Às 17 horas de ontem, as urnas começaram a responder à pergunta que dominou o país durante meses: quem ganhou? Talvez não seja a pergunta mais importante. Porque uma eleição não escolhe apenas pessoas. Escolhe maiorias. E maiorias decidem regras. A partir de 1º de fevereiro de 2027, o Brasil terá uma nova Câmara dos Deputados e um Senado profundamente renovado. O presidente da República, porém, ainda será decidido no segundo turno. Isso cria uma situação particularmente interessante. Ainda não sabemos quem governará o Brasil. Mas já sabemos parte importante das condições sob as quais essa pessoa terá de governar. Na Câmara, o PL elegeu 121 dos 513 deputados, tornando-se a maior bancada. A federação formada por PT, PCdoB e PV terá 82. Outros grandes grupos — União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB e diferentes federações — formarão o território no qual qualquer governo precisará negociar para construir maioria. No Senado, a mudança é ainda mais profunda. Ontem estavam em disputa 54 das 81 cadeiras — dois terços da Casa. O PL elegeu 19 senadores e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 das 81 cadeiras. A federação União-Progressistas terá 11; PT, 9; MDB, 8; PSD, 5; PSB, 4; Novo, 3; PSDB e Podemos, 2 cada, além das demais representações. Os números contam uma história. Mas não a história inteira. Deputados não são peças de xadrez obrigadas a se mover conforme a cor do partido. Bancadas negociam. Governos constroem coalizões. Interesses estaduais atravessam ideologias. Projetos econômicos podem unir adversários e separar aliados. Portanto, esta reportagem não pretende prever como 594 parlamentares votarão durante quatro anos. Pretende fazer algo mais útil: observar para onde a porta ficou mais fácil — ou mais difícil — de abrir.
O PRESIDENTE AINDA NÃO FOI ESCOLHIDO. PARTE DO PODER, SIM.
Existe uma tendência natural de tratar uma eleição presidencial como se todo o poder estivesse concentrado em um único nome. O Brasil não funciona assim. Um presidente pode propor. Pode negociar. Pode vetar. Pode editar medidas provisórias dentro dos limites constitucionais. Mas mudanças importantes frequentemente precisam atravessar o Congresso. Uma lei ordinária precisa de maioria parlamentar. Uma lei complementar exige maioria absoluta. E uma mudança constitucional enfrenta uma barreira deliberadamente alta: três quintos dos votos, em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado. São 308 deputados e 49 senadores. Nenhum dos grandes grupos políticos saiu das urnas sozinho com esse poder. Essa talvez seja a primeira conclusão importante da eleição de ontem: o Brasil escolheu um Congresso com forças políticas claras, mas não entregou a ninguém o direito de governar sem negociar. E negociação importa porque o Congresso que assume em 2027 encontrará algumas das decisões econômicas mais relevantes dos últimos anos já esperando sobre a mesa. A reforma tributária entrará em uma fase concreta de implementação. A CBS começa a ser cobrada em 2027. O IBS entra inicialmente com alíquota de teste antes da transição que substituirá gradualmente ICMS e ISS a partir de 2029. Empresas terão de rever sistemas. Estados perderão progressivamente parte da velha ferramenta dos incentivos fiscais. O Simples terá novas escolhas. Montadoras precisarão reconsiderar onde produzir. E o consumidor começará a enxergar de maneira diferente os impostos embutidos naquilo que compra. Nada disso nasceu na eleição de ontem. Mas boa parte de sua implementação acontecerá sob o Congresso que o eleitor acabou de escolher. É aí que política deixa de ser Brasília. E começa a chegar à garagem, à empresa, ao salário e ao cartão de crédito. Porque a verdadeira consequência de uma eleição raramente aparece na noite da apuração. Ela aparece meses depois, quando uma regra muda e alguém precisa pagar, contratar, investir, trabalhar ou desistir de fazer alguma dessas coisas.
O QUE PODE MUDAR NO SEU BOLSO?
