Em uma família que entraria para a história construindo carros, Mario Maserati escolheu um caminho estranho. Ele preferiu a arte. Enquanto os irmãos se envolviam com motores, oficinas e competição, Mario desenvolveu sua vida profissional como artista. Ainda assim, foi justamente ele quem deixou na Maserati uma das peças que sobreviveriam a praticamente tudo: às mudanças de proprietários, às crises, às vitórias, às derrotas e até aos próprios irmãos. Não foi um motor. Não foi um chassi. Foi um desenho. Um tridente. Cem anos depois de aquele símbolo aparecer pela primeira vez sobre um automóvel Maserati, Hollywood resolveu voltar à história da família. O primeiro trailer de Maserati: The Brothers acaba de ser divulgado, reunindo nomes como Al Pacino e Anthony Hopkins em uma produção sobre os homens que transformaram uma pequena oficina italiana em uma das marcas mais reconhecíveis do automóvel. O novo trailer ganhou cobertura internacional nesta semana e nova repercussão hoje. Mas talvez o filme seja apenas uma boa desculpa para contar outra história. Porque antes de o Tridente representar luxo, grandes turismos ou carros milionários de coleção, ele apareceu em um lugar muito menos confortável: na frente de um carro de corrida. E o carro precisava de um símbolo porque estava prestes a competir.
O TRIDENTE NASCEU LONGE DAS PISTAS
Para entender por que um tridente foi parar no capô de um automóvel de competição, é preciso sair das pistas e voltar ao centro de Bolonha. A poucos minutos da primeira oficina da família Maserati está a Fonte de Netuno, monumento renascentista concebido pelo arquiteto Tommaso Laureti e pelo escultor Giambologna. No centro, Netuno domina a composição segurando seu tridente — representação de força e poder. Foi dali que Mario Maserati tirou a inspiração. Há algo especialmente interessante nisso para quem gosta de design: Mario era o único dos irmãos que não estava diretamente envolvido com automóveis. Era o artista da família. Em 1925, ele desenhou a primeira versão do Tridente; o desenho original permanece preservado nos arquivos da Maserati em Modena. O símbolo também carregava Bolonha consigo. Nas versões posteriores, o vermelho e o azul adotados pelo emblema vieram das cores da cidade. O que hoje aparece na grade de um GranTurismo nasceu, portanto, de uma combinação improvável: uma escultura do século XVI, um irmão que preferia arte a motores e uma pequena fabricante que precisava colocar uma identidade sobre seu primeiro carro. Só depois veio a lenda. Em 25 de abril de 1926, aquele desenho apareceu no Tipo 26 na Targa Florio. Alfieri Maserati terminou em primeiro na classe até 1.500 cm³ e oitavo na classificação geral. O Tridente não nasceu como símbolo de luxo. Nasceu como símbolo de um carro que precisava correr.
“O Tridente personifica a alma mais autêntica da Maserati.” — Santo Ficili, COO da Maserati
Hoje, basta ver o Tridente para saber que há um Maserati por perto. Em 1926, porém, aquele símbolo não carregava prestígio algum. Ele ainda precisava conquistá-lo. O Tipo 26 foi o primeiro automóvel a levar oficialmente o nome Maserati e também o primeiro a carregar o novo emblema. Construído para competição, usava um oito-cilindros em linha sobrealimentado de aproximadamente 1,5 litro — uma arquitetura concebida para correr, não para ornamentar vitrines. Sua estreia dificilmente poderia ter sido mais simbólica. Na Targa Florio de 1926, Alfieri Maserati conduziu o carro à vitória em sua classe. A partir daquele momento, o Tridente começou a adquirir algo que nenhum departamento de marketing consegue simplesmente desenhar: reputação. E ela continuaria sendo construída nas pistas. Nas décadas seguintes, Maserati competiria nos Grandes Prêmios europeus, enfrentaria Alfa Romeo, Bugatti, Mercedes-Benz e Ferrari e chegaria a um feito que permanece particularmente importante para colecionadores: é a única fabricante italiana a vencer as 500 Milhas de Indianápolis duas vezes consecutivas, em 1939 e 1940, com Wilbur Shaw e o Maserati 8CTF. É aqui que a história do símbolo fica interessante. Porque aquilo que começou como uma referência à cidade de Bolonha deixou gradualmente de precisar de explicação. O desenho de Mario já não significava apenas Netuno.
