Durante muito tempo, entender a maturação de Scotch parecia relativamente simples. O destilado entrava em um barril que já havia carregado bourbon ou xerez, passava alguns anos ali e saía transformado. Então o whisky começou a viajar. Vieram barris de vinho, Porto, rum, Cognac. O carvalho japonês mizunara deixou de ser uma excentricidade asiática e passou a ocupar espaço no vocabulário dos colecionadores. Destilarias começaram a experimentar diferentes espécies, origens, tostagens e estruturas de madeira. Agora, Billy Walker resolveu ir um pouco mais longe.

Até a Mongólia.

A GlenAllachie acaba de apresentar o Sinteis Part IV, um single malt de Speyside destilado em 2015 e engarrafado aos 10 anos, com 58,5% de álcool, cor natural e sem filtragem a frio. Mas idade e graduação alcoólica são quase detalhes diante do que está escrito no rótulo:

Mongolian Virgin Oak.

Carvalho virgem da Mongólia. Segundo a GlenAllachie, é a primeira vez que um Scotch maturado nesse tipo de madeira chega ao mercado em lançamento global. E aqui começa a história de verdade. Porque ninguém atravessa o mundo atrás de uma árvore diferente apenas para poder escrever um país exótico na caixa.

Madeira é ingrediente.

Ela não aparece na lista de ingredientes de uma garrafa de Scotch, mas participa de uma parcela enorme daquilo que encontramos no copo. Vanilla, especiarias, chocolate, frutas secas, coco, taninos, notas tostadas: parte desse vocabulário nasce justamente da interação entre álcool, oxigênio, tempo e madeira. É por isso que dois destilados semelhantes colocados em barris diferentes podem terminar a maturação parecendo parentes distantes. E é também por isso que a escolha da GlenAllachie é tão interessante.

“Se o barril é o alfaiate do whisky, a GlenAllachie acaba de mandar fazer um terno na Mongólia”

E agora precisamos descobrir como ele veste.

Não são três barris misturados ao acaso

O nome Sinteis vem do gaélico escocês e significa “síntese”. E, neste caso, a palavra é quase uma explicação do processo. O whisky começou sua vida em barris de bourbon. Depois, foi dividido: uma parte seguiu para barris de Pedro Ximénez, outra para Oloroso. Só mais tarde esses whiskies foram reunidos e transferidos para os barris virgens de carvalho mongol. A ordem importa. PX e Oloroso já são velhos conhecidos do Scotch, mas entregam coisas diferentes. O primeiro tende a empurrar o perfil para uma doçura mais intensa; o segundo acrescenta frutas secas, chocolate e caráter mais estruturado. O carvalho virgem entra com outro papel. Um barril que nunca recebeu vinho, bourbon ou qualquer outro líquido coloca o destilado em contato muito mais direto com os compostos da madeira. Por isso, pode entregar sabor e taninos com intensidade — e também destruir o equilíbrio de um whisky se for usado sem cuidado. É justamente aí que a Mongólia deixa de ser apenas uma boa história de marketing. O Quercus mongolica utilizado pela GlenAllachie tem grão apertado e alta densidade. Segundo a destilaria, precisa crescer por mais de um século antes de poder ser utilizado comercialmente. A própria madeira é descrita como difícil de obter e pouco explorada pela indústria escocesa. Billy Walker admite que havia pouco precedente para trabalhar com ela. Isso muda completamente a leitura da garrafa. Ele não estava apenas procurando mais sabor de madeira. Estava tentando descobrir quanto dessa madeira o whisky conseguiria suportar. E essa talvez seja uma das diferenças entre maturar whisky e simplesmente envelhecê-lo.

“Tempo você mede no calendário. Equilíbrio, não.”
O Quercus mongolica cresce lentamente e desenvolve madeira densa, de grão apertado. É justamente essa estrutura — somada à dificuldade de obtenção e trabalho — que torna seu uso tão incomum na maturação de Scotch. Crédito: Games Monitor

Mas o que a Mongólia muda no copo?