A política costuma parecer distante até aparecer na fatura. Um imposto muda. Uma empresa adia um investimento. Um pequeno negócio decide se contrata mais alguém. Uma fábrica escolhe em qual estado produzir. Um produto chega à loja mais caro — ou mais barato. É nesse ponto que a composição escolhida ontem começa a importar para quem jamais assistiu a uma sessão do Congresso. O Brasil entrará em 2027 no momento mais delicado da implementação da reforma tributária do consumo. E antes de continuar, vale traduzir algumas siglas que começarão a aparecer cada vez mais no cotidiano brasileiro.
CBS, IBS, IMPOSTO SELETIVO: A SOPA DE LETRAS QUE VAI CHEGAR AO SEU BOLSO
A CBS é a Contribuição sobre Bens e Serviços. Ela é um tributo federal e substituirá, em linhas gerais, PIS e Cofins. Pense nela como a parte da nova tributação sobre o consumo que ficará com a União. O IBS é o Imposto sobre Bens e Serviços. Ele substituirá gradualmente dois velhos conhecidos das empresas — e desconhecidos de muitos consumidores, embora estejam escondidos em praticamente tudo o que compramos: o ICMS, cobrado pelos estados, e o ISS, dos municípios. Em linguagem simples: CBS é a parte federal. IBS é a parte de estados e municípios. Os dois formam o chamado IVA dual brasileiro, inspirado no modelo de imposto sobre valor agregado utilizado em diversos países. Há ainda um terceiro personagem. O Imposto Seletivo. Esse é diferente. Ele foi criado para aumentar a tributação de determinados produtos e serviços considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. É aquilo que ficou popularmente conhecido como “imposto do pecado”. Bebidas alcoólicas estão entre os produtos alcançados. Ou seja: sim, essa discussão pode chegar até o preço de uma garrafa de whisky. E agora essas siglas começam a deixar o texto da reforma para entrar na vida real. Em 2027, PIS e Cofins serão extintos e a CBS passará à cobrança efetiva. O Imposto Seletivo também começa a valer. O IBS seguirá seu cronograma de implantação antes de assumir progressivamente o espaço de ICMS e ISS na transição que avança a partir de 2029. O objetivo declarado da reforma é simplificar um dos sistemas tributários mais complexos do mundo e reduzir distorções acumuladas durante décadas. Mas uma reforma dessa dimensão não acontece apertando um interruptor. Existem regulamentações. Exceções. Alíquotas diferenciadas. Créditos tributários. Regimes específicos. Disputas entre setores. Interesses de estados e municípios. E milhões de empresas tentando descobrir como tudo isso funcionará em suas operações. É justamente aí que entra o Congresso escolhido ontem. Os próximos quatro anos coincidem com uma parte decisiva dessa transição. Deputados e senadores poderão discutir regulamentações, corrigir distorções, alterar leis complementares e enfrentar pressões de setores que tentarão proteger tratamentos tributários específicos. Parece assunto para contador. Até deixar de ser. Porque imposto pago por uma empresa pode influenciar preço. Crédito tributário pode influenciar margem. Margem pode influenciar investimento. Investimento pode influenciar emprego. E emprego influencia consumo. É assim que uma sigla escrita em Brasília percorre centenas de quilômetros até aparecer, silenciosamente, no preço de alguma coisa que você compra. Inclusive naquele whisky que está na sua estante.
PARA QUEM TEM UMA EMPRESA, 2027 JÁ COMEÇOU
Talvez poucos grupos sintam essa transição tão diretamente quanto pequenos empresários. O Simples Nacional está sendo adaptado ao novo sistema. Empresas poderão permanecer no Simples e, em determinadas situações, optar por recolher CBS e IBS pelo regime regular. É uma decisão que pode interferir em créditos tributários, fluxo de caixa e até na relação comercial entre empresas. E há outra discussão esperando pelo novo Congresso. O atual limite anual de faturamento do MEI é de R$ 81 mil. Existe proposta enviada pelo governo para elevá-lo progressivamente para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, além de permitir a contratação de até dois empregados. Não é uma mudança pequena para quem vive na fronteira entre trabalhar sozinho e construir uma empresa. Mas ela ainda depende do processo legislativo. É aqui que a matemática eleitoral começa a importar. O maior partido da próxima Câmara terá 121 deputados. Parece muito. É muito. Mas ainda representa menos de um quarto das 513 cadeiras. Mesmo no Senado, onde a concentração será mais pronunciada, a maior bancada projetada terá 28 dos 81 integrantes. Nenhuma dessas forças consegue, sozinha, alterar a Constituição, aprovar toda a sua agenda ou impor ao país um programa econômico completo. A eleição produziu poder. Não produziu poder absoluto.
