QUANDO O MECÂNICO DEIXA DE SER NECESSÁRIO

A história da relojoaria ajuda a entender o raciocínio. Nos anos 1970, a disseminação dos relógios de quartzo colocou a indústria suíça diante de uma crise profunda. Os novos modelos eram mais baratos, precisos e simples de produzir. Se a função de um relógio fosse apenas informar as horas, a discussão parecia encerrada. Mas não foi isso que aconteceu. A relojoaria mecânica encontrou outro lugar no mercado. Em vez de tentar vencer o quartzo em precisão, passou a valorizar aquilo que a tecnologia eletrônica não conseguia reproduzir da mesma maneira: tradição, acabamento manual, complexidade, história e a experiência de observar uma máquina funcionando. O que parecia obsoleto tornou-se luxo. Esse paralelo ajuda a compreender por que a Bugatti tomou algumas decisões aparentemente pouco racionais no desenvolvimento do Tourbillon. A marca poderia ter criado um hipercarro integralmente elétrico ou adotado um conjunto híbrido baseado em um motor menor e mais eficiente. Preferiu desenvolver um V16 aspirado de 8,3 litros, capaz de girar a cerca de 9.000 rpm, associado a três motores elétricos. Segundo a Bugatti, são 1.000 cv provenientes do V16 e outros 800 cv do sistema elétrico, formando um conjunto de 1.800 cv. O detalhe mais revelador, porém, talvez esteja alguns centímetros à frente do motorista.

UM PAINEL FEITO COMO UM RELÓGIO

Em vez de transformar o interior em uma coleção de grandes telas, a Bugatti procurou uma fabricante suíça de movimentos de relógios para desenvolver o conjunto de instrumentos do Tourbillon. O resultado é formado por mais de 600 componentes, com peças em titânio e materiais como safira e rubi. O painel permanece fisicamente preso à coluna de direção, enquanto o volante gira ao seu redor. Não é necessário fazer isso. É justamente esse o ponto.

A informação poderia ser apresentada com muito menos complexidade em uma tela digital. A Bugatti escolheu o caminho mais difícil porque, em um automóvel desse nível, eficiência já não é a única medida de valor. O motorista não olha apenas para um velocímetro. Olha para um objeto construído para lembrar um movimento de alta relojoaria. E essa escolha ajuda a revelar algo maior sobre o luxo contemporâneo: quanto mais a tecnologia torna tudo rápido, silencioso e invisível, maior parece ser o fascínio por aquilo que ainda permite enxergar como funciona. Um movimento automático através de um fundo de safira. Um mecanismo de corda manual. Um motor aspirado subindo de giro. São experiências diferentes, mas compartilham uma mesma sedução. A máquina deixa de esconder seu funcionamento e transforma a própria complexidade em espetáculo.

A informação poderia ser apresentada com muito menos complexidade em uma tela digital. A Bugatti escolheu o caminho mais difícil porque, em um automóvel desse nível, eficiência já não é a única medida de valor. O motorista não olha apenas para um velocímetro. Olha para um objeto construído para lembrar um movimento de alta relojoaria. E essa escolha ajuda a revelar algo maior sobre o luxo contemporâneo: quanto mais a tecnologia torna tudo rápido, silencioso e invisível, maior parece ser o fascínio por aquilo que ainda permite enxergar como funciona. Um movimento automático através de um fundo de safira. Um mecanismo de corda manual. Um motor aspirado subindo de giro. São experiências diferentes, mas compartilham uma mesma sedução. A máquina deixa de esconder seu funcionamento e transforma a própria complexidade em espetáculo.

