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Relógios, objetos e colecionismo

OAK RADAR | Uma marca de US$ 66,5 milhões, 34 relógios históricos e uma destilaria em crise

Chanel e F.P. Journe apostam na recuperação de uma relojoaria histórica, colecionadores revelam raridades guardadas por décadas e a Escócia enfrenta o colapso de uma destilaria comunitária. As histórias que merecem sua atenção nesta terça-feira.

Por Equipe OAK 10 min de leitura 5 notícias

OAK RADAR | Uma marca de US$ 66,5 milhões, 34 relógios históricos e uma destilaria em crise
A relojoaria suíça volta ao centro das atenções com uma negociação milionária envolvendo a Ebel, a Chanel e F.P. Journe.Imagem ilustrativa gerada pela Revista OAK.

O que torna um objeto verdadeiramente valioso? Seu preço, a assinatura de quem o produziu, sua raridade ou a história que conseguiu atravessar o tempo? O noticiário desta terça-feira oferece diferentes respostas, algumas surpreendentes.

Na Suíça, uma marca de relógios que já esteve entre os grandes nomes da indústria prepara uma mudança de controle envolvendo F.P. Journe e Chanel. Em Genebra, 34 relógios históricos foram selecionados para um concurso que pretende reconhecer não apenas a excelência mecânica, mas também a importância do colecionismo na preservação da memória relojoeira.

Enquanto isso, a Seiko demonstra que o humor pode ser levado a sério no design, e uma pequena marca independente encontra inspiração em uma técnica de camuflagem naval da Primeira Guerra Mundial.

Nossa quinta história atravessa a Europa até as Highlands escocesas, onde uma destilaria financiada por milhares de pessoas enfrenta uma crise que revela os desafios econômicos por trás de cada garrafa de whisky.

São acontecimentos aparentemente distantes, mas unidos por uma questão: o que permite que uma ideia sobreviva ao entusiasmo de seus criadores?

Nesta edição do OAK RADAR, investigamos os fatos, os personagens e os mecanismos por trás dessas histórias.

Destaque editorial

Relógios

Uma marca de relógios esquecida atrai Chanel e F.P. Journe em uma negociação de US$ 66,5 milhões

Uma marca de relógios esquecida atrai Chanel e F.P. Journe em uma negociação de US$ 66,5 milhões
O acordo de US$ 66,5 milhões reúne nomes importantes da relojoaria e do luxo em torno do futuro da Ebel, fundada em 1911.Imagem ilustrativa gerada pela Revista OAK.

Existem marcas que desaparecem das vitrines mais desejadas sem desaparecer da memória de quem conhece sua história. A Ebel, fundada em 1911 em La Chaux-de-Fonds, na Suíça, é uma delas. Durante décadas, seus relógios representaram uma combinação particular de elegância, engenharia e desenho industrial. Agora, uma negociação de US$ 66,5 milhões pode inaugurar outro capítulo dessa trajetória.

Em 8 de outubro, o grupo americano Movado anunciou um acordo vinculante para vender 95% da Ebel a um consórcio liderado pela Montres Journe, fabricante suíça associada ao relojoeiro François-Paul Journe. A operação também envolve a Chanel e o executivo Pierre Jacques, indicado para assumir a direção da marca após a conclusão do negócio. A Movado permanecerá com 5%. A transação ainda depende das condições habituais de fechamento.

Para compreender o interesse, é preciso voltar aos anos 1970 e 1980. A Ebel desenvolveu uma identidade reconhecível com relógios como o Sport Classic, marcado por linhas fluidas, pulseira integrada e parafusos aparentes no aro. Seus cronógrafos também se tornaram objetos de desejo, inclusive por sua associação à estética sofisticada da televisão daquela época.

O valor da operação não está apenas nos relógios que a empresa vende atualmente. Inclui propriedade intelectual, estoques e ativos históricos. Entre eles está a Villa Turque, residência projetada por Le Corbusier, um dos nomes fundamentais da arquitetura moderna. É uma conexão rara entre patrimônio relojoeiro e arquitetônico.

Para a Movado, a venda permite concentrar investimentos em outras marcas de seu portfólio. Para os compradores, representa a oportunidade de trabalhar com uma identidade centenária, sem precisar construir uma tradição do zero.

