QUANDO A PARTIDA TERMINA, OUTRO TEMPO COMEÇA
Há uma pequena ironia na relação entre grandes tenistas e grandes relógios. Durante uma partida, provavelmente nenhuma informação é menos importante para um jogador do que saber que horas são. Não existe um cronômetro decretando o fim. Uma partida pode acabar rapidamente ou consumir uma tarde inteira. O jogador não vence porque o tempo terminou. Vence quando consegue terminar o trabalho. Talvez seja justamente por isso que tênis e relojoaria tenham desenvolvido uma relação tão natural. Porque um grande relógio nunca foi apenas uma maneira sofisticada de descobrir que horas são. E um grande tenista nunca foi apenas alguém capaz de devolver uma bola. Os dois universos compartilham uma obsessão por algo que o espectador quase não vê: precisão. Milímetros. Ângulos. Peso. Equilíbrio. Frequência. Resistência. Um movimento executado uma fração de segundo cedo demais e a bola encontra a rede. Uma tolerância errada entre componentes microscópicos e aquilo que deveria medir o tempo começa lentamente a perdê-lo. No US Open, essa relação encontra talvez seu palco mais interessante. Nova York não gosta apenas de vencedores. Gosta de personagens. E poucos torneios produziram uma coleção tão extraordinária deles. Roger Federer fez potência parecer elegância. Rafael Nadal transformou resistência em identidade. Novak Djokovic elevou repetição e controle a níveis quase mecânicos. Andre Agassi provou que rebeldia também pode amadurecer. Carlos Alcaraz parece disposto a juntar potência, improvisação e prazer em uma nova linguagem. Cinco homens. Cinco maneiras diferentes de ocupar a mesma quadra. E cinco relações com relógios que dizem muito mais sobre eles do que simplesmente quanto custa aquilo que carregam no pulso. Porque, para um colecionador, a pergunta interessante quase nunca é: “Quanto vale?” A pergunta é: “Por que isso importa?”
ROGER FEDERER O HOMEM QUE FEZ A PRECISÃO PARECER FÁCIL
Há uma palavra usada tantas vezes para definir Roger Federer que ela quase perdeu o significado. Elegância. Ela é verdadeira. Mas é insuficiente. Federer não venceu porque parecia elegante. Parecia elegante porque conseguiu eliminar do movimento quase tudo aquilo que parecia desnecessário. No US Open, essa capacidade produziu algo que continua extraordinário: cinco títulos consecutivos, entre 2004 e 2008. Nenhum homem, mulher ou dupla conseguiu repetir cinco conquistas seguidas em Nova York durante a Era Aberta. Entre 2004 e 2008, Federer construiu uma sequência perfeita de 34 vitórias; ela chegaria a 40 em 2009, antes de Juan Martín del Potro derrotá-lo na final. O mais interessante é observar quem estava do outro lado da rede nas cinco finais: Lleyton Hewitt, Andre Agassi, Andy Roddick, Novak Djokovic e Andy Murray. Cinco campeões de Grand Slam. Cinco derrotados. Federer não encontrou uma época vazia. Ele ajudou a fazê-la parecer assim. Quando venceu seu quarto título consecutivo, em 2007, depois de derrotar Djokovic, Federer disse algo revelador sobre a relação que havia desenvolvido com Nova York:
“New York has definitely grown on me the last few years.”
E explicou que só com o tempo havia compreendido a dimensão do torneio, o estádio, a cidade e a dificuldade de vencer ali. Talvez seja justamente essa maturação que torne sua relação com a Rolex tão coerente. Federer tornou-se um dos grandes rostos da maison, e mesmo depois de abandonar as competições continua aparecendo no universo do tênis com relógios da marca. No US Open 2026, por exemplo, foi visto usando o novo Rolex Oyster Perpetual 41 ref. 134300 com mostrador “Jubilee”, durante uma aparição em quadra. É uma escolha interessante justamente porque não precisamos procurar uma grande complicação para falar de Federer. O Oyster Perpetual pertence àquela categoria de objetos que um leigo pode considerar simples e que um conhecedor aprende a respeitar justamente por essa simplicidade. Não há tourbillon para exibir. Não há cronógrafo para acionar. Não há calendário perpétuo tentando provar virtuosismo. Existe proporção, legibilidade, construção e consistência. É quase uma tradução relojoeira de Federer. Quanto mais alguém entende tecnicamente de tênis, mais difícil fica acreditar na facilidade aparente de seus movimentos. E quanto mais alguém entende de relógios, mais percebe que simplicidade executada perfeitamente costuma ser muito mais difícil do que complexidade usada para chamar atenção. Federer não fazia pouco. Fazia muito sem deixar o esforço aparecer. Talvez essa seja uma das formas mais sofisticadas de luxo.