A IMPERFEIÇÃO VIROU LUXO

Existe uma ironia no mercado de luxo: muitas vezes, quanto mais eficiente a tecnologia se torna, mais desejamos aquilo que ela tornou desnecessário. Um relógio automático atrasa. Precisa de manutenção. Possui centenas de componentes trabalhando para executar uma tarefa que um chip realiza com mais precisão. Ainda assim, ninguém entra em uma boutique de alta relojoaria procurando apenas a maneira mais eficiente de descobrir as horas. Compra-se o mecanismo. A história. O ritual. Com os automóveis, algo parecido começa a acontecer. Um motor elétrico entrega torque instantaneamente, trabalha em silêncio e possui uma arquitetura mecânica muito mais simples. Um grande motor a combustão faz exatamente o contrário: aquece, vibra, produz ruído, exige transmissão, admissão, escape, lubrificação e centenas de componentes trabalhando em conjunto. Durante décadas, engenheiros tentaram reduzir muitas dessas características. Agora, algumas delas estão se transformando em atributos emocionais. No Tourbillon, o V16 aspirado não existe apenas para produzir potência. Ele existe para ser sentido. O crescimento das rotações, a resposta do acelerador e a transformação do som à medida que o motor se aproxima das 9.000 rpm fazem parte do produto tanto quanto sua velocidade máxima. A eletrificação não foi usada para esconder essa mecânica. Foi colocada ao lado dela. Esse talvez seja o aspecto mais interessante do carro: a Bugatti não está tentando recriar o passado. Está tentando descobrir como preservar aquilo que havia de emocional nele dentro de uma máquina do futuro.

“O luxo começa justamente onde a eficiência deixa de ser a única resposta.”

DE TRANSPORTE A OBJETO DE COLEÇÃO

Se Rimac estiver certo, os próximos anos podem produzir uma inversão curiosa. Quanto mais comuns se tornarem os automóveis elétricos, mais extraordinário poderá parecer ligar um motor com oito, dez, doze ou dezesseis cilindros. Não porque seja melhor para cumprir a função básica de um automóvel. Mas porque será diferente. É o mesmo fenômeno que permite a existência de câmeras analógicas, discos de vinil, canetas-tinteiro e relógios mecânicos em um mundo que já encontrou soluções tecnologicamente superiores para todas essas funções. Quando a necessidade desaparece, sobra a experiência. E experiência é um território que o luxo conhece muito bem. Para o colecionador, isso pode mudar inclusive a maneira de olhar para os últimos grandes motores da história. Um V12 Ferrari, um W16 Bugatti ou o novo V16 do Tourbillon talvez sejam vistos no futuro não apenas pela potência que produziram, mas como representantes de uma determinada escola de engenharia. Como movimentos de relógios. Há os simples. Há os extraordinários. E existem aqueles construídos em uma época em que fazê-los já parecia quase irracional. São justamente esses que costumam contar as melhores histórias.

Legenda: O V16 aspirado de 8,3 litros do Bugatti Tourbillon entrega 1.000 cv e gira a até 9.000 rpm. Em plena era da eletrificação, sua existência transforma engenharia mecânica em parte da experiência. Crédito: Bugatti

O QUE A BUGATTI ESTÁ TENTANDO PRESERVAR

Há uma diferença importante entre nostalgia e continuidade. Nostalgia tenta reproduzir aquilo que existia. Continuidade escolhe o que merece sobreviver e encontra uma maneira de levá-lo adiante. O Tourbillon pertence à segunda categoria. A Bugatti poderia ter transformado seu próximo hipercarro em uma demonstração absoluta de eletrificação. Mate Rimac conhece esse território como poucos: antes de assumir o comando da Bugatti Rimac, construiu sua reputação justamente desenvolvendo alguns dos carros elétricos de maior desempenho do mundo. Por isso, a presença do V16 é ainda mais significativa. Não se trata da resistência de alguém contrário ao carro elétrico. Trata-se da decisão de um dos principais nomes da eletrificação de preservar uma experiência que considera valiosa. E o projeto não faz isso escondendo o futuro. O Tourbillon combina seu V16 aspirado a três motores elétricos e uma bateria de 25 kWh. A Bugatti declara cerca de 60 quilômetros de autonomia elétrica e desempenho capaz de levar o carro de 0 a 100 km/h em aproximadamente dois segundos. É passado e futuro dividindo a mesma garagem — e, neste caso, o mesmo chassi.

