Durante muito tempo, a riqueza teve uma necessidade quase irresistível: ser vista. Palácios exibiam coleções. Empresários financiavam museus. Grandes fortunas disputavam pinturas que, além de decorar paredes, comunicavam poder, influência e prestígio. A arte não era apenas algo para admirar. Era também uma maneira de dizer ao mundo quem podia possuí-la. Mas uma nova geração de milionários parece estar mudando parte dessa lógica. Eles compram obras caríssimas. Frequentam feiras internacionais. Pesquisam artistas com ferramentas digitais e inteligência artificial. Alguns gastam centenas de milhares de dólares por ano. E, quando alguém pergunta o que possuem, preferem manter a resposta entre poucos convidados. Talvez o novo símbolo de status não seja mostrar algo que ninguém pode comprar. Seja possuir algo que quase ninguém tem permissão para ver.
US$ 347 MIL EM ARTE. EM APENAS UM ANO.
O número chama atenção mesmo em um mercado acostumado a cifras extraordinárias. Segundo o Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2026, divulgado em 8 de outubro, os colecionadores da geração Z entrevistados gastaram, em média, US$ 347.460 em belas-artes durante 2025. O resultado representa crescimento de 19% em relação ao ano anterior e supera em mais de duas vezes o gasto médio de qualquer geração mais velha incluída no estudo. A pesquisa, elaborada pela economista Clare McAndrew, da Arts Economics, ouviu 3.100 pessoas de alto patrimônio nos Estados Unidos, Reino Unido, China continental, Hong Kong, França, Austrália, Alemanha, Japão, Brasil e Singapura. É preciso compreender quem são esses jovens. Não estamos falando de toda a geração Z. Os participantes possuíam pelo menos US$ 1 milhão em patrimônio líquido pessoal, excluindo imóveis e participações em empresas privadas. Apenas 9% da amostra pertencia à geração mais jovem, definida no estudo como pessoas de 20 a 29 anos. Ainda assim, o resultado aponta para um grupo de compradores que merece a atenção de galerias, casas de leilões, bancos e empresas de luxo. O dinheiro está mudando de geração. E, com ele, a maneira de consumir prestígio.
A COLEÇÃO MAIS EXCLUSIVA PODE SER AQUELA QUE VOCÊ NÃO CONSEGUE VISITAR
Aqui está a descoberta mais interessante da pesquisa. Entre os colecionadores da geração Z, 39% restringem o acesso presencial às obras a pessoas da própria casa, familiares ou amigos próximos. No ambiente digital, 36% mantêm o conteúdo sobre suas coleções em círculos privados. E 42% utilizam grupos fechados ou acessíveis somente por convite. Não significa que esses jovens deixaram de compartilhar suas aquisições. Significa que estão escolhendo cuidadosamente quem poderá vê-las. Existe uma diferença importante entre ser invisível e ser inacessível. Uma obra exposta publicamente pode ser admirada por milhares de pessoas. Uma obra apresentada apenas a um pequeno círculo pode adquirir outro significado social: o privilégio de acesso. Segundo Clare McAndrew, responsável pelo estudo, raridade, procedência, originalidade e descoberta ajudam a explicar essa mudança. A interpretação é fascinante. O prestígio deixa de depender exclusivamente da quantidade de pessoas que reconhecem um objeto e passa a depender também de quem tem acesso a ele. Para uma revista que acompanha relógios, whisky, arte, arquitetura e objetos de coleção, essa distinção importa. Um relógio raro pode ser exibido em todas as redes sociais. Ou pode ser conhecido apenas pelos colecionadores que reconhecem sua referência, procedência e história. O objeto é o mesmo. O significado social pode ser completamente diferente.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ENTROU NA GALERIA
Existe outra mudança acontecendo silenciosamente. Durante décadas, a relação entre compradores e o mercado de arte dependeu de galeristas, consultores, curadores, leiloeiros e especialistas. Esses profissionais continuam importantes. Mas o comprador agora chega à negociação com mais informações. Na pesquisa, 72% dos colecionadores disseram realizar investigação própria moderada ou aprofundada antes de adquirir obras. Entre os jovens da geração Z, essa participação chegou a 80%. Além disso, 22% dos participantes recorreram a aplicativos ou ferramentas de inteligência artificial para obter aconselhamento ou recomendações sobre arte. Em 2024, eram apenas 4%. A IA pode ajudar a descobrir artistas, organizar informações e comparar referências. Mas há uma fronteira que nenhuma resposta automática deveria atravessar sem verificação independente: autenticidade, proveniência e valor de mercado. A tecnologia amplia o acesso à informação. Não elimina a necessidade de especialistas. Para o empresário do setor, a consequência é clara. O cliente não quer apenas ouvir por que uma obra é valiosa. Ele quer compreender e verificar essa afirmação.
