Imagine um whisky que nasceu na Escócia. Ainda jovem, antes que o tempo pudesse transformá-lo naquilo que conhecemos como Scotch, ele atravessou o mundo. Foi levado para o Japão. Ali encontrou outro clima, outras estações, outra filosofia de maturação e dezenas de barris diferentes. Passou anos envelhecendo em Fukushima. Foi misturado no Japão. Engarrafado no Japão. Recebeu papel artesanal japonês no rótulo e uma rolha finalizada com uma técnica tradicional japonesa. E mesmo depois de tudo isso existe uma coisa que ele não pode ser chamado:
Japanese Whisky.
Essa aparente contradição está dentro de apenas 921 garrafas que a Tenkyo Distillery coloca no mercado neste 21 de setembro. O nome é KAZE 921 First Edition 2026. “Kaze”, em japonês, significa vento. Talvez seja difícil imaginar nome melhor para um líquido cuja história começou a milhares de quilômetros de onde terminou.
Antes de construir a destilaria, eles foram buscar whisky na Escócia
A história começa antes de a Tenkyo produzir seu próprio destilado. Seu fundador, Shunsuke Koike, viajou pela Escócia em busca de conhecimento — e também de matéria-prima. Em vez de comprar whisky pronto para simplesmente engarrafá-lo no Japão, Koike adquiriu new make spirit de três destilarias escocesas e o levou para Aizu, na província de Fukushima. New make é justamente o destilado que acaba de sair do alambique. Ainda não é whisky envelhecido. É, de certa maneira, uma folha em branco. E foi exatamente assim que a Tenkyo decidiu tratá-lo. A empresa colocou o destilado em 189 barris. Até aqui, nada particularmente extraordinário. Então vem o número que muda a história:
58 tipos diferentes de barris.
A intenção era observar como aquele mesmo ponto de partida reagiria a diferentes madeiras, históricos de uso e condições de maturação no Japão. Era quase um laboratório de envelhecimento em escala real. Porque barril não funciona apenas como recipiente. Durante anos, o álcool penetra a madeira e retorna ao líquido carregando compostos aromáticos. Oxidação, temperatura, porosidade, tostagem, espécie de carvalho e aquilo que o barril armazenou anteriormente passam a interferir no resultado. É por isso que costumo dizer que o barril é o alfaiate do whisky. O destilado pode nascer com determinada estrutura. Mas é durante a maturação que alguém começa a cortar o tecido. No caso da Tenkyo, decidiram experimentar 58 alfaiates diferentes. E todos trabalhando sob o clima japonês.
O Japão não é apenas o endereço do armazém
Aqui está a parte que torna o experimento mais interessante. Maturar o mesmo líquido na Escócia e no Japão não significa necessariamente obter o mesmo whisky. Temperatura e variações sazonais alteram a velocidade com que líquido e madeira interagem. Umidade interfere na evaporação. O desenho do armazém e sua localização também participam dessa equação. Portanto, quando Koike levou new make escocês para Fukushima, não estava simplesmente mudando o endereço dos barris. Estava mudando uma das variáveis da maturação. E a Tenkyo foi além. Pequenas quantidades provenientes desses barris passaram a alimentar aquilo que a destilaria chama de KAZE Solera System — uma construção inspirada na ideia de preservar parte de líquidos anteriores enquanto novas parcelas são incorporadas ao conjunto. Para a edição 921, essa base foi combinada com whisky proveniente de dois barris de Pedro Ximénez especialmente selecionados, um de carvalho americano e outro de carvalho europeu. O resultado foi engarrafado em cask strength, a 61,7%. Mas é justamente depois de todo esse trabalho japonês que surge a pergunta mais interessante da matéria:
por que ele não é whisky japonês?
Afinal, o que precisa acontecer para um whisky ser japonês?
É aqui que a história fica mais interessante. Porque passar anos dentro de um barril no Japão não transforma automaticamente um destilado em Japanese Whisky. Em 2021, a Japan Spirits & Liqueurs Makers Association (JSLMA) estabeleceu um padrão específico para o uso da denominação. Pelas regras da associação, não basta maturar, misturar ou engarrafar o líquido em território japonês. Para carregar a denominação Japanese Whisky, as matérias-primas devem ser malte, outros cereais e água extraída no Japão — com uso obrigatório de malte. Mais importante: sacarificação, fermentação e destilação precisam acontecer em uma destilaria no Japão. O destilado deve sair do alambique abaixo de 95% de álcool. Depois vem o tempo. O whisky precisa permanecer pelo menos três anos no Japão, dentro de barris de madeira com capacidade máxima de 700 litros. E, finalmente, deve ser engarrafado também no país, com no mínimo 40% de álcool. A regulamentação voluntária permite apenas o uso de caramelo para pequenos ajustes de cor. É aí que o KAZE 921 encontra uma fronteira que nenhum número de anos dentro de um armazém japonês consegue atravessar.