Passara a significar Maserati.
E talvez essa seja uma das características dos grandes símbolos do luxo: chega um momento em que eles deixam de identificar o objeto e passam a carregar a história que veio antes dele.
QUANDO UM CARRO VELHO SE TRANSFORMA EM PATRIMÔNIO
Há uma diferença importante entre possuir um Maserati antigo e possuir um pedaço intacto da história da Maserati. Para o colecionador sério, o valor começa justamente onde a beleza termina. Número de chassi, motor, carroceria, configuração original, histórico de competição, restaurações e documentação podem separar dois automóveis aparentemente idênticos por um abismo de importância histórica. O próprio 8CTF ajuda a explicar isso. Apenas três exemplares foram construídos. O chassi 3032 — o Boyle Special de Wilbur Shaw — venceu Indianápolis em 1939 e 1940. Décadas depois, sua relevância ultrapassou o universo dos colecionadores: em 2014, tornou-se o primeiro automóvel de produção não americano incluído no Historic American Engineering Record, ligado à Library of Congress. Ou seja: já não estamos falando simplesmente de um carro raro. Estamos falando de patrimônio documentado. E é exatamente por isso que, no mercado de grandes clássicos, procedência não é detalhe burocrático. Ela faz parte do próprio objeto. A Maserati mantém um arquivo histórico capaz de fornecer, para muitos de seus automóveis, cópias de documentos originais, certificados de origem e informações sobre especificações técnicas e estéticas.
“Ser dono deste carro significa respeitá-lo.” — Igor Zanisi, colecionador de Maserat
A frase ganha peso quando sabemos de qual carro Zanisi está falando: um A6GCS/53, chassi 2043, com participação em cinco edições consecutivas da Mille Miglia original, entre 1953 e 1957. Em 2026, ele voltou à 1000 Miglia acompanhado da filha do proprietário — quase uma definição perfeita da diferença entre possuir e custodiar. É uma mudança de perspectiva importante. O grande colecionador não pergunta apenas “quanto vale?”. Pergunta: “o que, exatamente, sobreviveu até aqui?” E essa pergunta nos leva a um dos Maserati mais fascinantes para quem coleciona design, engenharia e história ao mesmo tempo.
O MASERATI QUE PININ FARINA QUASE NÃO PODIA DESENHAR
Alguns automóveis se tornam raros porque poucos foram produzidos. Outros porque nasceram de uma circunstância que dificilmente poderia acontecer duas vezes. O Maserati A6GCS/53 Berlinetta Pinin Farina pertence às duas categorias. A origem do carro está, curiosamente, na chuva. A Mille Miglia de 1952 havia sido disputada sob condições terríveis. O A6GCS era uma excelente máquina de competição, mas sua carroceria aberta transformava centenas de quilômetros sob chuva em uma experiência particularmente brutal. Alguns clientes queriam a mesma mecânica envolvida por uma berlinetta fechada. A solução aparentemente óbvia seria procurar Pinin Farina. Havia apenas um problema: a Maserati não podia simplesmente encomendar o carro. A carrozzeria de Turim acabara de estabelecer uma relação com Enzo Ferrari. Quem encontrou o caminho foi Guglielmo “Mimmo” Dei, representante da Maserati em Roma e homem por trás da Scuderia Centro Sud. Dei comprou seis chassis A6GCS/53 e, independentemente, encarregou Pinin Farina de criar a berlinetta. Quatro receberam a carroceria. Somente quatro. E os quatro sobrevivem. UMA PEQUENA PROVOCAÇÃO A MARANELLO Quando um deles apareceu no Salão de Turim de 1954, a situação causou, segundo a própria história oficial da Maserati, considerável descontentamento no círculo da Ferrari. O resultado explica por quê. Sob aquela carroceria havia um seis-cilindros em linha de 1.985,5 cm³, duplo comando no cabeçote e 170 cv a 7.500 rpm. Pesava apenas 740 kg e podia alcançar aproximadamente 235 km/h. Mas os números são quase secundários. Pinin Farina havia transformado uma máquina concebida para competição em algo que começava a antecipar a ideia do grande Gran Turismo italiano: rápido o suficiente para correr, belo o suficiente para existir fora das pistas.
