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Relógios
Uma marca de relógios esquecida atrai Chanel e F.P. Journe em uma negociação de US$ 66,5 milhões

Existem marcas que desaparecem das vitrines mais desejadas sem desaparecer da memória de quem conhece sua história. A Ebel, fundada em 1911 em La Chaux-de-Fonds, na Suíça, é uma delas. Durante décadas, seus relógios representaram uma combinação particular de elegância, engenharia e desenho industrial. Agora, uma negociação de US$ 66,5 milhões pode inaugurar outro capítulo dessa trajetória.
Em 8 de outubro, o grupo americano Movado anunciou um acordo vinculante para vender 95% da Ebel a um consórcio liderado pela Montres Journe, fabricante suíça associada ao relojoeiro François-Paul Journe. A operação também envolve a Chanel e o executivo Pierre Jacques, indicado para assumir a direção da marca após a conclusão do negócio. A Movado permanecerá com 5%. A transação ainda depende das condições habituais de fechamento.
Para compreender o interesse, é preciso voltar aos anos 1970 e 1980. A Ebel desenvolveu uma identidade reconhecível com relógios como o Sport Classic, marcado por linhas fluidas, pulseira integrada e parafusos aparentes no aro. Seus cronógrafos também se tornaram objetos de desejo, inclusive por sua associação à estética sofisticada da televisão daquela época.
O valor da operação não está apenas nos relógios que a empresa vende atualmente. Inclui propriedade intelectual, estoques e ativos históricos. Entre eles está a Villa Turque, residência projetada por Le Corbusier, um dos nomes fundamentais da arquitetura moderna. É uma conexão rara entre patrimônio relojoeiro e arquitetônico.
Para a Movado, a venda permite concentrar investimentos em outras marcas de seu portfólio. Para os compradores, representa a oportunidade de trabalhar com uma identidade centenária, sem precisar construir uma tradição do zero.
Isso não significa que o retorno da Ebel ao protagonismo esteja garantido. Recuperar uma marca exige produtos relevantes, distribuição adequada, posicionamento coerente e, sobretudo, capacidade de convencer novos consumidores de que sua história ainda tem algo a oferecer.
A presença de F.P. Journe e Chanel aumenta as expectativas, mas o verdadeiro teste virá quando a nova direção apresentar sua estratégia e seus primeiros relógios.
A questão mais interessante talvez seja esta: no mercado de luxo, quanto vale uma história que o dinheiro sozinho não consegue inventar?