O QUE PODE MUDAR NO SEU CARRO?
Durante décadas, estados brasileiros disputaram fábricas quase como clubes disputam jogadores. Ofereciam terrenos. Infraestrutura. Financiamentos. E, principalmente, incentivos fiscais. Foi assim que decisões sobre onde construir uma fábrica de automóveis acabaram transformando cidades, criando polos industriais e deslocando milhares de empregos. A reforma tributária começa a alterar essa lógica. Com a substituição gradual do ICMS pelo IBS, a partir de 2029, perde força uma das principais ferramentas utilizadas pelos estados na chamada guerra fiscal. Isso não significa que São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia, Pernambuco ou qualquer outro estado deixará de disputar investimentos. Significa que a disputa tende a mudar de armas. Se o benefício tributário perde importância, outros fatores ganham peso: infraestrutura. Portos. Rodovias. Energia. Mão de obra qualificada. Proximidade dos fornecedores. Mercado consumidor. Segurança jurídica. E produtividade. Talvez pareça uma discussão sobre montadoras. É também uma discussão sobre emprego. Uma fábrica de automóveis não chega sozinha. Ao redor dela aparecem fornecedores, transportadoras, empresas de tecnologia, prestadores de serviços, restaurantes, hotéis, imóveis e famílias. Quando uma fábrica muda de lugar, uma pequena economia muda junto. É por isso que decisões aparentemente técnicas sobre tributação podem acabar interferindo no preço de uma casa, no salário de uma cidade e no trânsito de uma rodovia.
E O PREÇO DO CARRO?
Aqui é preciso resistir à resposta fácil. Não existe base séria para afirmar hoje que “os carros ficarão mais baratos” ou “os carros ficarão mais caros” simplesmente por causa da eleição. A tributação do automóvel dependerá da implementação da reforma, das alíquotas efetivas, do Imposto Seletivo, das características de cada veículo e das políticas industriais que sobreviverem ou forem criadas nos próximos anos. Há ainda outra transformação acontecendo ao mesmo tempo. O Brasil precisa decidir qual espaço dará a veículos elétricos, híbridos, flex, biocombustíveis e novas tecnologias. Isso envolve impostos de importação, exigências ambientais, investimentos industriais, infraestrutura de recarga e proteção — ou abertura — do mercado nacional. Em outras palavras: o carro que você comprará em 2030 começa a ser discutido muito antes de chegar à concessionária. E parte das pessoas que participarão dessa discussão foi escolhida ontem.
E SUA CASA? E SEUS INVESTIMENTOS?
Aqui existe uma distinção fundamental. O Congresso não decide a taxa Selic. Quem define a taxa básica de juros é o Comitê de Política Monetária do Banco Central. Portanto, seria incorreto olhar para a composição da Câmara e afirmar que ela fará os juros subirem ou caírem. Mas isso não significa que Congresso e governo sejam irrelevantes para os juros. Muito pelo contrário. Quando investidores acreditam que a dívida pública pode crescer demais, passam a exigir maior remuneração para emprestar dinheiro ao governo. Quando existe confiança de que receitas e despesas permanecerão em trajetória sustentável, a percepção de risco pode melhorar. Entre esses dois extremos existe uma palavra que parece abstrata, mas interfere profundamente na vida real: credibilidade. É por isso que a política fiscal importa. Quanto o governo arrecada. Quanto gasta. Quanto precisa tomar emprestado. Como administra sua dívida. E se as regras criadas para controlar essas contas são consideradas confiáveis. O Congresso participa diretamente dessas decisões ao votar orçamento, receitas, despesas, benefícios tributários e mudanças legais capazes de aumentar ou reduzir gastos públicos. Depois começa uma cadeia. A percepção sobre as contas públicas influencia juros de longo prazo. Juros influenciam financiamento. Financiamento influencia imóveis, automóveis e empresas. Empresas influenciam emprego. Emprego influencia consumo. E consumo volta para a economia. Brasília parece distante. O boleto do financiamento não.