“A Pininfarina Berlinetta representou o divisor de águas entre os mundos dos carros de corrida e dos carros de estrada.” — Maserati Classiche
Há ainda um detalhe delicioso para o colecionador. A Berlinetta seria o último desenho de Pinin Farina a carregar o emblema Maserati pelos 50 anos seguintes. Hoje, a própria Maserati considera os quatro sobreviventes entre seus automóveis históricos mais procurados. É aqui que quatro carros deixam de ser apenas quatro carros. Eles se tornam quatro testemunhas de um encontro quase proibido entre Maserati e Pinin Farina.
Apenas quatro receberam essa carroceria e todos sobreviveram — uma raríssima interseção entre competição, design italiano e a rivalidade industrial que cercava Maserati e Ferrari.
DOIS CARROS IGUAIS. DOIS VALORES COMPLETAMENTE DIFERENTES.
Em fotografia, dois Maserati clássicos podem parecer praticamente iguais. Para um colecionador experiente, podem ser objetos completamente diferentes. A diferença está no que a imagem não mostra. Um exemplar pode conservar motor, chassi e carroceria coerentes com sua história, documentação de época e uma restauração criteriosa. Outro pode ter atravessado décadas acumulando componentes substituídos, alterações de especificação, reparos mal documentados e uma restauração tão profunda que parte de sua identidade original desapareceu. É por isso que raridade, sozinha, não basta. No universo dos grandes carros históricos, autenticidade não significa necessariamente que cada parafuso tenha saído da fábrica há 70 anos. Automóveis de competição quebravam, recebiam novos motores, mudavam de carroceria e eram reparados durante sua própria vida esportiva. Em alguns casos, essas modificações fazem parte da história legítima do carro. A pergunta correta, portanto, não é simplesmente “está original?”. É: “Esta configuração pertence à história documentada deste chassi?” Essa diferença explica por que arquivos de fábrica, fichas técnicas, registros de competição, fotografias de época e sucessão de proprietários assumem tanta importância. A própria Maserati Classiche oferece documentação histórica e certificação voltadas à autenticidade e à preservação dos automóveis da marca.
“Preservar e promover a história da marca é uma missão fundamental da Maserati Classiche.” — Maserati
Para o aficionado, isso muda completamente a maneira de observar um clássico. A pintura perfeita pode impressionar numa exposição. Uma fotografia de 1954 provando que determinado detalhe já estava naquele mesmo chassi pode ser muito mais interessante.
O PERIGO DA RESTAURAÇÃO PERFEITA
Existe ainda um paradoxo fascinante no colecionismo: restaurar demais pode ser tão problemático quanto restaurar de menos. Uma carroceria impecável pode esconder chapas substituídas. Um interior absolutamente novo pode ter perdido materiais de fábrica. Um motor correto para o modelo não é necessariamente o motor historicamente associado àquele exemplar. Por isso, pátina deixou de ser automaticamente sinônimo de defeito. Em determinados carros, aquele couro marcado, a pintura envelhecida ou uma pequena cicatriz de competição são evidências materiais de uma vida que nenhuma restauração consegue reproduzir. Um grande clássico não precisa parecer novo. Precisa conseguir explicar por que ainda é ele mesmo.
RAIO-X DO COLECIONADOR — MASERATI A6GCS/53 Objeto: Maserati A6GCS/53 Nascimento: 1953 Categoria: Sport de competição Motor: seis-cilindros em linha, 2,0 litros Por que importa: um dos grandes Maserati de competição do pós-guerra Elementos emblemáticos: carroceria extremamente leve • seis-cilindros de duplo comando • competição de longa distância • ligação com a Mille Miglia Raridade: ★★★★★ Desejo entre colecionadores: ★★★★★ Importância histórica: ★★★★★ Facilidade para encontrar um exemplar correto: ★☆☆☆☆ Risco de comprar sem conhecimento: ★★★★★ O que observar: chassi • motor • configuração histórica • carroceria • histórico de competição • documentação de época • restaurações • procedência
REGRA OAK: Não compre apenas o carro que está diante de você. Compre a história que consegue provar que chegou até ele.