Ele foi destilado na Escócia.
A própria ficha do lançamento informa a origem britânica dos whiskies de malte e de grão utilizados no produto. Depois, esses líquidos foram maturados, trabalhados e engarrafados em Aizu. Portanto, o KAZE pode carregar o Japão em sua maturação, em sua madeira, no clima, no trabalho de blending e até no papel artesanal que envolve a garrafa. Mas sua destilação continua escocesa. E isso basta para colocá-lo fora da definição estabelecida para Japanese Whisky. Há uma nuance importante: o padrão da JSLMA nasceu como autorregulação da indústria, não como uma definição legal equivalente à proteção que existe para Scotch Whisky. A própria associação vem trabalhando para fortalecer esse sistema e avançar em direção a uma indicação geográfica e regras formalizadas com as autoridades japonesas. Em 2025, criou inclusive um selo “JW — Japanese Whisky” para facilitar a identificação dos produtos de empresas associadas que atendem ao padrão. Pode parecer preciosismo burocrático. Não é. É consequência de um problema que acompanhou o extraordinário crescimento do whisky japonês.
Durante anos, uma garrafa japonesa não precisava necessariamente conter whisky destilado no Japão
O sucesso internacional de nomes como Yamazaki, Hakushu, Hibiki e Chichibu ajudou a transformar o Japão em uma das grandes referências mundiais da categoria. A demanda cresceu mais rápido do que os estoques envelhecidos disponíveis. E surgiu uma situação curiosa. Whisky produzido em outros países podia chegar ao Japão, ser misturado ou engarrafado ali e aparecer diante do consumidor com uma estética profundamente japonesa. Nome japonês. Caligrafia japonesa. Paisagem japonesa. Garrafa japonesa. Às vezes, nenhuma informação visual óbvia de que parte — ou até a totalidade — daquele líquido havia sido destilada fora do país. Foi justamente para tornar essa fronteira mais clara que a indústria criou o padrão de 2021. E é aqui que o KAZE 921 faz algo intelectualmente interessante. Ele não tenta esconder a contradição. Ele praticamente transforma essa contradição no produto. A origem estrangeira do destilado não é um detalhe inconveniente a ser colocado em letras pequenas. É o ponto de partida do experimento de Shunsuke Koike. Ele queria descobrir o que Aizu poderia fazer com aquele espírito. E isso nos leva a uma questão que legislação nenhuma consegue resolver completamente: onde termina a origem de um whisky e começa sua identidade? Se destilação determina nacionalidade, a resposta do KAZE é simples: ele não é Japanese Whisky. Mas, sensorialmente, o problema fica muito mais interessante. Porque anos de interação com madeira, clima e decisões de maturação podem modificar profundamente aquilo que saiu originalmente do alambique. A lei — ou, neste caso, o padrão de rotulagem — precisa estabelecer uma fronteira objetiva. O paladar não.
Então por que 921?
Até aqui, 921 poderia parecer apenas uma maneira inteligente de criar escassez. Novecentas e vinte e uma garrafas. Um número suficientemente pequeno para despertar o colecionador. Mas não foi a quantidade que criou o nome. Foi uma data.
21 de setembro.