O MERCADO NÃO VOTOU. MAS ESTÁ LENDO O RESULTADO.
Nas próximas semanas, bancos, gestores de fundos, empresários e investidores tentarão responder à mesma pergunta: o Congresso eleito facilitará ou dificultará a construção de acordos econômicos? Não existe uma resposta pronta. Um Congresso mais à direita pode aumentar a expectativa por determinadas agendas pró-mercado, como controle de gastos, redução de burocracia ou menor intervenção estatal. Mas partido não é garantia de política econômica. A história brasileira está cheia de governos e parlamentares que defenderam austeridade em um assunto e aumento de gastos em outro. É por isso que o mercado observará menos os rótulos e mais os votos. Quem comandará Câmara e Senado. Quem presidirá as principais comissões. Quais partidos formarão blocos. Qual será a relação do próximo presidente com essas bancadas. E quanto custará politicamente construir cada maioria. A eleição decidiu os jogadores. O preço dos ativos dependerá também do jogo que eles escolherem jogar.
TALVEZ A GRANDE MUDANÇA ESTEJA EM QUEM CONSEGUE DIZER “NÃO”
Há, porém, uma diferença entre Câmara e Senado que raramente aparece na conversa cotidiana. O Senado não serve apenas para votar leis. Ele aprova autoridades fundamentais da República. Ministros do Supremo Tribunal Federal. Diretores do Banco Central. Procurador-geral da República. Embaixadores. Presidentes e diretores de algumas agências e instituições públicas. Isso torna a mudança ocorrida ontem especialmente relevante. Com 54 das 81 cadeiras em disputa, o eleitor não renovou apenas dois terços do Senado. Alterou também o grupo de pessoas que poderá aceitar — ou rejeitar — algumas das indicações mais importantes feitas pelo próximo presidente. É um poder silencioso. Não aparece no preço do pão amanhã. Mas pode influenciar instituições durante muitos anos. Um ministro do Supremo pode permanecer no cargo até os 75 anos. Um senador eleito ontem terá mandato de oito. É por isso que algumas consequências de uma eleição duram muito mais do que o mandato presidencial que aparece no centro da campanha. O voto levou poucos segundos. Algumas de suas consequências atravessarão a próxima década.
E PARA QUEM ACORDA ÀS 5 DA MANHÃ?
Existe uma maneira confortável de discutir trabalho no Brasil. É fazê-lo sentado. Falar de produtividade, competitividade e custo da mão de obra parece relativamente simples quando essas palavras cabem numa apresentação de PowerPoint. Elas ficam mais complicadas às 5h12 da manhã. É quando alguém fecha a porta de casa, caminha até o ponto, pega a primeira condução e começa uma jornada que talvez só termine quinze horas depois. Nem todas trabalhando. Mas quase nenhuma vivendo. É nesse Brasil que uma das discussões que chegarão ao novo Congresso ganha dimensão muito diferente: a redução da jornada e o futuro da escala 6×1. Para alguns, trata-se de uma questão de produtividade e organização empresarial. Para outros, é uma questão de tempo. E tempo talvez seja o patrimônio mais democraticamente distribuído e mais desigualmente usufruído que existe. Todos recebem 24 horas. Nem todos podem decidir o que fazer com elas.
UM DIA DE FOLGA NÃO É APENAS UM DIA SEM TRABALHAR
Imagine alguém que trabalha seis dias por semana. Acrescente duas horas para chegar ao emprego. Duas para voltar. Agora coloque nessa conta filhos, mercado, médico, roupa para lavar, casa para organizar, estudo, casamento, amigos e sono. O único dia livre começa a parecer menos descanso e mais manutenção. É por isso que a discussão sobre a escala 6×1 cresceu muito além de sindicatos e departamentos de recursos humanos. Para milhões de pessoas, ela passou a representar uma pergunta bastante simples: quanto da vida deve pertencer ao trabalho? Mas existe outra pessoa nessa equação. E ignorá-la produziria uma resposta fácil para um problema difícil.