Essa é a pergunta que realmente importa. Porque madeira rara, árvore centenária e uma origem improvável rendem uma ótima história. Mas whisky não é botânica. No fim, precisa funcionar dentro do copo. A OAK ainda não degustou o Sinteis Part IV, portanto seria incorreto transformar as descrições da destilaria em uma avaliação nossa. O que podemos fazer é observar o perfil divulgado pela GlenAllachie e tentar entender onde termina o xerez e onde começa a influência desse carvalho pouco conhecido. A marca descreve aromas de mocha, mel de urze e frutas de pomar, acompanhados por especiarias. No paladar aparecem chocolate amargo, laranja assada e figos, além de gengibre, caramelo e notas mais tostadas. É uma descrição interessante justamente porque não sugere uma madeira tímida. E isso faz sentido. Ao contrário de um barril ex-bourbon ou ex-xerez, o carvalho virgem não teve parte de seus compostos previamente extraída por outra bebida. O whisky encontra a madeira praticamente em seu estado original. É como colocar dois alfaiates para trabalhar sobre o mesmo tecido. PX e Oloroso já haviam começado a construir o perfil do whisky. O carvalho mongol entrou depois com uma missão mais delicada: acrescentar personalidade sem apagar aquilo que veio antes. É nesse ponto que Billy Walker se torna parte importante da história.

Billy Walker passou décadas aprendendo quando tirar um whisky do barril

Walker é uma das figuras mais reconhecidas do Scotch contemporâneo. Antes de assumir a GlenAllachie, construiu sua reputação trabalhando com destilarias como GlenDronach, BenRiach e Glenglassaugh. Sua obsessão por maturação ajuda a explicar por que a GlenAllachie se tornou tão associada à experimentação com madeira. Mas experimentar não significa simplesmente encontrar o barril mais exótico disponível. Significa decidir quanto tempo permitir que ele fale. Com carvalho virgem, essa decisão é particularmente importante. Madeira demais pode trazer taninos excessivos, adstringência e transformar complexidade em algo simplesmente amadeirado. Portanto, talvez a grande habilidade neste Sinteis não esteja em ter encontrado carvalho na Mongólia. Está em saber quando retirar o whisky dele.

Billy Walker construiu boa parte de sua reputação no Scotch trabalhando com maturação e seleção de barris. Na GlenAllachie, essa experiência virou também um laboratório para madeiras menos convencionais. Crédito: The GlenAllachie.

Até onde vai a corrida pelo barril mais exótico?

Durante décadas, bourbon e xerez foram suficientes para construir boa parte do vocabulário do Scotch. Hoje, a adega de uma destilaria pode parecer um mapa-múndi. Porto de Portugal. Cognac da França. Vinho da Itália. Rum do Caribe. Mizunara do Japão. Diferentes espécies de carvalho europeu e americano. Agora, Mongólia. Existe uma explicação técnica para essa busca. Madeira diferente pode entregar compostos diferentes e, portanto, criar novas possibilidades de maturação. Mas existe também uma explicação comercial impossível de ignorar. Em um mercado onde milhares de single malts disputam a mesma prateleira, escrever “Mongolian Virgin Oak” em uma garrafa é uma maneira bastante eficiente de fazer alguém parar. E é justamente aí que começa o risco. Quando a origem do barril se torna mais interessante do que o próprio whisky, inovação pode virar apenas exotismo. Um bom barril deveria ampliar a identidade do destilado, não substituí-la. É a mesma diferença entre um grande alfaiate e uma fantasia: um veste o homem; o outro chega ao ambiente antes dele. A GlenAllachie parece compreender essa fronteira. A própria série Sinteis foi concebida em torno da combinação de diferentes influências de madeira, e não simplesmente da apresentação de um barril raro como atração isolada. Por isso, talvez o carvalho mongol seja menos importante como destino final e mais interessante como sinal do momento em que o Scotch se encontra. A indústria já descobriu que idade não é a única forma de criar raridade. Agora procura raridade também na madeira.

O próximo território do whisky talvez seja a floresta

Há algo curioso nessa história. Whisky sempre foi vendido como uma bebida cuja principal matéria-prima é o tempo. Quanto mais a indústria aprende sobre maturação, porém, mais percebemos que essa frase conta apenas metade da história. Dois whiskies podem envelhecer dez anos e terminar completamente diferentes. Porque o calendário registra quanto tempo passou.

“O barril decide o que aconteceu durante esse tempo.”