O LUXO NÃO PRECISA ESCOLHER UM LADO

Talvez esse seja o ponto que torna o Tourbillon mais interessante do que seus números. Durante anos, a discussão sobre automóveis foi apresentada quase como uma escolha binária: combustão ou eletricidade. Analógico ou digital. Tradição ou tecnologia. O luxo raramente funciona dessa maneira. Uma maison de alta relojoaria pode utilizar máquinas de precisão microscópica para fabricar componentes que depois serão acabados à mão. Um hotel centenário pode oferecer tecnologia invisível sem transformar sua arquitetura em um showroom eletrônico. Uma destilaria pode controlar temperaturas por computador e continuar dependendo de barris, madeira e décadas de espera. Modernidade e tradição não precisam ser adversárias. Quando bem combinadas, uma torna a outra mais interessante. É exatamente o que o Tourbillon tenta fazer: utilizar eletricidade onde ela melhora a máquina sem eliminar aquilo que torna a máquina emocional. E isso nos leva a uma pergunta maior. Se o automóvel deixar de precisar do motor a combustão, quanto valerá a experiência de ainda poder ter um?

QUANDO O AUTOMÓVEL VIRA COLEÇÃO

Existe outra consequência possível nessa transformação: a escassez. Durante boa parte da história do automóvel, motores grandes eram desejados porque representavam desempenho. Um V8 entregava algo que um quatro-cilindros não conseguia. Um V12 oferecia suavidade, potência e prestígio que justificavam sua complexidade. A tecnologia mudou essa equação. Hoje, motores elétricos relativamente compactos conseguem produzir números que há poucos anos pertenciam exclusivamente aos supercarros. Potência deixou de ser argumento suficiente para explicar dezesseis cilindros. O V16 do Tourbillon precisa, portanto, justificar sua existência de outra maneira. E é justamente aí que nasce o paralelo com o colecionismo. A Bugatti limitará a produção do Tourbillon a 250 unidades. Não estamos falando de um automóvel destinado a acompanhar a transição energética das grandes cidades. Estamos falando de uma máquina produzida deliberadamente em pequena escala, com enorme complexidade mecânica e destinada a um grupo extremamente restrito de proprietários. Seu preço parte de 3,8 milhões de euros antes de impostos e personalizações. Mas talvez o número mais importante não esteja na etiqueta. Está no tempo.

OS ÚLTIMOS DE UMA ESPÉCIE

Colecionadores costumam se interessar por primeiras versões. Mas existe outra categoria particularmente fascinante: as últimas. O último modelo com determinado motor. A última geração antes de uma mudança tecnológica. A última Ferrari com uma determinada configuração. O último Porsche de uma era. O último relógio produzido antes de uma manufatura abandonar certo calibre. São objetos que acabam funcionando como pontos finais de capítulos históricos. Ainda é cedo para dizer qual lugar o Tourbillon ocupará nesse universo — e seria precipitado tratá-lo desde já como investimento garantido. Mas existe uma característica difícil de ignorar: enquanto boa parte da indústria trabalha para reduzir a presença do motor a combustão, a Bugatti criou do zero um dos motores mais extravagantes de sua história. Não para milhões de pessoas. Para 250 carros.

“Talvez os grandes motores do futuro sejam menos parecidos com eletrodomésticos e mais parecidos com calibres: mecanismos escolhidos pelo prazer de existirem.”