DO OUTRO LADO DO BALCÃO
Pense no dono de uma pequena padaria. Ou restaurante. Farmácia. Mercado. Oficina. Loja. Ele não administra uma multinacional com milhares de funcionários distribuídos em turnos. Talvez tenha oito. Se uma nova regra reduzir a jornada sem permitir reorganização eficiente, alguém terá de cobrir as horas que desapareceram da escala. Contratar mais pessoas custa dinheiro. Fazer horas extras custa dinheiro. Fechar um dia pode significar faturar menos. Repassar tudo ao preço pode significar perder clientes. Nada disso transforma o trabalhador que deseja descansar mais em privilegiado. Nem transforma automaticamente o empresário preocupado com seus custos em explorador. Significa apenas que políticas públicas sérias precisam sobreviver ao encontro com a realidade. Uma mudança trabalhista pode melhorar profundamente a qualidade de vida. Mas, mal desenhada, também pode estimular informalidade, automação, redução de vagas ou aumento de preços. É justamente para encontrar esse equilíbrio que existe o Congresso.
O NOVO CONGRESSO MUDA ESSA CONVERSA
A composição escolhida ontem indica um Parlamento mais conservador, especialmente no Senado. Em princípio, isso tende a aumentar a resistência a propostas que sejam percebidas como aumento obrigatório de custos trabalhistas ou maior intervenção nas relações entre empresas e empregados. Mas “tende” é uma palavra importante. Não significa “vai”. A escala 6×1 não pertence exclusivamente à esquerda ou à direita quando chega à vida cotidiana. Pesquisas de opinião, pressão social, setores empresariais, sindicatos, produtividade, desemprego e o posicionamento do próximo governo poderão alterar a negociação. E qualquer mudança constitucional relevante precisará reunir uma maioria que nenhum partido possui sozinho. É por isso que talvez a pergunta mais interessante não seja se o novo Congresso acabará ou preservará a escala 6×1. A pergunta é: qual proposta consegue dar mais tempo ao trabalhador sem transformar esse tempo em desemprego? Essa discussão provavelmente será muito mais difícil do que os slogans da campanha fizeram parecer.
E QUEM TRABALHA SEM PATRÃO?
Há outro Brasil que cresceu rapidamente nos últimos anos. Ele carrega comida numa mochila. Dirige um carro conectado a um aplicativo. Vende pela internet. Presta serviços. Emite nota como MEI. Faz entregas. Trabalha por projeto. Às vezes escolheu essa autonomia. Às vezes foi escolhido por ela. O avanço do trabalho por plataformas criou uma das grandes questões trabalhistas do nosso tempo: como oferecer proteção sem destruir justamente a flexibilidade que atrai parte dos trabalhadores para esse modelo? Férias? Previdência? Seguro? Remuneração mínima? Transparência dos algoritmos? Jornada? Quem paga? Quem fiscaliza? E, talvez a pergunta mais difícil: em que momento autonomia começa a parecer emprego — e em que momento proteção começa a parecer controle? O Congresso eleito ontem encontrará essa discussão ainda aberta.
O EMPREENDEDOR QUE NÃO APARECE NA FOTO
Há ainda um personagem que costuma desaparecer quando falamos de “empresários”. Não está numa cobertura da Faria Lima. Não chega de helicóptero. Não possui departamento tributário. Talvez trabalhe sozinho numa sala de vinte metros quadrados. É cabeleireiro. Designer. Eletricista. Consultor. Mecânico. Fotógrafo. Vendedor. Programador. Dono de uma pequena loja. Para essa pessoa, palavras como MEI, Simples, crédito, juros e burocracia não são conceitos econômicos. São segunda-feira. A discussão sobre elevar o teto do MEI é um exemplo. Um limite maior pode permitir que alguém aumente o faturamento sem ser empurrado imediatamente para uma estrutura tributária mais complexa. Mas há uma questão maior por trás dos números. O Brasil precisa decidir se quer que o pequeno empreendedor permaneça pequeno porque é mais simples — ou se quer tornar menos traumático o momento em que ele começa a crescer. Porque existe uma diferença enorme entre abrir uma empresa e construir uma empresa. A primeira pode levar minutos. A segunda leva anos.
