O tempo ocupa um lugar singular no universo do whisky. Dentro dos barris, transforma o destilado, revela novas características e constrói uma complexidade que não pode ser apressada. Fora deles, acontece algo semelhante com aqueles que dedicam a vida a compreender e compartilhar essa bebida. Há 26 anos, Nicola iniciava uma trajetória que o levaria por bares, restaurantes, hotéis e, mais tarde, ao universo dos grandes whiskies escoceses. Naquela época, provavelmente não imaginava que um dia seria recebido em um castelo nas Highlands, diante de representantes de uma das mais respeitadas instituições da indústria, para assumir o compromisso de preservar e transmitir uma tradição secular. Mas algumas histórias só revelam seu verdadeiro significado quando observadas à distância.
Recentemente, conversei com Nicola sobre sua admissão na Keepers of the Quaich, sociedade escocesa que reconhece profissionais com contribuições relevantes para a valorização do Scotch whisky. Esperava ouvir sobre o castelo, os rituais, as gaitas de fole e as particularidades de uma cerimônia carregada de simbolismo.
Highlanders na entrada do castelo
Ouvi tudo isso. Mas o que mais me impressionou foi perceber que, mesmo depois de mais de duas décadas de carreira, Nicola ainda se emociona com aquilo que faz. E não foi a medalha que mais chamou minha atenção. Foi a maneira como ele descreveu o sentimento de pertencer a uma comunidade cuja história ajudou, durante tantos anos, a apresentar a outras pessoas. Porque existe uma diferença entre ser reconhecido por aquilo que fazemos e ser acolhido por aquilo que representamos. A história de Nicola reúne as duas coisas.
Quando o anfitrião se torna o convidado de honra
Ao terminar nossa conversa, uma lembrança voltou à minha memória. Durante a Copa do Mundo de 2026, participei de um evento beneficente no qual tive o privilégio de degustar, na companhia de Nicola, um extraordinário Johnnie Walker 24 anos. Uma edição limitada a apenas 24 garrafas em todo o mundo, criada especialmente para o Brasil, estabelecendo uma conexão entre os 24 anos de maturação do whisky e os 24 anos transcorridos desde a conquista brasileira da Copa de 2002. Na mesma ocasião, também compartilhamos um Johnnie Walker 18 anos de uma tiragem antiga. Dois grandes whiskies. Duas expressões distintas do tempo. E uma experiência que permaneceu comigo por razões que vão muito além da qualidade do líquido. Nicola estava ali exercendo algo que sempre fez com naturalidade: o papel de anfitrião. Recebia, apresentava, explicava e compartilhava. Não apenas whiskies, mas conhecimento, histórias e aquela atenção aos detalhes que distingue uma degustação tecnicamente impecável de uma experiência verdadeiramente memorável. Curiosamente, aquele Johnnie Walker 24 anos carregava uma coincidência que hoje me parece ainda mais interessante. Quando Nicola iniciou sua trajetória profissional, há 26 anos, o whisky que viríamos a degustar ainda não havia começado seu período de maturação. Dois anos depois, por volta de 2002, começaria o ciclo de envelhecimento que permitiria sua apresentação, 24 anos mais tarde. Enquanto o destilado amadurecia em barris escoceses, Nicola construía sua própria experiência, entre pessoas, encontros e aprendizados.
Um evoluía protegido pela madeira. O outro, em contato com o mundo.
E, naquele evento beneficente, essas duas histórias acabaram se encontrando. Não havia qualquer relação entre aquela degustação e o reconhecimento que Nicola receberia na Escócia. Eram acontecimentos independentes, separados por circunstâncias e propósitos completamente diferentes. Mas, depois de ouvi-lo contar sobre sua admissão na Keepers of the Quaich, percebi um contraste que me parece especialmente bonito. Naquela degustação, Nicola era quem nos recebia. No Blair Castle, foi a vez de ele ser recebido.
O homem que durante tantos anos abriu garrafas, apresentou tradições e proporcionou experiências a outras pessoas encontrava-se agora diante de uma instituição que o acolhia como parte de sua própria história. Desta vez, não precisava conduzir a degustação, explicar a origem de um whisky ou apresentar os símbolos da cultura escocesa. Era ele quem recebia as honras. E o símbolo mais expressivo daquele momento talvez não tenha sido a medalha, mas o direito de vestir as cores do tartan da Keepers of the Quaich. Aquelas cores representavam algo que não se compra, não se improvisa e tampouco se conquista apenas com um cargo: pertencimento.
Pensei, então, em uma das lições mais interessantes que o whisky nos oferece ao longo dos anos. À medida que evoluímos nas degustações, nosso paladar muda. Aprendemos a reconhecer nuances que antes passavam despercebidas. Descobrimos que nem sempre aquilo que mais impressiona no primeiro contato é o que deixa a lembrança mais profunda. O tempo nos ensina a perceber melhor. E, talvez, também nos ensine a esperar. A indicação de Nicola aconteceu em 2025. Sua admissão não veio na primeira oportunidade. Foi preciso aguardar até outubro de 2026. Uma espera relativamente breve diante dos 26 anos de carreira, mas que acrescentou mais um capítulo à sua trajetória. Nem toda espera produz algo extraordinário. No entanto, algumas conquistas parecem encontrar seu significado mais profundo justamente quando chegam depois de um longo caminho.
Hoje, ao recordar aquela degustação, compreendo que o mais valioso não foi apenas ter provado um whisky que pouquíssimas pessoas no mundo conheceriam. Foi ter compartilhado aquela experiência com alguém que sabe que a verdadeira hospitalidade não está na raridade do que se oferece, mas na generosidade com que se recebe. E talvez seja essa a imagem que melhor resume a história. Durante tantos anos, Nicola foi o anfitrião que nos abriu as portas para o universo do whisky escocês. Naquela noite em Blair Castle, foi a própria tradição escocesa que lhe abriu as portas. Não mais como visitante. Mas como um de seus guardiões.
Parabéns, Nicola. Slàinte mhath.




