proporções específicas, o luxo dependia da novidade e os objetos mais desejados pareciam destinados a permanecer intocados pelo tempo. Mas alguma coisa está mudando.

Neste sábado, 17 de outubro, o Radar OAK acompanha cinco histórias que revelam diferentes aspectos dessa transformação.

Na São Paulo Fashion Week, João Pimenta utiliza a alfaiataria como um músico de jazz utiliza a partitura: conhece as regras, mas prefere descobrir o que acontece quando começa a improvisar. Enquanto isso, Kim Jones, depois de transformar o universo masculino da Louis Vuitton e da Dior, prepara uma nova marca sob seu próprio nome.

Em São Paulo, o mercado de luxo de segunda mão ganha espaço no Pavilhão da Bienal, mostrando que uma peça não precisa ser nova para continuar desejável.

No universo dos charutos, o retorno do Cohiba Talismán coloca a exclusividade em discussão. E, no Kentucky, um bourbon de 21 anos demonstra por que o envelhecimento pode ser tanto uma virtude quanto um risco.

Cinco histórias aparentemente diferentes, conectadas por uma pergunta: o que realmente torna alguma coisa valiosa?

Destaque editorial

Estilo e Moda

A ALFAIATARIA ENLOUQUECEU? O QUE A SÃO PAULO FASHION WEEK ESTÁ DIZENDO SOBRE O NOVO HOMEM

Existe uma diferença entre vestir um terno e compreender um terno. A primeira tarefa exige um espelho. A segunda exige conhecer uma construção que, durante séculos, foi cuidadosamente escondida sob camadas de tecido, entretelas, costuras e convenções sociais.  Na São Paulo Fashion Week N61, João Pim
A alfaiataria de João Pimenta expõe estruturas, altera proporções e transforma os códigos do traje masculino em linguagem criativa, com o jazz como referência conceitual.Foto: Zé Takahashi / Agência Fotosite / SPFW

Existe uma diferença entre vestir um terno e compreender um terno. A primeira tarefa exige um espelho. A segunda exige conhecer uma construção que, durante séculos, foi cuidadosamente escondida sob camadas de tecido, entretelas, costuras e convenções sociais.

Na São Paulo Fashion Week N61, João Pimenta decidiu revelar esse segredo.

Apresentada em 15 de outubro, sua nova coleção partiu do universo do jazz para questionar os códigos tradicionais da alfaiataria. Não se tratava simplesmente de vestir modelos como músicos de uma antiga casa noturna. O jazz apareceu como método criativo: dominar a técnica para ter liberdade de improvisar.

O resultado foi uma sequência de peças que desafiaram a posição habitual de cada elemento do guarda-roupa masculino. Coletes apareceram sobre paletós, faixas de smoking foram deslocadas e gravatas-borboleta ganharam proporções inesperadas. Camisas e blazers assumiram novas construções, enquanto detalhes normalmente ocultos passaram a fazer parte da linguagem visual.

O AVESSO TAMBÉM PODE SER ELEGANTE

Na alfaiataria clássica, boa parte do trabalho mais sofisticado é invisível. A entretela estrutura o peito do paletó, os alinhavos orientam sua construção e as costuras ajudam a definir o caimento. Quando tudo está pronto, o cliente normalmente enxerga apenas a superfície.

Pimenta inverte essa lógica.

Ao evidenciar componentes internos e deslocar elementos tradicionais, o estilista transforma a própria fabricação em expressão estética. É uma maneira de lembrar que um bom terno não nasce apenas de um desenho bonito, mas de decisões técnicas, conhecimento e trabalho manual.

Isso não significa que todos os homens passarão a usar coletes sobre blazers ou gravatas monumentais. A passarela frequentemente funciona como um laboratório: exagera possibilidades para ampliar aquilo que será considerado aceitável no futuro.

O NOVO HOMEM NÃO PRECISA ABANDONAR O CLÁSSICO

Talvez o aspecto mais interessante do desfile esteja justamente nessa relação com a tradição.

Em vez de rejeitar a alfaiataria, João Pimenta demonstra intimidade suficiente com suas regras para reinterpretá-las. O gesto é mais sofisticado do que simplesmente declarar o terno ultrapassado.

Há uma lição que ultrapassa a moda. Conhecer os códigos da elegância não deveria significar tornar-se prisioneiro deles. O homem contemporâneo pode admirar um smoking impecável e, ao mesmo tempo, reconhecer valor em uma construção experimental.

No fim, o desfile propõe uma inversão curiosa: talvez a verdadeira elegância não esteja em vestir exatamente aquilo que esperam de você, mas em saber por que escolheu vestir algo diferente.

