A noite em que o Macallan virou notíci

Alguns whiskies entram para a história por sua idade. Outros, por uma destilaria extraordinária. O Macallan, no caso Banco Master, ganhou destaque por um motivo diferente: quem estava ao redor da mesa. Em abril de 2024, o então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, financiou um fórum em Londres que reuniu autoridades brasileiras. A programação incluiu uma degustação de Macallan no George Club, em Mayfair, cujo custo foi registrado em aproximadamente US$ 640 mil nos documentos examinados pela Reuters. O episódio ganhou repercussão em março de 2026, durante a cobertura das investigações sobre o banco.  A presença de autoridades no encontro não comprova, por si só, participação em irregularidades. O episódio, contudo, colocou uma pergunta interessante para uma revista dedicada ao universo do whisky: por que determinadas garrafas aparecem com tanta frequência nos ambientes de prestígio? A resposta nos leva a outras épocas.

The Macallan 30 Years Sherry Oak: três décadas de maturação em barris de carvalho selecionados e preparados para receber vinho Jerez, numa expressão que se tornou símbolo do segmento de single malts de luxo. Crédito: The Maca

Não foi apenas uma degustação

Em reportagem de abril de 2026, a Folha de S.Paulo revelou que documentos recolhidos pela Polícia Federal registravam gastos de aproximadamente R$ 60 milhões com eventos internacionais financiados por Vorcaro em 2024. Em Nova York, a programação incluiu outra degustação, desta vez no Carnegie Club. Os registros também apontavam a aquisição de 25 garrafas de Macallan 30 anos, por US$ 121 mil, destinadas a presentes.  O detalhe altera a dimensão da história. Não se tratava somente de servir whisky: as garrafas também apareciam como objetos de presente em encontros de alto padrão. Mas essa relação entre whisky e representação de prestígio está longe de ser uma invenção recente.

O Logan e a memória da era Collor

Logan 12 Years: um blended Scotch que se tornou símbolo de prestígio no Brasil no início dos anos 1990 e foi registrado pela imprensa como um dos whiskies em evidência durante a era Collor. Crédito: Imagem editorial produzida pela Revista OAK a partir de referência histórica da garrafa.

Uma reportagem da IstoÉ Dinheiro, publicada em 2001, registrou o Logan como um whisky que esteve na moda durante a era Collor. Aqui, a natureza da associação é diferente: temos um retrato dos hábitos de consumo de uma época, não a comprovação de que a marca participou de determinado escândalo. O Logan guarda, porém, uma coincidência histórica especialmente interessante para os leitores do Mapa do Whisky: pertence à família do White Horse. A marca homenageia James Logan Mackie, tio de Peter Mackie, personagem fundamental na trajetória do White Horse. Sua história também está ligada à destilaria Lagavulin.  O whisky que ajuda a contar a história de uma época brasileira carrega, portanto, uma genealogia escocesa que remonta ao século XIX. E há outro capítulo em que a garrafa aparece não apenas como símbolo de prestígio, mas no cenário de decisões internacionais.

King's Ransom: o whisky que apareceu em Potsdam

King’s Ransom, blended Scotch criado por William Whiteley, ganhou um lugar incomum na história ao ser servido durante a Conferência de Potsdam, em 1945, quando as potências aliadas discutiam os rumos do mundo no pós-guerra. Crédito: Imagem editorial produzida pela Revista OAK a partir de referência histórica da garrafa.

Em 1945, os líderes aliados se reuniram na Conferência de Potsdam para discutir o futuro da Europa após a derrota da Alemanha nazista. Segundo a publicação especializada ScotchWhisky, o King's Ransom foi servido em um banquete durante a conferência. A mesma fonte registra a relação de Winston Churchill com o Scotch e sua preocupação em preservar a produção de whisky como importante atividade de exportação britânica.  A história da marca acrescenta um elemento inesperado: seu criador, William Whiteley, teve como representante comercial nos Estados Unidos Frank Costello, figura conhecida do crime organizado americano durante a era da Lei Seca.  São histórias distintas, separadas por décadas, mas reunidas pela trajetória de uma mesma garrafa.

O que essas garrafas realmente contam?

O Macallan aparece em registros de encontros e presentes de alto padrão ligados ao Banco Master. O Logan ajuda a reconstruir os hábitos de consumo de uma época brasileira. O King's Ransom surge no contexto de uma conferência diplomática que marcou o pós-guerra. Nenhuma dessas associações torna uma marca responsável pelas ações de quem a consumiu. O que elas revelam é algo mais interessante para a história cultural do whisky: ao longo do tempo, determinadas garrafas circularam não apenas como bebidas, mas também como presentes, objetos de representação e elementos de hospitalidade em ambientes de poder. O whisky não explica as decisões tomadas ao redor da mesa. Mas, às vezes, a história registra até o que estava dentro dos copos.

OAK EM 30 SEGUNDOS

MACALLAN Origem: Escócia — Speyside Categoria: Single Malt Scotch Whisky Na história: apareceu nos registros de eventos e presentes de alto padrão ligados a Daniel Vorcaro e ao Banco Master. O que representa: o whisky como símbolo contemporâneo de luxo, presente e prestígio. LOGAN Origem: Escócia Categoria: Blended Scotch Whisky Na história: foi registrado pela imprensa como um dos whiskies que estiveram na moda no Brasil durante a era Collor. O que representa: o Scotch como código de status no Brasil dos anos 1990. KING’S RANSOM Origem: Escócia Categoria: Blended Scotch Whisky Na história: há registros históricos de que foi servido durante a Conferência de Potsdam, em 1945. O que representa: o whisky presente nos ambientes diplomáticos e políticos de uma época decisiva do século XX. O FIO QUE UNE OS TRÊS: Não é sabor. Não é idade. Nem preço. É o papel que o whisky assumiu, em momentos diferentes, como objeto de hospitalidade, prestígio e representação de poder. REGRA OAK: Uma garrafa não responde pelas pessoas que a bebem.

Mas algumas acabam testemunhando a História.

Três garrafas, três épocas, diferentes relações com o poder. Macallan, Logan e King’s Ransom mostram como o whisky também pode atravessar acontecimentos políticos, diplomáticos e culturais — não como responsável pela História, mas, às vezes, como testemunha silenciosa dela. Crédito: Imagem editorial produzida pela Revista OAK a partir de referências históricas das garrafas.