O DETALHE QUE PODE VALER MAIS QUE A PINTURA
É aqui que o colecionismo de automóveis começa a se aproximar do colecionismo de relógios, arte ou grandes garrafas. Um comprador comum olha o carro. O colecionador começa a procurar evidências. Uma gravação de chassi. A numeração do motor. Uma fotografia antiga mostrando determinada configuração. Uma ficha de fábrica. Uma inscrição em uma prova. Até uma solda pode ajudar a reconstruir a biografia de um automóvel. E essa investigação tornou-se ainda mais importante à medida que os grandes Maserati passaram a ocupar outro patamar no mercado internacional. Em 2022, por exemplo, um Maserati A6GCS/53 Spyder by Fiandri & Malagoli, chassi 2089, foi vendido pela RM Sotheby’s em Monterey por US$ 5,17 milhões. Não era apenas um belo A6GCS: o exemplar possuía história documentada em competição, incluindo participação na Mille Miglia de 1955. O preço, nesse universo, é consequência de uma pergunta anterior: qual história estamos comprando?
QUANDO A PROCEDÊNCIA VIRA PARTE DO CARRO
Nos exemplares realmente importantes, existe uma espécie de biografia paralela. Quem encomendou? Quem pilotou? Onde competiu? Quem foi proprietário depois? O motor permanece aquele documentado historicamente? A carroceria corresponde à configuração daquele período? O que foi restaurado — e quando? Uma resposta convincente pode transformar um automóvel raro em um exemplar de referência. Uma resposta incompleta pode fazer exatamente o contrário. “The car is only original once.” A expressão é recorrente no universo de preservação de automóveis históricos e resume uma mudança importante na mentalidade do colecionismo: material original também é documento. Por isso, restaurar deixou de significar simplesmente devolver um carro à aparência de quando era novo. Nos níveis mais elevados do colecionismo, a questão é decidir o que deve ser recuperado e o que deve ser preservado. Uma cicatriz pode contar mais do que uma superfície perfeita. E uma placa de identificação aparentemente banal pode ser o começo de uma investigação de meses.
O QUE A OAK PROCURARIA ANTES DE COMPRAR 1. IDENTIDADE Chassi, motor, carroceria e respectivas numerações. 2. DOCUMENTAÇÃO Registros de fábrica, documentos históricos, fotografias, inscrições em provas e antigos proprietários. 3. CONFIGURAÇÃO Como aquele chassi nasceu — e como efetivamente competiu ao longo da vida. 4. INTERVENÇÕES Restaurações, acidentes, troca de componentes e alterações realizadas posteriormente. 5. PROCEDÊNCIA Uma história extraordinária só tem valor colecionável quando pode ser sustentada por evidências. Regra OAK: quanto mais extraordinária a história, maior deve ser a documentação exigida para acreditarmos nela.
CEM ANOS DEPOIS, O TRIDENTE VOLTA AO PONTO DE PARTIDA
Em 2026, a Maserati completa 100 anos do Tridente. A efeméride poderia render apenas mais uma campanha comemorativa — imagens históricas, carros impecáveis e uma sucessão previsvisível de aniversários. Mas existe uma leitura mais interessante para quem observa a marca pelo olhar do colecionador. O que exatamente sobrevive depois de um século? Não é o motor. Não é a carroceria. Nem sequer a maneira de construir automóveis. É a identidade. O Tridente apareceu pela primeira vez em um automóvel em 1926, no Tipo 26. Cem anos depois, continua ocupando a dianteira de Maseratis que pertencem a um mundo completamente diferente daquele conhecido pelos irmãos Maserati. A própria marca abriu as comemorações do centenário relacionando explicitamente o emblema às suas origens em Bolonha e à estreia competitiva do Tipo 26 na Targa Florio. E há algo quase circular nisso. Um símbolo inspirado em uma estátua de Netuno no centro de Bolonha atravessou guerras, mudanças de proprietários, vitórias, crises, diferentes escolas de design e transformações radicais da indústria automobilística. Continuou reconhecível.