A ELEIÇÃO TERMINOU. A NEGOCIAÇÃO COMEÇOU.
Talvez seja essa a melhor maneira de interpretar o resultado de ontem. O eleitor não escreveu as leis dos próximos quatro anos. Escolheu quem vai escrevê-las. Não decidiu a alíquota de um imposto. Escolheu quem poderá votar nela. Não determinou quantas horas alguém trabalhará. Escolheu quem participará dessa discussão. Não definiu o tamanho do Estado, o custo de uma empresa ou a política industrial brasileira. Escolheu as pessoas que terão poder para empurrar essas decisões numa direção ou noutra. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas. E ela explica por que nenhuma análise séria pode olhar para o número de deputados de um partido e anunciar exatamente como será o Brasil de 2030. Democracias são menos previsíveis do que isso. Felizmente. A urna distribui poder. Depois começa a política. E política, no fim das contas, é o lugar onde 594 pessoas eleitas tentam transformar milhões de expectativas diferentes em uma regra que valerá para todos. Ontem o Brasil escolheu essas pessoas. Hoje começa a descobrir o que elas farão com a escolha.
O QUE AS URNAS REALMENTE DISSERAM?
Há uma tentação depois de toda eleição. Transformar votos em profecias. A direita cresceu, então determinada pauta será aprovada. A esquerda perdeu cadeiras, então outra desaparecerá. O partido A ganhou tantos deputados, portanto o país seguirá determinada direção. Democracias não são equações tão obedientes. Os números de ontem permitem identificar tendências. Não permitem escrever antecipadamente as leis de amanhã. A Câmara que assume em 2027 terá o PL como maior bancada, com 121 deputados. No Senado, o partido também formará o maior grupo, com 28 das 81 cadeiras no início da legislatura. É uma mudança importante na distribuição de poder. Especialmente porque o Senado não apenas produz leis: também participa de decisões institucionais capazes de atravessar governos. Mas há outro número igualmente importante. 308. É a quantidade de votos necessária para aprovar uma emenda à Constituição na Câmara. A maior bancada terá 121. No Senado, uma PEC precisa de 49 votos. A maior bancada terá 28. A distância entre esses números talvez seja a informação mais importante desta reportagem. Porque ela significa uma coisa: ninguém recebeu poder suficiente para mudar o Brasil sozinho.
O MAPA MUDOU. O PAÍS AINDA PRECISA NEGOCIAR.
A nova composição parlamentar sugere um Congresso mais conservador em diversas pautas. Isso poderá favorecer determinadas propostas de segurança pública, endurecimento penal e agendas de costumes. Também poderá aumentar a resistência a algumas mudanças trabalhistas e a projetos percebidos como expansão excessiva do Estado. Mas economia raramente obedece perfeitamente às fronteiras ideológicas. Um parlamentar favorável à redução de impostos pode defender um incentivo fiscal para uma indústria instalada em seu estado. Outro que defende responsabilidade fiscal pode apoiar um programa de gastos importante para sua base eleitoral. Um partido pode votar com o governo numa reforma econômica pela manhã e contra ele numa pauta de costumes à tarde. Não necessariamente porque alguém mudou de convicção. Porque o Brasil é uma federação de interesses diferentes. Há estados agrícolas. Estados industriais. Regiões dependentes de transferências federais. Cidades turísticas. Polos tecnológicos. Produtores de petróleo. Montadoras. Agronegócio. Serviços. E cada um desses Brasis também chegou ao Congresso ontem. É por isso que contar cadeiras é apenas o começo da análise. A política realmente começa quando descobrimos como elas se sentarão juntas.