Isso não significa que o retorno da Ebel ao protagonismo esteja garantido. Recuperar uma marca exige produtos relevantes, distribuição adequada, posicionamento coerente e, sobretudo, capacidade de convencer novos consumidores de que sua história ainda tem algo a oferecer.

A presença de F.P. Journe e Chanel aumenta as expectativas, mas o verdadeiro teste virá quando a nova direção apresentar sua estratégia e seus primeiros relógios.

A questão mais interessante talvez seja esta: no mercado de luxo, quanto vale uma história que o dinheiro sozinho não consegue inventar?

Relógios, objetos e colecionismo

550 relógios históricos foram avaliados. Apenas 34 chegaram à final de um concurso inédito

Representação artística de uma exposição de alta relojoaria, com relógio histórico de bolso e peças de coleção, inspirada no Concours d’Élégance Horlogère.
Entre 550 inscrições, apenas 34 relógios históricos foram selecionados para a final do Concours d’Élégance Horlogère, promovido pela Vacheron Constantin em parceria com a Phillips. Uma celebração da memória, da raridade e da preservação relojoeira.Imagem ilustrativa gerada pela Revista OAK.

O que torna um relógio digno de um prêmio de elegância? Sua raridade? A complexidade do movimento? O estado de conservação? Ou a importância que teve na história da relojoaria?

Essas perguntas estão no centro do primeiro Concours d’Élégance Horlogère, organizado pela Vacheron Constantin em parceria com a casa de leilões Phillips, em associação com Bacs & Russo. Nesta terça-feira, 13 de outubro, foram anunciados os 34 finalistas, escolhidos entre 550 inscrições de colecionadores de diferentes países.

A inspiração vem dos tradicionais concursos de elegância automotiva, nos quais veículos históricos são avaliados não apenas por sua beleza, mas também pela originalidade, procedência e relevância. No caso da relojoaria, o desafio é ainda mais delicado: algumas das características mais importantes de um relógio estão escondidas dentro de sua caixa.

Os finalistas concorrem em sete categorias, incluindo cronógrafos, mecanismos de soneria, complicações astronômicas, relógios com múltiplas complicações, Métiers d’Art, Chronomètre Royal e design.

Entre as peças selecionadas estão relógios raramente vistos pelo público, incluindo exemplares com calendários complexos, repetidores de minutos e mostradores artisticamente elaborados. Um dos destaques é o histórico Don Pancho, relógio de 1940 com calendário retrógrado e repetição de minutos.

O concurso também expõe um dilema conhecido dos colecionadores: uma peça restaurada pode ser tecnicamente impecável, mas ter perdido parte de sua originalidade. Por outro lado, um relógio preservado exatamente como saiu da fábrica pode apresentar marcas de uso que contam sua história.

Os exemplares serão apresentados ao público em Genebra de 4 a 8 de novembro. Os vencedores serão anunciados em 10 de novembro.

Mais do que uma competição, a iniciativa reconhece o papel dos colecionadores na preservação do patrimônio relojoeiro. Sem eles, muitos desses objetos poderiam ter desaparecido, sido desmontados ou simplesmente permanecido esquecidos.

A pergunta que permanece é provocadora: quando avaliamos um relógio histórico, estamos julgando um instrumento, uma obra de arte ou um documento do tempo?

Relógios

A Seiko transformou uma piada entre colecionadores em um relógio de verdade

A Seiko transformou uma piada entre colecionadores em um relógio de verdade
A Seiko levou ao pé da letra o apelido panda dial, tradicional entre colecionadores de cronógrafos. Os modelos HHK001 e HHK002 transformam uma referência visual em uma proposta de design bem-humorada.Imagem ilustrativa gerada pela Revista OAK.

Quem acompanha a relojoaria conhece a expressão panda dial. Ela descreve mostradores claros com submostradores escuros, cuja combinação lembra o rosto de um panda. O apelido tornou-se tão popular que passou a identificar uma das configurações visuais mais desejadas entre os cronógrafos.

A Seiko decidiu levar a comparação ao pé da letra.