O aniversário de Shunsuke Koike, fundador da Tenkyo Distillery. Koike começou os experimentos de maturação em Aizu antes que a própria destilaria estivesse pronta. Foi ele quem buscou na Escócia os destilados que alimentariam os 189 barris e começou a investigar aquilo que madeira, clima e tempo poderiam produzir naquele lugar. Ele não veria o projeto chegar até aqui. Koike morreu em 2022. A Tenkyo só iniciou sua produção de whisky em escala plena em 2024. Por isso, a destilaria decidiu transformar 21 de setembro em uma espécie de aniversário permanente. A partir de agora, uma edição KAZE 921 será lançada anualmente nessa data. A primeira chega justamente hoje. E existem 921 garrafas. De repente, aquilo que parecia estratégia de escassez ganha outro significado. Não são 921 garrafas porque o departamento de marketing descobriu que 1.000 pareceriam demais. São 921 porque 9/21 é uma data que a destilaria decidiu não esquecer. E talvez seja justamente aí que este whisky, que tecnicamente não pode ser chamado de japonês, comece a parecer profundamente japonês. Não por aquilo que diz o rótulo. Mas pela maneira como transforma memória, artesanato e ritual em parte do objeto. A própria embalagem leva essa ideia adiante. O rótulo é feito manualmente com washi tradicional de Aizu, incorporando palha da cevada cultivada na região. A rolha recebe acabamento individual em laca Aizu, pela técnica ishime-nuri. Não muda a nacionalidade do whisky. Mas muda completamente a história que a garrafa conta.
E o que existe dentro das 921 garrafas?
Depois de toda essa história, resta a pergunta mais simples — e talvez a mais importante.
O whisky é interessante dentro do copo?
Aqui precisamos fazer uma distinção editorial importante: a OAK ainda não degustou o KAZE 921 First Edition 2026. Portanto, não vamos transformar as notas fornecidas pela própria Tenkyo em uma avaliação nossa. Mas a construção do whisky já diz bastante. A edição parte do KAZE Solera System, criado para preservar pequenas parcelas dos whiskies originais iniciados por Shunsuke Koike. Para esta primeira edição anual, a equipe selecionou ainda dois barris de Pedro Ximénez particularmente maduros e os integrou à composição. Pedro Ximénez — ou simplesmente PX — é conhecido no universo do whisky por entregar uma influência bastante intensa. Passas, frutas escuras, melaço, chocolate e doçura concentrada costumam fazer parte do vocabulário associado a esses barris. Mas existe um detalhe técnico muito interessante aqui. Os dois PX não são iguais. Um utiliza carvalho americano. O outro, carvalho europeu. Isso significa que a Tenkyo não está trabalhando apenas com aquilo que havia anteriormente dentro do barril. Está combinando também duas madeiras capazes de entregar perfis diferentes ao destilado. E nada foi diluído para tornar a experiência mais comportada. O KAZE 921 foi engarrafado a 61,7% ABV, em natural strength, sem filtração a frio e sem adição de corante. É uma graduação que praticamente pede que o whisky seja explorado com calma — inclusive com algumas gotas de água para observar como aromas e textura se transformam. Segundo a descrição oficial da Tenkyo, o nariz começa com maple syrup, nozes condimentadas e cereja escura coberta por chocolate. Casca de limão e shiso com impressão apimentada aparecem trazendo contraste. Na boca, a destilaria descreve um whisky rico e encorpado, com frutas secas cristalizadas, maple, nuts, especiarias, pimenta-de-Sichuan e casca cítrica. O final é longo, novamente entre maple e pimenta, mas termina com algo menos óbvio: uma sensação refrescante lembrando menta e mentol. No papel, portanto, não parece simplesmente uma bomba de PX. Há doçura. Mas há especiaria, cítrico, ervas e frescor tentando impedir que ela domine tudo. Só a degustação permitirá dizer se o equilíbrio realmente funciona. E é justamente por isso que, até termos a garrafa diante de nós, não haverá Nota OAK.