O Sinteis Part IV talvez não transforme carvalho mongol na próxima mizunara. É cedo demais para saber — e a OAK ainda precisa provar o whisky para julgar o resultado no copo. Mas ele revela uma mudança interessante. Depois de passar décadas procurando barris que haviam carregado bebidas extraordinárias, algumas destilarias começaram a procurar algo ainda mais fundamental: a própria árvore. E se essa corrida continuar, a próxima fronteira do whisky talvez não esteja em uma destilaria. Pode estar crescendo silenciosamente em alguma floresta que a indústria ainda nem aprendeu a pronunciar.

OAK EM 30 SEGUNDOS

Whisky: The GlenAllachie Sinteis Part IV Categoria: Speyside Single Malt Scotch Whisky Safra: 2015 Idade: 10 anos ABV: 58,5% Maturação: bourbon → PX e Oloroso → carvalho virgem mongol Madeira em destaque: Quercus mongolica Cor: natural Filtragem a frio: não Perfil divulgado pela destilaria: mocha, mel, frutas de pomar, chocolate amargo, laranja assada, figos e especiarias Nota OAK: NÃO AVALIADO Colecionabilidade: ALTA — principalmente pela utilização incomum da madeira e pelo caráter experimental da série Para beber: para quem acompanha maturação e quer comparar a influência de madeiras pouco convencionais Para colecionar: interessante como registro de uma fase em que o Scotch amplia a experimentação para novas espécies e origens de carvalho

NOTA CIENTÍFICA OAK

O que a ciência já sabe sobre o carvalho mongol?

Quando comecei a pesquisar esta garrafa, uma coisa me incomodou: não queria me contentar apenas com o que a destilaria dizia sobre o carvalho mongol. Se estamos falando de uma madeira tão pouco comum no Scotch, a pergunta era inevitável: existe alguma evidência científica mostrando o que o Quercus mongolica realmente pode entregar a uma bebida? Fui procurar. E encontrei estudos bastante interessantes. Pesquisas que analisaram destilados e whiskies em contato com Quercus mongolica mostram que essa espécie pode apresentar uma composição aromática diferente dos carvalhos tradicionalmente utilizados na indústria, como o americano (Quercus alba) e espécies europeias. Um dos achados mais curiosos está nos fenóis voláteis. Em estudo comparativo recente, o whisky em contato com carvalho mongol apresentou concentrações mais elevadas de determinados fenóis. O o-cresol, por exemplo, apareceu em concentração 2,97 vezes maior que no carvalho americano e 7,47 vezes maior que no francês — composto relacionado, naquele trabalho, a características aromáticas mais defumadas. Ao mesmo tempo, pesquisadores encontraram concentrações menores de alguns derivados furânicos e oak lactones. E isso é particularmente interessante para quem gosta de whisky. As lactonas do carvalho participam daquela família aromática que frequentemente associamos a coco, madeira adocicada e certas notas cremosas. Portanto, o carvalho mongol não parece ser simplesmente uma versão exótica de um carvalho americano. Ele pode ter uma assinatura química diferente. Outro estudo envolvendo Quercus mongolica observou que a tostagem da madeira pode favorecer a formação de compostos associados a características florais, frutadas e doces. Mas aqui existe uma ressalva importante.

“Carvalho não é tempero.”

Não podemos afirmar que colocar whisky em Quercus mongolica automaticamente fará surgir determinado aroma no copo. Origem da árvore, idade, tempo de secagem da madeira, nível de tostagem ou carbonização, tamanho do barril, duração da maturação, temperatura do armazém e, obviamente, o próprio destilado alteram profundamente o resultado. É justamente por isso que achei importante trazer estes estudos. Eles não servem para dizer qual sabor você encontrará no GlenAllachie Sinteis Part IV. Servem para mostrar que existe ciência por trás daquilo que muitas vezes resumimos em duas palavras no rótulo:

“Mongolian Oak.”

E talvez essa seja a parte mais fascinante da maturação. Quando bebemos um whisky, não estamos provando apenas cevada, água e tempo. Estamos provando também química, madeira, clima, decisões humanas — e, neste caso, uma árvore que levou mais de um século crescendo antes mesmo de alguém imaginar que um dia ela ajudaria a contar a história de um Scotch.