Em outubro, a fabricante japonesa apresentou os modelos HHK001 e HHK002, dois cronógrafos que transformam a referência ao animal em uma proposta completa de design. Os submostradores representam os olhos, os botões laterais assumem o formato das orelhas e até a cauda aparece no fundo da caixa.

A ideia nasceu do trabalho do designer Kiyotaka Sakai e foi apresentada originalmente em 2024, durante uma exposição experimental do Power Design Project, iniciativa criada pela Seiko para estimular interpretações pouco convencionais sobre a função e a aparência dos relógios.

O projeto despertou interesse suficiente para se transformar em produto comercial. A versão preta e branca terá 3.000 unidades, enquanto a interpretação rosa, inspirada em um filhote de panda, será limitada a 2.000 exemplares. A comercialização está prevista para novembro de 2026.

Há detalhes especialmente curiosos. A escala de velocidade do mostrador recebeu o nome SASAMETER, uma referência ao bambu, alimento associado aos pandas. Ela indica velocidades de até 30 quilômetros por hora. Os relógios utilizam movimento de quartzo 8T61, caixa de aço de 43 milímetros e resistência à água de 3 bar.

O resultado não pretende competir com as grandes complicações mecânicas suíças. Seu valor está em outra proposta: mostrar que a relojoaria também pode explorar humor, linguagem visual e afeto.

Durante muito tempo, o discurso do luxo associou prestígio à solenidade. Projetos como esse sugerem que um objeto pode ser tecnicamente funcional e, ao mesmo tempo, provocar um sorriso.

Talvez a verdadeira sofisticação esteja em compreender quando uma tradição merece reverência e quando merece uma interpretação bem-humorada.

Relógios

Um relógio de US$ 7.700 recupera uma técnica criada para confundir submarinos na Primeira Guerra Mundial

Composição editorial com relógio de design geométrico inspirado na camuflagem naval dazzle, ao lado de uma embarcação histórica e desenhos técnicos.
Uma técnica de camuflagem criada durante a Primeira Guerra Mundial inspira o Toledano & Chan b/1 Dazzle. Seus padrões geométricos transformam uma antiga estratégia militar em uma proposta contemporânea de design relojoeiro.Imagem ilustrativa gerada pela Revista OAK.

Durante a Primeira Guerra Mundial, alguns navios foram pintados com enormes desenhos geométricos de alto contraste. Não era uma tentativa convencional de torná-los invisíveis. A intenção era dificultar a avaliação de seu tamanho, direção e velocidade por observadores inimigos, especialmente em situações de ataque por submarinos.

A técnica ficou conhecida como dazzle camouflage. Seu efeito real permanece objeto de debate histórico, mas sua aparência se tornou uma das experiências visuais mais curiosas do design militar do século XX.

Mais de um século depois, essa linguagem chegou à relojoaria.

Em 12 de outubro, a marca independente Toledano & Chan apresentou o b/1 Dazzle, relógio que transforma os padrões geométricos da camuflagem naval em um objeto de design contemporâneo.

A caixa e o mostrador utilizam titânio grau 5, trabalhado por gravação CNC e acabamentos alternados que criam diferentes reflexos. As linhas atravessam a superfície do relógio, dificultando a percepção imediata de seus volumes e limites.

O projeto mantém a arquitetura angular característica da coleção b/1, cuja linguagem formal também dialoga com o edifício brutalista projetado por Marcel Breuer em Nova York.

A versão convencional será limitada a 188 exemplares, com preço anunciado de US$ 7.700. Outra interpretação, chamada Double Dazzle, utiliza 350 diamantes e terá apenas 12 unidades, por US$ 9.700. Ambas utilizam movimento automático Sellita SW100, com reserva de marcha de aproximadamente 42 horas. A disponibilidade está prevista para 24 de outubro.

O interesse da criação está menos em sua função de marcar as horas e mais na transformação de uma solução histórica em linguagem estética.

A camuflagem nasceu para dificultar a leitura visual de um objeto. Aqui, faz exatamente o contrário: transforma o relógio em algo impossível de ignorar.

É uma demonstração de como o design pode retirar uma ideia de seu contexto original e atribuir a ela um significado completamente novo.