O PARADOXO: QUANTO MAIS DIGITAL, MAIS IMPORTANTE SE TORNA A EXPERIÊNCIA REAL
Seria fácil imaginar que uma geração acostumada às telas passaria a comprar arte exclusivamente pela internet. Mas os dados mostram um comportamento mais complexo. Galerias e negociantes continuam centrais: 87% dos entrevistados adquiriram obras por meio de algum tipo de negociante no período analisado. Ao mesmo tempo, 69% compraram diretamente de artistas, proporção superior à registrada nos levantamentos anteriores. O que está acontecendo não é simplesmente a substituição do mercado tradicional pelo digital. É a multiplicação dos caminhos até a obra. Um colecionador pode descobrir um artista no Instagram, pesquisar sua trajetória, consultar ferramentas digitais, visitar uma feira, conversar com um galerista e concluir a compra pessoalmente. Para galerias, isso representa um desafio. A autoridade profissional continua valiosa, mas já não depende de controlar sozinha o acesso à informação. O futuro pode pertencer aos profissionais capazes de combinar conhecimento, relacionamento, confiança e experiências que não podem ser reproduzidas por uma tela.
A NOVA GERAÇÃO ESTÁ COMPRANDO OBRAS. MAS TAMBÉM ESTÁ HERDANDO HISTÓRIAS.
Há um dado que impede uma leitura superficial sobre jovens milionários. Entre os colecionadores da geração Z, 40% começaram a se interessar por arte por influência familiar. E quase 90% daqueles que receberam obras por herança decidiram preservá-las. Portanto, parte dessa nova geração não está simplesmente descobrindo o colecionismo. Está recebendo um patrimônio cultural construído antes de nascer. Uma pintura herdada pode ter valor financeiro. Mas também carrega memória, identidade e continuidade familiar. Isso ajuda a compreender por que 48% dos jovens entrevistados consideraram singularidade ou raridade o aspecto mais importante de possuir uma obra. A raridade não precisa significar apenas preço elevado. Pode significar uma história impossível de reproduzir. Dinheiro compra uma obra. Nem sempre consegue comprar a história que fez aquela obra chegar até uma família.
E O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O BRASIL?
O Brasil integra os dez mercados pesquisados, o que torna o levantamento especialmente relevante para o debate nacional. Mas há um cuidado: os resultados globais não devem ser apresentados como se descrevessem exclusivamente o comportamento dos milionários brasileiros. Ainda assim, as tendências levantam questões importantes para galerias, empresários, arquitetos, consultores patrimoniais e colecionadores do país. O mercado brasileiro possui artistas reconhecidos internacionalmente, galerias com presença em grandes feiras e um patrimônio cultural capaz de atrair compradores de diferentes gerações. Nesse ambiente, o diferencial competitivo pode ir além de apresentar uma obra bonita ou uma assinatura famosa. O comprador de alto patrimônio pode exigir informações sobre procedência, conservação, relevância artística, documentação e potencial de preservação patrimonial. Para arquitetos e designers de interiores, há outra reflexão. Uma coleção privada não precisa ser organizada apenas para impressionar visitantes. Ela pode ser pensada para a relação íntima entre proprietário, arquitetura e obra. Para bancos e gestores patrimoniais, arte também pode envolver planejamento sucessório, seguros, documentação, custos de conservação e questões tributárias. É um universo no qual a compra pode ser apenas o primeiro capítulo de uma relação que atravessa décadas.
O QUE AS MARCAS DE LUXO PRECISAM APRENDER COM ESSES COLECIONADORES?
O estudo não demonstra que todos os consumidores de luxo estejam abandonando a ostentação. Mas oferece sinais importantes sobre um segmento particularmente influente. Primeiro, exclusividade não significa necessariamente visibilidade. Segundo, o consumidor informado valoriza mais a transparência e a procedência. Terceiro, experiências presenciais continuam relevantes, mesmo quando a descoberta começa digitalmente. E, por último, o valor emocional de um objeto pode ultrapassar sua função ou preço. Essas lições interessam a galerias, joalherias, fabricantes de relógios, marcas de automóveis, hotéis e empresas de serviços exclusivos. A questão não é simplesmente vender produtos mais caros. É construir razões para que alguém queira possuí-los, preservá-los e, eventualmente, transmiti-los à próxima geração.
O VERDADEIRO LUXO PODE ESTAR MUDANDO DE ENDEREÇO
Durante muito tempo, a demonstração pública de riqueza foi uma linguagem facilmente reconhecível. O automóvel estacionado diante do restaurante. O relógio fotografado no pulso. A obra assinada na parede principal. A garrafa rara exposta na adega. Nada disso desapareceu. Mas a pesquisa da Art Basel e do UBS sugere que, entre jovens colecionadores de grandes fortunas, existe outra forma de prestígio ganhando importância. Uma que depende menos de plateia e mais de pertencimento. Menos de exposição e mais de acesso. Menos de possuir o objeto que todos reconhecem e mais de descobrir aquilo que poucos conhecem. Talvez o luxo do futuro não seja aquilo que todos desejam ver. Seja aquilo que seu proprietário não precisa mostrar a ninguém.