RAFAEL NADAL QUANDO O RELÓGIO PRECISOU SOBREVIVER AO HOMEM
Com Rafael Nadal, tudo muda. Se Federer representa uma ideia clássica de precisão, Nadal obrigou a relojoaria a entrar fisicamente na partida. Ele não colocava o relógio apenas depois do último ponto. Jogava com ele. E isso transforma completamente a história. Um tourbillon tradicional é uma pequena arquitetura mecânica feita de componentes diminutos trabalhando dentro de tolerâncias igualmente diminutas. Por muito tempo, submeter uma construção assim às acelerações produzidas repetidamente pelo braço de um dos tenistas mais físicos da história pareceria quase uma provocação. Richard Mille transformou a provocação em engenharia.
RICHARD MILLE RM 27-04
O RM 27-04 Tourbillon Rafael Nadal pesa apenas 30 gramas incluindo a pulseira e foi desenvolvido para resistir a acelerações superiores a 12.000 g. Mas o número mais extraordinário talvez seja outro. O movimento fica suspenso dentro da caixa por uma espécie de malha criada a partir de um único cabo de aço trançado de apenas 0,27 milímetro de diâmetro. Foram produzidos somente 50 exemplares. Não é decoração. É estrutura. O relógio existe porque alguém decidiu perguntar: até onde podemos levar a mecânica antes que a mecânica diga basta? Nadal construiu a carreira fazendo praticamente a mesma pergunta ao próprio corpo. O espanhol venceu quatro vezes o US Open — 2010, 2013, 2017 e 2019 — colocando-se ao lado de John McEnroe e Novak Djokovic entre os tetracampeões masculinos da Era Aberta. Em 2019, aos 33 anos, tornou-se então o segundo homem mais velho a conquistar o título de simples em Nova York. E é justamente aqui que relógio e jogador deixam de parecer uma simples associação comercial. Nadal passou a carreira tentando descobrir quanto castigo um corpo extraordinariamente treinado poderia suportar. Richard Mille passou parte dessa parceria tentando descobrir quanto castigo uma construção extraordinariamente delicada poderia suportar. Um perguntava até onde o homem poderia resistir. O outro, até onde a máquina conseguiria acompanhá-lo. É difícil imaginar uma associação entre atleta e relógio mais literal do que essa.
NOVAK DJOKOVIC QUANDO O JOGADOR VIROU MATÉRIA-PRIMA DO PRÓPRIO RELÓGIO
Se Federer tinha fluidez e Nadal intensidade, Novak Djokovic construiu uma terceira linguagem. Repetibilidade. Talvez essa seja uma das qualidades menos românticas — e mais extraordinárias — de um campeão. Fazer algo excepcional uma vez produz um momento. Conseguir repeti-lo durante décadas produz uma carreira. Djokovic venceu o US Open em 2011, 2015, 2018 e 2023. Mas para contar sua história relojoeira, não precisamos procurar uma metáfora. A Hublot decidiu literalmente colocar Djokovic dentro de um relógio.
HUBLOT BIG BANG UNICO NOVAK DJOKOVIC
Apresentado em 2024, o relógio utiliza um material compósito produzido com 25 raquetes HEAD e 32 camisas polo Lacoste usadas pelo próprio Djokovic durante a temporada de 2023 — 17 azul-escuras e 15 azul-claras. Isso muda a natureza do objeto. Porque já não estamos falando apenas de um relógio associado a um atleta. Estamos falando de um relógio cuja caixa contém fisicamente fragmentos de objetos que participaram de sua carreira. Para um colecionador, essa distinção é fascinante. Proveniência normalmente é algo externo ao relógio: quem o possuiu, onde esteve, qual história acompanhou. Aqui, parte dessa história virou material. O movimento Unico também precisou ser retrabalhado. A Hublot substituiu componentes tradicionalmente produzidos em latão por alumínio e afirma ter reduzido o peso do movimento em 27%. Com a pulseira elástica, o relógio completo pesa 49,5 gramas — menos que uma bola de tênis. A produção foi limitada a 100 peças. Djokovic participou do desenvolvimento e resumiu a lógica do projeto de maneira quase perfeita:
“Each moment needs to be precise and intentional.”