Estilo e Moda

DEPOIS DE TRANSFORMAR A DIOR E A LOUIS VUITTON, KIM JONES DECIDIU APOSTAR NO PRÓPRIO NOME

Retrato oficial do estilista britânico Kim Jones, que prepara o retorno de sua marca própria após comandar coleções da Louis Vuitton, Dior e Fendi.
Kim Jones prepara uma nova etapa independente, com coleção prevista para 2027 e primeira loja física planejada para Hong Kong.GQ | https://www.gq.com/story/kim-jones-is-launching-an-eponymous-label South China Morning Post | https://www.scmp.com/lifestyle/fashion-beauty/article/3370702/british-fashion-designer-kim-jones-ann

Durante anos, Kim Jones ajudou a transformar a identidade de algumas das marcas mais poderosas da moda. Na Louis Vuitton, aproximou o luxo da cultura urbana. Na Dior Men, estabeleceu diálogos entre alfaiataria, arte contemporânea e novos públicos. Na Fendi, também comandou coleções femininas.

Agora, o estilista britânico prepara um desafio diferente: construir uma marca que carregue seu próprio nome.

O anúncio, feito em outubro de 2026, prevê o lançamento da primeira coleção em 2027, com roupas produzidas predominantemente no Japão e artigos de couro fabricados na Itália. A proposta combina alfaiataria, peças versáteis e um guarda-roupa que não pretende obedecer rigidamente às categorias tradicionais de gênero.

A estreia comercial deverá acontecer inicialmente pela internet, enquanto a primeira loja física está prevista para Hong Kong, em outubro de 2027.

Mas existe um detalhe histórico interessante: essa não será a primeira marca Kim Jones. O estilista já havia lançado uma etiqueta homônima em 2003, encerrando aquela etapa em 2008 para assumir a direção criativa da Dunhill.

O retorno, portanto, é também uma recuperação de sua identidade original.

A decisão revela uma tensão crescente no mercado de luxo. Grandes casas oferecem estrutura, patrimônio e alcance global, mas também impõem a responsabilidade de preservar identidades construídas muito antes da chegada de seus diretores criativos.

Uma marca independente oferece outro tipo de liberdade — acompanhada, naturalmente, de riscos comerciais maiores.

Para a OAK, o movimento de Jones representa algo além de uma nova coleção. Depois de décadas ajudando outras empresas a contar suas histórias, ele decidiu descobrir quanto vale a sua própria assinatura.

Estilo e Comportamento

O LUXO DE SEGUNDA MÃO CHEGOU À BIENAL. E COMPRAR ALGO QUE JÁ TEVE DONO NUNCA FOI TÃO ATUAL

Vista do Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, que recebe o evento CONTEMPOGIRA dedicado a marcas premium e peças de luxo de segunda mão.
O Pavilhão da Bienal recebe o CONTEMPOGIRA de 16 a 18 de outubro, reunindo marcas de moda, coleções anteriores e peças de luxo seminovas.Foto: Masao Goto Filho

Existe uma ironia deliciosa no mercado de luxo contemporâneo: enquanto algumas marcas investem fortunas para convencer consumidores de que precisam da próxima coleção, cresce o interesse por peças que já tiveram outra vida.

Em São Paulo, esse movimento ganha um endereço simbólico.

Entre 16 e 18 de outubro, o Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, recebe a primeira edição do CONTEMPOGIRA, evento que reúne mais de 50 marcas nacionais e internacionais, coleções anteriores e uma seleção de artigos de luxo de segunda mão.

Entre as participantes anunciadas estão nomes como Gloria Coelho, PatBO, Animale, Carol Bassi, Farm e Adriana Degreas. O evento também conta com uma curadoria de peças seminovas realizada pelo brechó Cansei Vendi.

A proposta não se limita à compra de roupas usadas. Ela reúne três tendências que estão modificando o consumo: a valorização de coleções passadas, a busca por preços mais atraentes e a percepção de que qualidade não precisa ter prazo de validade.

É uma mudança importante na maneira como o consumidor enxerga a exclusividade.

Uma peça de uma coleção anterior pode se tornar mais interessante justamente porque já não está disponível nas lojas. Um acessório bem conservado pode carregar uma história que um produto recém-saído da fábrica ainda não possui.

Naturalmente, comprar luxo de segunda mão exige atenção à autenticidade, ao estado de conservação e à procedência.

Mas a mensagem cultural é clara: o valor de um objeto não desaparece necessariamente quando termina sua temporada.

Para a OAK, talvez o consumo mais sofisticado não seja aquele que acompanha todas as novidades, mas aquele que sabe reconhecer o que continua relevante depois que a novidade passa.

Charutos e Colecionismo

O COHIBA TALISMÁN VOLTOU. MAS O QUE ERA RARO DEMAIS PARA SER REPETIDO AGORA SERÁ PRODUZIDO REGULARMENTE

Cohiba Talismán, charuto cubano originalmente lançado como edição limitada em 2017 e anunciado para integrar a Línea Clásica da Cohiba em 2026.
O Cohiba Talismán retorna ao portfólio regular da marca durante as comemorações de seu 60º aniversário, reacendendo o debate sobre exclusividade e colecionismo.Imagem: Divulgação / Habanos S.A.

No universo dos charutos cubanos, poucas palavras despertam tanto interesse quanto edição limitada. A expressão promete algo que o colecionador valoriza profundamente: a possibilidade de possuir um objeto que não estará disponível para sempre.