Aqui precisamos fazer uma distinção editorial importante: a OAK ainda não degustou o KAZE 921 First Edition 2026. Portanto, não vamos transformar as notas fornecidas pela própria Tenkyo em uma avaliação nossa. Mas a construção do whisky já diz bastante. A edição parte do KAZE Solera System, criado para preservar pequenas parcelas dos whiskies originais iniciados por Shunsuke Koike. Para esta primeira edição anual, a equipe selecionou ainda dois barris de Pedro Ximénez particularmente maduros e os integrou à composição. Pedro Ximénez — ou simplesmente PX — é conhecido no universo do whisky por entregar uma influência bastante intensa. Passas, frutas escuras, melaço, chocolate e doçura concentrada costumam fazer parte do vocabulário associado a esses barris. Mas existe um detalhe técnico muito interessante aqui. Os dois PX não são iguais. Um utiliza carvalho americano. O outro, carvalho europeu. Isso significa que a Tenkyo não está trabalhando apenas com aquilo que havia anteriormente dentro do barril. Está combinando também duas madeiras capazes de entregar perfis diferentes ao destilado. E nada foi diluído para tornar a experiência mais comportada. O KAZE 921 foi engarrafado a 61,7% ABV, em natural strength, sem filtração a frio e sem adição de corante. É uma graduação que praticamente pede que o whisky seja explorado com calma — inclusive com algumas gotas de água para observar como aromas e textura se transformam. Segundo a descrição oficial da Tenkyo, o nariz começa com maple syrup, nozes condimentadas e cereja escura coberta por chocolate. Casca de limão e shiso com impressão apimentada aparecem trazendo contraste. Na boca, a destilaria descreve um whisky rico e encorpado, com frutas secas cristalizadas, maple, nuts, especiarias, pimenta-de-Sichuan e casca cítrica. O final é longo, novamente entre maple e pimenta, mas termina com algo menos óbvio: uma sensação refrescante lembrando menta e mentol. No papel, portanto, não parece simplesmente uma bomba de PX. Há doçura. Mas há especiaria, cítrico, ervas e frescor tentando impedir que ela domine tudo. Só a degustação permitirá dizer se o equilíbrio realmente funciona. E é justamente por isso que, até termos a garrafa diante de nós, não haverá Nota OAK.
Talvez a melhor definição para o KAZE tenha sido escrita pela própria Tenkyo. Na apresentação institucional da linha, a destilaria é surpreendentemente direta: destilado na Escócia, maturado, misturado e engarrafado em Aizu. E assume que o produto não é nem Scotch Whisky nem Japanese Whisky. Essa transparência importa. Porque seria muito fácil construir uma garrafa cheia de símbolos japoneses, colocar Fukushima em destaque e deixar o consumidor imaginar o restante da história. A Tenkyo prefere transformar a origem híbrida em argumento. E talvez seja justamente isso que torne KAZE mais interessante do que várias garrafas que simplesmente tentam parecer japonesas. Existe uma diferença entre nacionalidade e identidade. A nacionalidade precisa de regras objetivas. Onde fermentou? Onde foi destilado? Onde amadureceu? Onde foi engarrafado? A identidade é mais complicada. Ela pode ser construída pelo lugar, pelas pessoas, pela madeira, pelo clima e pelas decisões tomadas durante anos. O KAZE nasceu transparente na Escócia. Atravessou o mundo. Encontrou 189 barris, dezenas de possibilidades de maturação e outro clima em Aizu. E terminou dentro de uma garrafa japonesa que homenageia um homem que não viveu para vê-la pronta. Talvez, portanto, a pergunta do começo estivesse errada. Não deveríamos perguntar de onde é esse whisky. Deveríamos perguntar quanto um lugar consegue transformar um whisky depois que ele nasce. Porque a lei precisa decidir onde termina a Escócia e começa o Japão. O barril não. E o paladar muito menos.
OAK EM 30 SEGUNDOS
KAZE 921 FIRST EDITION 2026 Produtor: Tenkyo Distillery Origem do destilado: Escócia Maturação, blending e engarrafamento: Aizu, Fukushima, Japão Categoria: Blended Whisky — não classificado como Japanese Whisky Edição: 921 garrafas Graduação: 61,7% ABV — Natural Strength Filtração: Non-Chill Filtered Cor: Natural Colour Construção: KAZE Solera System + dois barris selecionados de Pedro Ximénez Experimento original: 189 barris e dezenas de tipos de cask selecionados para explorar a maturação em Aizu. Perfil oficial: maple syrup, cereja escura, chocolate, nozes condimentadas, frutas secas, shiso, cítricos, pimenta-de-Sichuan, menta e mentol. Nota OAK: NÃO AVALIADO Colecionabilidade: Alta — primeira edição anual KAZE 921, produção de apenas 921 garrafas e vínculo direto com a história do fundador. Para beber: especialmente interessante para quem quer explorar a fronteira entre maturação japonesa e destilado escocês. Para colecionar: a primeira edição tende a ter importância histórica dentro da própria trajetória da Tenkyo caso a série 921 se consolide. O detalhe OAK: 921 não é uma idade nem um número inventado para parecer raro. É 21 de setembro — 9/21 — aniversário de Shunsuke Koike. A Tenkyo pretende lançar uma nova edição KAZE 921 nessa data a cada ano.
“Porque a lei precisa decidir onde termina a Escócia e começa o Japão. O barril não. E o paladar muito menos.”