E completou:
“Every detail is critical to my ability to stay focused and determined.”
É difícil encontrar uma definição melhor tanto para um atleta de elite quanto para um relógio mecânico. E a história avançou. Em janeiro de 2026, a Hublot apresentou o Big Bang Tourbillon Novak Djokovic GOAT Edition, transformando as diferentes superfícies do tênis em parte da própria coleção: azul para quadras duras, laranja para saibro e verde para grama. As quantidades foram relacionadas às vitórias do sérvio em cada superfície. Federer fazia a máquina desaparecer. Djokovic parece querer mostrar como ela funciona.
ANDRE AGASSI O RELÓGIO DE UMA ÉPOCA EM QUE O TÊNIS APRENDEU A SER POP
Antes de Federer. Antes de Nadal. Antes de Djokovic. Antes de o pulso de um campeão de Grand Slam se tornar uma das propriedades comerciais mais disputadas da indústria relojoeira, havia Andre Agassi. E Nova York o compreendeu imediatamente. Agassi não parecia apenas um tenista. Parecia um rompimento. Cabelo comprido. Denim. Cores fluorescentes. Recepção de saque quase sobre a linha de base. Uma estética que incomodava parte do establishment do esporte justamente porque fazia o tênis conversar com a cultura pop. Agassi venceu o US Open em 1994 e 1999. Mas sua importância para esta matéria não está apenas nos troféus. Está no período.
EBEL
A associação entre Agassi e Ebel pertence a um momento muito particular da relojoaria esportiva — quando as maisons começavam a perceber que o atleta não precisava simplesmente aparecer em uma publicidade. Ele poderia carregar um universo. E aqui há uma diferença importante para o colecionador. Não devemos olhar para um Ebel ligado a Agassi com os mesmos olhos usados para avaliar um Daytona contemporâneo. Isso seria perder justamente aquilo que torna o objeto interessante. Relógios também são documentos de época. Eles registram proporções, materiais, ambições e até aquilo que determinada geração entendia como sucesso. Essa talvez seja uma das primeiras grandes lições do colecionismo. Colecionar não é apenas acumular aquilo que o presente já decidiu que é importante. É aprender a reconhecer aquilo que uma época considerou importante — e descobrir se o tempo estava certo ou errado. Agassi representa exatamente essa ruptura. Ele lembra que gosto envelhece. Algumas coisas desaparecem. Outras retornam. E algumas passam décadas sendo ignoradas até que uma nova geração finalmente aprenda a enxergá-las. É por isso que, entre os cinco personagens desta história, Agassi talvez seja o mais perigoso para um colecionador. Ele nos obriga a abandonar o catálogo atual. E olhar para trás.
CARLOS ALCARAZ O HOMEM QUE ESTÁ ESCREVENDO ESTA HISTÓRIA ENQUANTO VOCÊ LÊ
Então chegamos a 2026. Não a uma fotografia de arquivo. Não a uma carreira encerrada. Ao US Open acontecendo agora. Carlos Alcaraz voltou a Nova York como atual campeão, depois de conquistar em 2025 seu segundo título do torneio. Na final daquele ano, derrotou Jannik Sinner por 6–2, 3–6, 6–1 e 6–4 e retomou o posto de número 1 do mundo. A Rolex, parceira do US Open e ligada ao tênis desde 1978, apresenta Alcaraz como um de seus “Testimonees”. Em sua comunicação oficial para o US Open 2026, a própria marca destacou seu retorno para defender o título. E então aconteceu algo que provavelmente fez mais de um colecionador ampliar a fotografia do pulso. Alcaraz apareceu em Nova York usando um:
ROLEX COSMOGRAPH DAYTONA “LE MANS” EM OURO AMARELO