“O Tridente personifica a alma mais autêntica da Maserati.” — Santo Ficili, COO da Maserati
Para um colecionador, essa permanência importa porque ajuda a explicar por que determinados automóveis deixam de ser avaliados apenas pela engenharia. Eles passam a representar capítulos de uma linhagem.
O CENTENÁRIO NÃO É SOBRE 2026
Talvez seja justamente esse o aspecto mais interessante da comemoração. Um aniversário de marca normalmente olha para trás para vender o presente. Para quem coleciona, o movimento é inverso: olhamos para o presente tentando descobrir o que dele ainda será relevante daqui a cinquenta anos. Qual Maserati contemporâneo será procurado em 2076? Será uma série limitada? O último exemplar de determinada arquitetura mecânica? Um carro de competição? Uma configuração pouco desejada hoje que se tornará raríssima amanhã? Ninguém consegue responder isso com segurança. E talvez seja exatamente aí que mora parte da graça do colecionismo. Os grandes objetos colecionáveis raramente nasceram acompanhados de uma placa dizendo “isto será importante”. O Tipo 26 certamente não tinha uma. Ele tinha uma corrida pela frente.
O QUE O CENTENÁRIO MUDA PARA O COLECIONADOR
Pouco no curto prazo — e isso é importante dizer. Uma comemoração de 100 anos não transforma automaticamente qualquer Maserati antigo em objeto de investimento. O centenário, porém, aumenta a exposição da história da marca e coloca novamente seus automóveis fundamentais diante de colecionadores, concursos, museus e casas de leilão. Para a OAK, portanto, “tem o Tridente” nunca seria argumento suficiente para comprar. O que interessa é descobrir qual capítulo da história aquele exemplar representa — e quanto dessa história permanece dentro dele.
OS MASERATI QUE EXPLICAM POR QUE O TRIDENTE É COLECIONÁVEL
Se alguém decidisse montar uma coleção para explicar os cem anos do Tridente, cometeria um erro ao começar procurando simplesmente os Maserati mais caros. Uma coleção importante não é uma tabela de preços. Ela precisa de capítulos. O Tipo 26 representa o nascimento. O 8CTF prova que o nome atravessou o Atlântico e venceu Indianápolis. O A6GCS/53 mostra a fase em que competição, engenharia e carrozzeria italiana começaram a produzir objetos que hoje habitam concursos de elegância. O 3500 GT, por sua vez, conta outra história: a transformação da Maserati em fabricante de grandes gran turismo de estrada. Mas existe um automóvel muito mais recente que merece estar nessa conversa.
MC12 — O CLÁSSICO QUE NÃO PRECISOU ENVELHECER
Em 2004, a Maserati apresentou algo que parecia pertencer a outra companhia. Baixo, largo, enorme, com motor central e um V12 de 5.998 cm³ e 630 cv, o MC12 Stradale nasceu para permitir a homologação da versão de competição no universo GT. Sua base tecnológica tinha relação com a Ferrari Enzo, mas motor, chassi e aerodinâmica receberam alterações substanciais. Foram construídos apenas 50 exemplares de rua, 25 em 2004 e outros 25 em 2005. Essa informação seria suficiente para torná-lo raro. Mas não explica por que ele importa. O MC12 marcou a volta da Maserati às grandes competições GT e originou uma linhagem de pista extraordinariamente bem-sucedida. Entre 2004 e 2010, o MC12 GT1 acumulou 27 vitórias no FIA GT, três triunfos nas 24 Horas de Spa e uma sucessão de campeonatos. É justamente a combinação que colecionadores procuram: produção diminuta, engenharia extraordinária, identidade visual inequívoca e história real em competição. O mercado já começou a reconhecer isso de maneira bastante clara. Em agosto de 2025, um MC12 Stradale 2005 foi arrematado por US$ 5,2 milhões em Monterey — recorde para o modelo naquele momento. Mas há um detalhe ainda melhor para esta reportagem. Em julho de 2026, no ano do centenário do Tridente, a Maserati apresentou em Modena um GT2 Stradale “Tribute to MC12”, peça única encomendada por um colecionador de Taiwan. Ou seja, a própria marca está transformando um de seus grandes objetos colecionáveis recentes em referência para aquilo que produz hoje. O círculo se fecha novamente.
