UM MUSEU VOLTA PARA CASA
Em São Paulo, alguns edifícios são mais fáceis de explicar pelo endereço do que pelo nome. Dizer que algo fica sob a Marquise do Ibirapuera já carrega uma imagem inteira: concreto, curvas, gente atravessando o parque, Bienal, Oca, auditório, bicicletas, exposições e uma das concentrações culturais mais importantes da cidade. É para esse lugar que o Museu de Arte Moderna de São Paulo volta em 12 de setembro de 2026. O MAM passou quase dois anos longe de sua sede enquanto a Marquise do Ibirapuera atravessava um amplo processo de recuperação. Nesse período, o museu manteve atividades e exposições em outros espaços. Agora retorna ao edifício que ocupa desde 1969. Mas a reabertura não será feita apenas destrancando as portas. O museu escolheu para marcar o retorno uma de suas exposições mais importantes: o 39º Panorama da Arte Brasileira, desta vez chamado Depois que tudo foi dito. Com curadoria de Diane Lima, a exposição abre no mesmo dia da reabertura e permanece até 24 de janeiro de 2027. O Panorama não é simplesmente uma coletiva periódica. Criado em 1969, tornou-se um dos projetos mais longevos do MAM e funciona, edição após edição, como uma tentativa de registrar o que está acontecendo na produção artística brasileira naquele momento. Ao longo de sua história, ajudou a colocar artistas, linguagens e discussões contemporâneas diante de um público muito maior. É uma escolha simbólica. O MAM retorna ao Ibirapuera apresentando uma exposição cuja própria função histórica é perguntar para onde a arte brasileira está indo. Depois de quase dois anos fora de casa, talvez fosse difícil encontrar maneira melhor de voltar.
DEPOIS QUE TUDO FOI DITO, O QUE A ARTE AINDA CONSEGUE DIZER?
O título parece uma conclusão. Depois que tudo foi dito. Mas o 39º Panorama parte justamente da ideia contrária: talvez a questão não seja repetir os debates que dominaram a arte brasileira nos últimos anos, mas perguntar o que pode existir depois deles. A curadoria é de Diane Lima, pesquisadora brasileira que participou da curadoria da 35ª Bienal de São Paulo e foi escolhida para comandar o Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza. Para o Panorama, ela reuniu 33 artistas de 13 estados, representando todas as regiões do país. A exposição parte das transformações provocadas nas últimas décadas pelas discussões sobre raça, colonialidade, representação e políticas afirmativas. Mas Diane propõe avançar um passo: observar como essas questões deixaram de aparecer apenas como assunto das obras e passaram a influenciar a própria linguagem, os materiais e as formas de produzir arte no Brasil. É daí que vem o título. Depois que tudo foi dito dialoga com o pensamento da filósofa, artista e escritora Denise Ferreira da Silva, uma das referências internacionais do pensamento feminista negro contemporâneo. A pergunta que atravessa o projeto é, em essência, se conseguimos imaginar alguma coisa além das estruturas que já aprendemos a reconhecer e criticar. Isso muda também a maneira de visitar a exposição. Não é preciso entrar no MAM procurando uma resposta única sobre “o que é a arte brasileira de 2026”. Talvez seja mais interessante procurar justamente as diferenças. Há artistas trabalhando com memória, território, corpo, ancestralidade, tecnologia, materiais e linguagens bastante distintas. Alguns nomes já circulam pelo sistema institucional da arte; outros encontrarão no Panorama uma das maiores vitrines de suas trajetórias. E essa diversidade não é acidental. Desde sua criação, em 1969, o Panorama funciona como uma espécie de fotografia periódica — inevitavelmente incompleta — da produção artística brasileira. As primeiras edições tiveram inclusive papel direto na formação do acervo contemporâneo do próprio MAM. Há uma coincidência bonita nisso. O primeiro Panorama aconteceu justamente no ano em que o MAM se instalou sob a Marquise do Ibirapuera. Cinquenta e sete anos depois, é novamente um Panorama que marca a volta do museu para casa.
NÃO PROCURE UMA ÚNICA RESPOSTA PARA A ARTE BRASILEIRA
Há uma tentação quando uma exposição recebe o nome de Panorama da Arte Brasileira: imaginar que aquelas salas pretendem resumir o país. Não pretendem. Os 33 artistas selecionados vêm de 13 estados e de todas as regiões brasileiras, mas o interesse da curadoria está justamente em colocar lado a lado maneiras muito diferentes de produzir, imaginar e construir uma obra. É nessa diversidade que vale prestar atenção durante a visita. Bárbara Banida, de Fortaleza, trabalha principalmente com cerâmica e pintura. Suas esculturas aparecem como criaturas de um ecossistema ficcional chamado Erotar, no qual matéria, desejo e imaginação se misturam. Em vez de imaginar o futuro apenas como colapso, a artista usa suas formas híbridas para falar também de regeneração e continuidade. Rose Afefé, da Bahia, desloca a discussão para outro território. Desde 2018, desenvolve Terra Afefé, uma microcidade em escala humana construída com terra e tijolos de adobe na zona rural de Ibicoara, na Chapada Diamantina. É uma obra que praticamente dissolve a fronteira entre arquitetura, arte e vida cotidiana. Já Ygor Landarin, nascido em Uruguaiana, aproxima arte e arqueologia. Sua pesquisa parte de memórias e heranças visuais de sua cidade e chega a abstrações relacionadas a sambaquis e concheiros, usando matéria para investigar passagem do tempo, permanência e transformação. Há ainda nomes de maior circulação no circuito contemporâneo, como Jota Mombaça, ao lado de artistas que chegam ao Panorama em momentos bastante diferentes de suas trajetórias. A lista inclui também Allan Weber, Arorá, biarritzzz, Lita Cerqueira, Thaís Muniz, Lia D Castro, Fykyá Pankararu e outros. Isso ajuda a entender a exposição. O Panorama não pede que o visitante encontre uma estética comum entre essas pessoas. Pede quase o contrário. Que observe o que acontece quando artistas de geografias, gerações, materiais e experiências distintas são colocados diante da mesma pergunta sobre o presente — e sobre aquilo que ainda conseguimos imaginar depois dele. É uma exposição que provavelmente vale visitar devagar. Não para conseguir dizer que viu as 33 respostas. Mas para descobrir quais perguntas você leva consigo quando sair.