É uma mudança profunda na maneira de enxergar o automóvel. Quando um objeto deixa de ser comprado principalmente pela função, outras características passam a determinar seu valor: procedência, raridade, história, engenharia, desenho, experiência e significado cultural. Exatamente os critérios que sustentam boa parte do mercado de colecionáveis. E talvez seja esse o destino mais curioso reservado aos grandes motores. Depois de um século tentando tornar o automóvel cada vez mais eficiente, podemos estar entrando em uma época na qual algumas das máquinas mais desejadas serão justamente aquelas que não precisam mais justificar racionalmente sua existência.

A instrumentação analógica do Bugatti Tourbillon é montada à mão pela manufatura suíça Concepto. São mais de 650 componentes produzidos com técnicas tradicionais de alta relojoaria — uma complexidade normalmente reservada ao pulso, agora colocada diante do motorista. Crédito: Bugatti

O QUE SOBRA QUANDO A VELOCIDADE DEIXA DE IMPRESSIONAR?

Durante décadas, a hierarquia dos supercarros parecia relativamente simples: mais cilindros, mais potência, maior velocidade. Essa lógica está sendo desmontada pela própria tecnologia. Hoje, um automóvel elétrico pode entregar acelerações que até pouco tempo pertenciam ao território dos hipercarros. O próprio Mate Rimac ajudou a provar isso com o Nevera. E é justamente ele quem agora argumenta que, no topo do mercado, desempenho puro já não basta para produzir desejo. Na visão de Rimac, enquanto os automóveis cotidianos tendem cada vez mais à eletrificação, esportivos e hipercarros podem conservar motores a combustão por muito tempo — da mesma maneira que relógios mecânicos continuam desejados em um mundo no qual dispositivos digitais cumprem sua função com muito mais eficiência. Essa ideia ajuda a explicar decisões que, vistas apenas pela engenharia racional, parecem extravagantes. A Bugatti desenvolveu um V16 aspirado inteiramente novo. Criou uma instrumentação mecânica suíça em vez de simplesmente instalar grandes telas. Limitou o Tourbillon a 250 exemplares, com preço inicial anunciado de € 3,8 milhões líquidos. E Mate Rimac reconheceu a própria extravagância do projeto ao apresentar o carro: construir simultaneamente um novo V16, um sistema híbrido e uma instrumentação feita por relojoeiros era justamente parte da ambição de criar algo destinado a permanecer relevante por décadas. Não é minimalismo. É complexidade deliberada. E talvez este seja um dos sinais mais interessantes de para onde caminha o luxo.

A ERA DO “NÃO PRECISO, MAS QUERO”

Um relógio mecânico não venceu o smartwatch. Ele simplesmente parou de disputar a mesma competição. Talvez o automóvel de altíssimo luxo esteja começando a fazer o mesmo. Quando velocidade, conectividade e aceleração se tornam cada vez mais acessíveis, exclusividade precisa ser encontrada em outro lugar. Pode estar no som. No tato. No trabalho manual. Na maneira como uma agulha se movimenta. Na resposta de um motor aspirado. Ou simplesmente na sensação de estar diante de uma máquina cuja complexidade poderia ter sido eliminada — mas foi preservada porque alguém considerou que valia a pena. É por isso que o Tourbillon interessa para além dos seus 1.800 cv. Ele funciona quase como uma declaração sobre o futuro do luxo. A tecnologia continuará avançando. Os automóveis continuarão mudando. E a eletrificação não precisa ser inimiga dessa história — o próprio Tourbillon utiliza três motores elétricos ao lado de seu V16. Mas talvez eficiência e desejo estejam começando a seguir caminhos diferentes.

“Ninguém precisa de um relógio mecânico para saber as horas. Talvez chegue o momento em que ninguém precise de um V16 para se locomover. E pode ser exatamente aí que ele se torne ainda mais desejável.”

O último grande motor a combustão talvez não seja lembrado apenas como uma peça de engenharia. Pode acabar sendo guardado, cuidado e transmitido como fazemos com os grandes relógios. Não porque ainda precisamos dele. Mas porque máquinas assim contam histórias que a eficiência, sozinha, não consegue contar