Não é um Daytona qualquer. A edição “Le Mans” nasceu da relação da Rolex com as 24 Horas de Le Mans e carrega detalhes que passam despercebidos para quase todo mundo. E isso é justamente o que a torna interessante. O número “100” na escala do bezel aparece em vermelho como referência ao centenário da prova. Mais importante: o movimento foi modificado para permitir que o cronógrafo contabilize 24 horas, e não as 12 horas de um Daytona convencional. A versão em ouro amarelo surgiu depois da edição comemorativa original em aço. À primeira vista, pode parecer apenas outro Daytona de ouro. Para quem sabe o que procurar, não é. E talvez toda a cultura do colecionismo possa ser resumida nessa diferença. Duas pessoas podem olhar para exatamente o mesmo objeto. Só uma delas sabe o que está vendo. Alcaraz já foi fotografado com diferentes configurações do Daytona, incluindo versões em ouro, platina e mostradores muito particulares. No US Open 2026, porém, o “Le Mans” produz uma coincidência narrativa quase perfeita. Um cronógrafo criado a partir da cultura das corridas de resistência aparece no pulso de um atleta que acaba de retornar após 139 dias afastado. Não precisamos inventar uma campanha. A história já está ali. E há algo ainda mais interessante acontecendo. Alcaraz pertence a uma geração para a qual o relógio mecânico perdeu completamente sua necessidade funcional. O telefone fornece a hora com precisão extraordinária. O estádio tem relógios. As telas estão por toda parte. Ele não precisa de um Daytona. E exatamente por isso sua escolha se torna culturalmente mais interessante. O relógio mecânico sobreviveu à obsolescência funcional e tornou-se outra coisa. Design. Engenharia. História. Identidade. Repertório.
O RELÓGIO QUE UM CAMPEÃO NÃO CONSEGUE COMPRAR
Federer nos deixa o clássico. Nadal, a engenharia. Djokovic, a máquina. Agassi, a época. Alcaraz, a próxima geração. Cinco homens que ocuparam a mesma quadra de maneiras completamente diferentes. Cinco relações diferentes com o tempo. E talvez seja justamente por isso que a ligação entre tênis e relojoaria pareça tão menos artificial do que muitas outras associações entre luxo e esporte. A Rolex mantém sua relação com o tênis desde 1978 e hoje seus relógios marcam o tempo nos quatro Grand Slams. Mas existe uma ironia maravilhosa nisso tudo. No relógio, tentamos dividir o tempo. Regulá-lo. Medi-lo. Compensar seus erros. Criamos balanços que oscilam milhares de vezes por hora. Inventamos cronógrafos, calendários perpétuos, repetidores de minutos e tourbillons. Passamos séculos tentando dominar mecanicamente algo que nunca conseguimos controlar. Porque Federer pode possuir todos os relógios que quiser. Mas não consegue comprar novamente a final de 2009. Nadal não consegue recuperar um ponto perdido em Nova York. Agassi não pode voltar aos anos 1990. Djokovic pode medir cada segundo de uma partida, mas não consegue impedir que eles continuem passando. E Alcaraz, por mais jovem que seja, já começou a gastar exatamente o mesmo recurso. É nesse ponto que talvez um relógio de dezenas ou centenas de milhares de dólares revele sua maior humildade. Ele pode medir o tempo com uma engenharia extraordinária. Pode sobreviver por gerações. Pode ser restaurado. Herdado. Leiloado. Colecionado. Pode até valer mais daqui a cinquenta anos. Só existe uma coisa que ele jamais conseguirá fazer.
DEVOLVER UM ÚNICO SEGUNDO.
Talvez seja essa a grande ironia da alta relojoaria. Quanto mais extraordinária se torna a máquina que mede o tempo, mais ela nos lembra do valor daquilo que não consegue guardar. E talvez seja também por isso que continuamos fascinados por relógios mecânicos quando já não precisamos deles para saber as horas. Não os usamos apenas para medir o tempo. Usamos para lembrar que ele importa.
OAK — O OLHAR DO COLECIONADOR
Um relógio importante não se torna importante apenas porque é raro. Raridade sem contexto pode ser simplesmente escassez. O que transforma um objeto em peça de coleção é a combinação entre engenharia, história, proveniência, design, significado cultural e o lugar que ocupa dentro da trajetória de uma manufatura. Por isso, talvez a pergunta mais interessante diante dos cinco relógios desta matéria não seja qual deles custa mais. É outra: qual deles continuará contando uma história quando ninguém mais precisar explicar quem estava usando? Essa é a diferença entre possuir um relógio e começar a entendê-lo.
Porque saber as horas é fácil. Entender o tempo exige repertório.