O MAM VOLTA, MAS NÃO EXATAMENTE COMO SAIU
Quem frequentava o MAM antes de seu fechamento, em agosto de 2024, reconhecerá o museu quando voltar. E isso é deliberado. A requalificação não tentou transformar o edifício em outro museu. As salas expositivas preservaram sua configuração, e as intervenções foram aprovadas pelos órgãos responsáveis pela proteção patrimonial — CONPRESP, CONDEPHAAT e IPHAN. As mudanças aconteceram principalmente onde o visitante talvez perceba menos numa fotografia, mas bastante durante algumas horas dentro do museu. Recepção, auditório, biblioteca e ateliê educativo foram requalificados, assim como áreas de circulação, formação e convivência. O MAM também modernizou o sistema de ar-condicionado e implantou um novo projeto de iluminação adequado aos padrões museológicos atuais. É uma decisão interessante. Num momento em que reaberturas culturais frequentemente chegam acompanhadas de grandes gestos arquitetônicos, o MAM escolheu preservar a identidade de seu espaço e atualizar aquilo que interfere diretamente em como as pessoas usam o museu. Há uma razão adicional para essa cautela. O MAM está instalado sob a Marquise do Parque Ibirapuera, conjunto protegido e inseparável da arquitetura modernista do parque. A própria reforma estrutural da Marquise, conduzida pela Prefeitura de São Paulo, foi o que levou ao fechamento temporário do museu. A Marquise foi reinaugurada em janeiro de 2026; depois disso, o MAM avançou em suas intervenções internas. O investimento público previsto para essas atualizações internas é de R$ 10 milhões, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, complementado por recursos próprios do museu e apoio do ProAC para determinadas áreas. Não houve ampliação da área construída. Não surgiu uma nova ala espetacular. Talvez seja justamente esse o ponto. O MAM não tentou voltar maior. Tentou voltar melhor. E, para uma instituição dedicada à arte moderna, há algo bastante moderno nessa escolha.
NÃO TERMINE A VISITA QUANDO SAIR DO MUSEU
Existe ainda uma parte do MAM que não precisa de paredes. Ao sair das galerias, vale continuar caminhando pelo Jardim de Esculturas, projetado por Roberto Burle Marx para receber obras da coleção do museu. São aproximadamente 6 mil metros quadrados e 30 esculturas expostas ao ar livre, transformando uma parte do Ibirapuera em extensão do próprio espaço expositivo. Isso ajuda a explicar por que a volta do MAM importa além de uma instituição isolada. O museu retorna a um território em que arquitetura, paisagismo, arte e vida pública se sobrepõem. É possível sair de uma exposição contemporânea, atravessar um jardim de esculturas e continuar pelo parque sem que exista uma fronteira muito clara entre uma experiência e outra. E talvez seja essa a melhor maneira de visitar o MAM novamente. Não como quem vai apenas ver uma exposição. Mas como quem recupera uma parte do Ibirapuera que ficou interrompida durante quase dois anos.
O MAM VOLTA PARA CASA
Talvez a melhor notícia sobre a reabertura do MAM seja justamente aquilo que ela devolve à cidade. Não apenas um museu. Mas a possibilidade de atravessar o Ibirapuera e encontrar, em poucos minutos, arquitetura modernista, paisagismo, arte contemporânea e algumas das instituições culturais mais importantes de São Paulo. O MAM permaneceu fechado em sua sede desde agosto de 2024, período em que continuou atuando por meio de exposições e projetos em outras instituições. A reforma da Marquise foi inaugurada em janeiro deste ano; agora chega a vez de o museu completar seu próprio retorno. E há algo particularmente apropriado na escolha do Panorama para esse momento. Em 1969, quando o MAM se instalou sob a Marquise, nascia também o primeiro Panorama da Arte Brasileira. Em 2026, os dois voltam a se encontrar. O edifício é o mesmo. O país certamente não. E talvez seja justamente por isso que valha voltar para ver o que a arte brasileira tem a dizer depois que tudo foi dito.
OAK SERVIÇO
39º Panorama da Arte Brasileira — Depois que tudo foi dito Curadoria: Diane Lima Abertura: 12 de setembro de 2026 Até: 24 de janeiro de 2027 Onde: MAM São Paulo — Parque Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº Acesso: portões 1 e 3 Horário: terça a domingo, das 10h às 18h Última entrada: 17h30 Há ainda um bom motivo para visitar já no primeiro dia: em 12 de setembro, às 11h, o MAM lança a publicação do 39º Panorama — um volume de 664 páginas — acompanhado de uma conversa entre Diane Lima e Denise Ferreira da Silva, cujo pensamento está diretamente relacionado à construção conceitual da mostra.