A GRANDE INCÓGNITA AINDA ESTÁ NA URNA
Existe ainda uma peça enorme faltando. O presidente da República não foi escolhido ontem. O segundo turno definirá quem ocupará o Palácio do Planalto e, consequentemente, qual programa econômico tentará construir maioria dentro desse Congresso. Isso muda tudo. O mesmo Parlamento pode estabelecer relações completamente diferentes com presidentes diferentes. Um governo politicamente próximo da maioria pode encontrar maior facilidade em algumas pautas. Outro pode precisar construir coalizões mais amplas, fazer concessões ou abandonar projetos para conseguir votos. E existe uma consequência interessante nisso. A eleição presidencial costuma ocupar quase toda a atenção. Mas o próximo presidente, seja quem for, já conhece uma parte importante do seu futuro. Sabe com quem terá de negociar.
ENTÃO, O QUE PODEMOS DIZER HOJE?
Podemos dizer que o Congresso ganhou peso. Podemos dizer que forças conservadoras cresceram, sobretudo no Senado. Podemos dizer que nenhuma delas possui, sozinha, maioria suficiente para alterar a Constituição. Podemos dizer que temas como segurança pública, relações de trabalho, reforma tributária, responsabilidade fiscal, empreendedorismo e regulação econômica entrarão em 2027 diante de uma correlação de forças diferente. Podemos dizer que o próximo presidente precisará negociar. O que não podemos dizer é qual será o preço do dólar em 2027. Não podemos decretar quanto valerá a Selic. Não sabemos quanto custará um carro. Não sabemos se a escala 6×1 terminará. Não sabemos se o teto do MEI será elevado. Não sabemos se determinada reforma será aprovada. Quem disser saber está transformando análise em torcida. E talvez a eleição de ontem mereça algo melhor.
O VOTO LEVA SEGUNDOS. AS CONSEQUÊNCIAS LEVAM ANOS.
Existe uma cena que se repete a cada eleição. O eleitor entra. Digita alguns números. Confirma. O aparelho emite um som. Fim. Parece pouco para decidir tanta coisa. Mas naquele gesto cabem quatro anos de Câmara. Oito anos de Senado. Orçamentos que ainda não existem. Impostos que ainda serão regulamentados. Empresas que ainda serão abertas. Fábricas que ainda decidirão onde investir. Trabalhadores que ainda discutirão quanto de sua semana deve pertencer ao emprego. E autoridades que talvez permaneçam em seus cargos muito depois de o próximo presidente deixar Brasília. É por isso que talvez a pergunta feita ontem — “em quem você votou?” — envelheça rapidamente. A pergunta que permanecerá é outra: o que aqueles votos fizeram com o Brasil? Ainda não sabemos. E essa talvez seja a conclusão mais responsável possível na manhã seguinte a uma eleição. Ontem o país escolheu seus representantes. Agora começa a parte que dura muito mais do que a campanha: descobrir o que eles farão com o poder que receberam.
OAK — O BRASIL EM 30 SEGUNDOS
Câmara dos Deputados: 513 cadeiras. Mandato dos deputados: 4 anos. Senado Federal: 81 cadeiras. Senadores escolhidos em 2026: 54 — dois terços do Senado. Mandato dos senadores: 8 anos. Maior bancada eleita para a Câmara: PL — 121 deputados. Maior bancada projetada no Senado no início da próxima legislatura: PL — 28 senadores. Para aprovar uma PEC na Câmara: 308 votos, em dois turnos. Para aprovar uma PEC no Senado: 49 votos, em dois turnos. O que já sabemos: a distribuição de forças no Congresso mudou e nenhuma legenda possui votos suficientes para alterar a Constituição sozinha. O que ainda falta: o resultado do segundo turno presidencial e, depois dele, a formação das coalizões que sustentarão ou bloquearão as principais propostas. O que observar em 2027: reforma tributária, contas públicas, relações de trabalho, segurança, MEI e pequenas empresas, política industrial e regulamentação da economia. O que a eleição não determina diretamente: Selic, dólar, Bolsa, preço dos imóveis ou dos automóveis. Esses mercados respondem a uma combinação muito maior de política econômica, expectativas, inflação, atividade e cenário internacional. A pergunta OAK: menos importante do que saber quem venceu cada disputa será observar quem conseguirá reunir votos quando as decisões começarem?