“A história é o que inspira o nosso futuro.” — Maserati, ao apresentar o GT2 Stradale Tribute to MC12.
RAIO-X DO COLECIONADOR Objeto: Maserati MC12 Stradale Nascimento: 2004 Categoria: Supercar de homologação Motor: V12 6.0 aspirado Potência: 630 cv Produção: 50 exemplares Por que importa: marcou o retorno da Maserati às competições internacionais de GT Elementos emblemáticos: carroceria long-tail • motor central • V12 • branco e azul • ligação técnica com Ferrari Enzo Raridade: ★★★★★ Desejo entre colecionadores: ★★★★★ Importância histórica: ★★★★★ Facilidade para encontrar um exemplar correto: ★☆☆☆☆ Risco de comprar sem conhecimento: ★★★★☆ O que observar: histórico • quilometragem • especificação • documentação • manutenção • acidentes • pintura • componentes originais • procedência REGRA OAK: Raridade chama atenção. Raridade acompanhada de relevância histórica cria um colecionável.
AFINAL, O QUE SE COMPRA QUANDO SE COMPRA UM MASERATI?
Depois de cem anos, talvez seja possível responder à pergunta que acompanha esta história desde o Tipo 26. O colecionador não compra apenas um Maserati. Compra o lugar daquele automóvel dentro da história do Tridente. É por isso que potência e desempenho envelhecem de maneira diferente de procedência, design e significado. Um automóvel que foi extraordinariamente rápido em 1955 será facilmente superado por um esportivo moderno. Mas nenhum carro produzido hoje pode voltar no tempo e disputar aquela Mille Miglia. Essa história não pode ser reproduzida. Pode apenas ser preservada. E talvez esteja aí a diferença entre um automóvel caro e um verdadeiro objeto de coleção.
O VALOR DO QUE NÃO PODE SER REPETIDO
O Tipo 26 representa o começo. O 8CTF carrega Indianápolis. O A6GCS pertence à época em que correr ainda significava atravessar cidades e montanhas em velocidades absurdas. O MC12 levou essa linhagem para o século XXI. São automóveis radicalmente diferentes. O que os une não é uma solução mecânica. É o Tridente.
“O Tridente personifica a alma mais autêntica da Maserati.” — Santo Ficili, COO da Maserati
A frase ganha outro significado depois de percorrer esses cem anos. Porque o emblema desenhado por Mario Maserati não permaneceu importante simplesmente porque continuou sendo colocado sobre capôs. Tornou-se importante por tudo aquilo que aconteceu atrás dele. Vitórias. Fracassos. Corridas. Mudanças de controle. Grandes carrozzerie. Pilotos. Engenheiros. Proprietários. Carros perdidos. Carros preservados. E sobreviventes.
RAIO-X DO COLECIONADOR 100 ANOS DO TRIDENTE Objeto: Maserati — Tridente Nascimento: 1926 Origem: Bolonha, Itália Inspiração: Tridente de Netuno Primeiro automóvel: Maserati Tipo 26 Por que importa: um século de continuidade visual ligando competição, gran turismo e automóveis de coleção Períodos essenciais: irmãos Maserati • competição pré-guerra • A6GCS • grandes GT • era moderna • MC12 Importância histórica: ★★★★★ Força entre colecionadores: ★★★★★ Profundidade do acervo histórico: ★★★★★ Facilidade para começar uma coleção: ★★★☆☆ Complexidade para comprar exemplares históricos: ★★★★★ O que observar: chassi • motor • carrozzeria • configuração original • competição • documentação • restaurações • procedência REGRA OAK Não procure simplesmente o Maserati mais raro. Procure aquele cuja história você gostaria de ser responsável por preservar. Porque existe uma diferença entre comprar um carro e assumir a custódia de um objeto histórico. Em 1926, o Tridente apareceu sobre um automóvel que ainda precisava provar praticamente tudo. Cem anos depois, talvez sua maior conquista seja justamente esta: ele já não precisa explicar o que significa.