Pauta coringa

Quatro mil pessoas financiaram uma destilaria na Escócia. Agora, o futuro dos barris está em discussão

Quatro mil pessoas financiaram uma destilaria na Escócia. Agora, o futuro dos barris está em discussão
A GlenWyvis nasceu de um projeto comunitário que reuniu aproximadamente 4.000 participantes. Em outubro de 2026, a destilaria entrou em administração, levantando questões sobre o futuro de suas instalações, estoques e barris privados.Imagem ilustrativa gerada pela Revista OAK.

A cidade escocesa de Dingwall passou quase 90 anos sem produzir whisky. Quando um grupo de moradores decidiu recuperar essa tradição, a ideia ganhou proporções extraordinárias: milhares de pessoas contribuíram para financiar uma destilaria que pertenceria à própria comunidade.

Assim nasceu a GlenWyvis, fundada em 2015 nas Highlands. O empreendimento reuniu aproximadamente 4.000 membros e tornou-se um exemplo de propriedade comunitária no setor de destilados.

Mas a história encontrou um obstáculo que nem o entusiasmo coletivo conseguiu superar.

Em 5 de outubro de 2026, a GlenWyvis Distillery Limited entrou formalmente em administração, procedimento de insolvência no qual profissionais especializados assumem a gestão para avaliar possibilidades de recuperação ou realização dos ativos. O anúncio público ocorreu no dia seguinte, por meio da Interpath, empresa responsável pelo processo.

A produção de whisky e gin foi interrompida. Os três funcionários restantes perderam seus empregos. Os administradores passaram a concentrar esforços na proteção dos estoques e equipamentos, enquanto buscam interessados nos ativos da empresa.

Segundo a Interpath, a destilaria enfrentava dificuldades financeiras prolongadas, aumento dos custos operacionais, pressões externas e falta de recursos para continuar funcionando. Tentativas de obter novo financiamento não conseguiram assegurar o capital necessário.

O caso revela uma particularidade econômica da indústria do whisky. Diferentemente de muitos produtos, um single malt escocês não pode ser vendido imediatamente após a destilação com essa denominação. Ele precisa maturar por pelo menos três anos em barris de carvalho, na Escócia.

Durante esse período, a empresa precisa financiar instalações, salários, energia, manutenção, barris e estoques que ainda não geram receita como whisky maturado.

Existe outra questão especialmente relevante para colecionadores: os barris privados mantidos pela destilaria. Os administradores reconheceram a preocupação de seus proprietários e informaram que seriam fornecidas orientações específicas sobre sua situação.

É importante distinguir os estoques pertencentes à empresa dos barris cuja propriedade privada possa ser comprovada. O destino de cada um depende da documentação contratual e das decisões do processo de administração.

A GlenWyvis demonstra que uma destilaria pode possuir uma história admirável, apoio popular e uma proposta cultural relevante sem conseguir superar os desafios financeiros da produção.

A pergunta que fica é incômoda: quanto tempo uma comunidade consegue sustentar um sonho quando o produto que ela deseja vender exige anos de espera?

Encerramento

O olhar da OAK

Existe uma tentação recorrente no universo do luxo: confundir preço com importância e raridade com relevância. As histórias desta terça-feira mostram por que essas relações são muito mais complexas.

A Ebel procura um novo futuro recorrendo ao valor de seu passado. A Vacheron Constantin reconhece colecionadores que preservaram relógios históricos. A Seiko demonstra que o humor também pode produzir objetos desejáveis. A Toledano & Chan transforma uma solução militar em linguagem estética.

E, nas Highlands, a GlenWyvis lembra que nem toda boa história consegue se transformar em um negócio sustentável.

Em todos esses casos, encontramos uma mesma tensão entre memória e futuro.

O verdadeiro valor de um objeto não está apenas naquilo que ele custa, mas na combinação de conhecimento, trabalho, contexto e significado que consegue reunir.

Talvez seja por isso que alguns relógios continuam fascinantes depois de um século, enquanto outros desaparecem poucos anos após seu lançamento.

E talvez seja também por isso que conhecer a história de uma garrafa, de uma marca ou de uma criação seja uma experiência tão importante quanto possuí-la.

Na OAK, acreditamos que o luxo mais interessante não é necessariamente aquele que impressiona à primeira vista. É aquele que continua oferecendo algo a descobrir depois que a primeira impressão termina.

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