Mas o que acontece quando uma dessas raridades retorna ao catálogo?

A Habanos S.A. anunciou que o Cohiba Talismán, originalmente apresentado como Edición Limitada em 2017, passará a integrar a produção regular da marca em 2026. O lançamento faz parte das comemorações dos 60 anos da Cohiba, fundada em 1966.

A novidade foi apresentada internacionalmente em Londres e incorpora o Talismán à Línea Clásica, uma das famílias mais tradicionais da marca.

O charuto mantém suas dimensões conhecidas: 154 milímetros de comprimento e calibre 54, além do acabamento característico da cabeça em formato pigtail.

Para quem aprecia charutos, a notícia tem dois significados distintos.

O primeiro é positivo: um formato anteriormente associado a lançamentos especiais ganha a perspectiva de maior continuidade comercial. Isso pode permitir que novos apreciadores conheçam uma vitola antes vinculada ao mercado de edições limitadas.

O segundo é mais delicado e envolve o colecionismo.

Quando uma marca transforma um produto limitado em integrante do catálogo permanente, surge uma pergunta inevitável: o que acontece com o prestígio das unidades originais?

A resposta depende de fatores como apresentação, procedência, conservação, ano de fabricação e interesse dos colecionadores. A nova produção não transforma automaticamente as caixas de 2017 em objetos comuns.

Também é importante distinguir produção regular de disponibilidade irrestrita. A Habanos ainda pode enfrentar limitações de distribuição e oferta.

Para a OAK, o retorno do Talismán ilustra uma tensão fascinante do luxo: todos desejam experimentar aquilo que é raro, mas parte do encanto da raridade está justamente na dificuldade de encontrá-la.

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Pauta coringa

UM BOURBON DE 21 ANOS É UMA FAÇANHA OU UM RISCO? A KNOB CREEK DECIDIU ENFRENTAR OS DOIS

Garrafa do bourbon Knob Creek 21 Year Old, expressão de longa maturação produzida no Kentucky e engarrafada com 50% de teor alcoólico.
O Knob Creek 21 Year Old coloca em evidência os desafios da maturação prolongada do bourbon, especialmente o equilíbrio entre o destilado e o carvalho novo carbonizado.Imagem: Divulgação / Knob Creek

No universo do Scotch whisky, encontrar uma garrafa com 21 anos de maturação não é exatamente uma surpresa. No bourbon, entretanto, essa idade representa um desafio técnico considerável.

A razão está na combinação entre clima, madeira e legislação.

Diferentemente de muitos whiskies escoceses, o bourbon deve envelhecer em recipientes novos de carvalho carbonizado. Isso significa que cada barril começa sua vida oferecendo uma superfície especialmente ativa, capaz de transferir compostos aromáticos e estruturais ao destilado.

Quando a maturação se estende por duas décadas, o equilíbrio se torna delicado.

É nesse território que a Knob Creek apresenta novamente seu bourbon de 21 anos, engarrafado com 50% de graduação alcoólica e preço sugerido de aproximadamente US$ 250 nos Estados Unidos.

A idade chama atenção, mas não garante superioridade sensorial.

Durante a maturação, a madeira pode contribuir com notas de baunilha, caramelo, especiarias e componentes tostados. Ao mesmo tempo, períodos prolongados de contato podem intensificar taninos, amargor e sensações de secura.

O clima do Kentucky também favorece oscilações térmicas que influenciam a interação entre líquido e barril. Com o passar dos anos, a evaporação reduz o volume disponível, tornando cada lote antigo um exercício de seleção.

É por isso que um bourbon de 21 anos merece ser analisado de maneira diferente de um whisky escocês da mesma idade.

Para a OAK, a questão não é descobrir qual dos dois envelheceu mais dignamente. É compreender que maturação não funciona como uma corrida na qual o vencedor é sempre o destilado mais velho.

Um grande whisky precisa encontrar o ponto em que a madeira acrescenta complexidade sem apagar o caráter do destilado.

A Knob Creek 21 anos representa precisamente esse desafio. E sua verdadeira qualidade dependerá do que existe dentro da garrafa, não apenas do número impresso no rótulo.

Encerramento

O olhar da OAK

Existe uma diferença importante entre tradição e repetição.

A tradição preserva conhecimento. A repetição, quando não é questionada, pode transformar esse conhecimento em prisão.

João Pimenta conhece as regras da alfaiataria e decide reinterpretá-las. Kim Jones abandona a proteção das grandes maisons para recuperar sua assinatura. O mercado de segunda mão demonstra que o desejo não precisa acompanhar o calendário das coleções. O Cohiba Talismán questiona os limites da exclusividade. E um bourbon de 21 anos nos lembra que o tempo, sozinho, não é certificado de qualidade.

Talvez seja essa a grande lição desta edição: sofisticação não é simplesmente possuir algo raro, caro ou antigo.

É saber reconhecer por que aquilo merece ser desejado.

OAK — Para quem se destaca.

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