Existe uma diferença considerável entre produzir uma obra de arte e fazer com que alguém esteja disposto a pagar centenas de milhares de dólares por ela. A primeira depende do artista. A segunda envolve uma estrutura muito mais complexa, na qual entram galerias, curadores, instituições, colecionadores e, sobretudo, a construção de uma trajetória reconhecível. Na Frieze London 2026, uma das mais importantes feiras internacionais de arte contemporânea, essa engrenagem ganhou um capítulo brasileiro. A pintora Marina Perez Simão, representada pela poderosa Pace Gallery, apresentou um conjunto de novas obras que despertou o interesse de compradores internacionais. Segundo informações comerciais divulgadas na cobertura da abertura, pinturas da artista alcançaram preços anunciados de até US$ 250 mil, com a maior parte da apresentação negociada nas primeiras horas. Mas reduzir essa história ao dinheiro seria desperdiçar justamente o que ela tem de mais interessante. Por trás das cifras está uma artista que construiu sua identidade explorando paisagens que não existem exatamente na natureza, mas que parecem estranhamente familiares a quem as observa.
A brasileira que pinta lugares que não existem
Nascida em Vitória, no Espírito Santo, em 1980, Marina Perez Simão desenvolveu uma obra situada na fronteira entre a abstração e a representação. Suas pinturas sugerem montanhas, oceanos, horizontes, formações rochosas e fenômenos atmosféricos, mas raramente oferecem ao observador um lugar identificável. Parte desse repertório nasceu de suas experiências em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. As montanhas envolvidas pela neblina, os contrastes entre rochas e mar e as mudanças de luminosidade aparecem transformados em composições de curvas, campos de cor e movimentos que parecem atravessar a tela. Sua pesquisa também incorpora literatura, filosofia, música e lembranças pessoais. Em vez de reproduzir uma paisagem, Marina procura construir a sensação que ela provoca. É uma distinção importante: o tema de uma pintura pode ser a natureza, mas seu verdadeiro assunto pode estar na memória, no tempo ou na maneira como percebemos o mundo. Essa linguagem, ao mesmo tempo brasileira e universal, tornou-se um dos elementos centrais de sua projeção internacional.
De Vitória a Nova York, Londres e Tóquio
A consolidação internacional de Marina Perez Simão não começou na feira londrina. Em janeiro de 2021, a Pace Gallery anunciou sua representação em parceria com a brasileira Mendes Wood DM, iniciando uma etapa importante na expansão de sua presença fora do país. Poucos meses depois, Marina apresentou sua primeira exposição individual na Pace, em Nova York, intitulada “Tudo é e não é”. O nome, inspirado em uma expressão de João Guimarães Rosa, traduzia a ambiguidade presente em suas pinturas: imagens que parecem mostrar algo reconhecível, mas que nunca se deixam reduzir a uma única interpretação. Em 2022, a artista chegou a Londres com a exposição “Onda”, acompanhada pelo lançamento de uma monografia publicada pela Rizzoli. Nos anos seguintes, ampliou sua presença institucional e comercial, incluindo apresentações em Los Angeles e Tóquio. Na capital japonesa, uma exposição realizada entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026 colocou suas pinturas em diálogo com a produção de Tomie Ohtake, uma das figuras fundamentais da abstração brasileira. O percurso ajuda a compreender uma realidade pouco discutida fora do mercado especializado: a carreira internacional de um artista não é construída apenas por vendas. Exposições, publicações, relações curatoriais e presença em coleções também contribuem para formar sua reputação.
O que aconteceu na Frieze London 2026
Em 14 de outubro, durante a abertura para convidados da Frieze London, a Pace Gallery apresentou um estande inteiramente dedicado a Marina Perez Simão. A seleção de novas pinturas explorava três campos cromáticos — magenta, azul e cinza — em uma investigação sobre a maneira como a cor modifica nossa percepção de profundidade, espaço e movimento. Segundo levantamento publicado pela Artsy na noite da abertura, a galeria informou que praticamente todas as obras do estande haviam sido negociadas nas primeiras horas. Os preços chegaram a US$ 250 mil. O resultado chama a atenção não apenas pelo valor, mas pela velocidade das transações. Em feiras internacionais, os primeiros dias costumam reunir colecionadores convidados, consultores de arte e representantes de instituições que acompanham os artistas antes mesmo de as portas se abrirem ao público geral. A movimentação brasileira não se limitou a Marina. A galeria Nara Roesler informou vendas de obras de André Griffo, por US$ 56 mil, e Maria Klabin, por US$ 55 mil. A Fortes D’Aloia & Gabriel também apareceu entre as galerias que relataram apresentações esgotadas. Os números, entretanto, exigem precisão: são vendas comunicadas pelas próprias galerias, não resultados de leilões com registros públicos completos. Tampouco representam uma medida de valorização de todas as obras desses artistas.
Quem determina o valor de uma obra de arte?
Diferentemente de um relógio produzido em série limitada ou de um automóvel clássico com histórico de negociações relativamente documentado, uma pintura original possui características que dificultam comparações diretas. Mesmo duas obras do mesmo artista, produzidas no mesmo ano, podem alcançar valores bastante diferentes. Dimensões, técnica, período de produção, importância dentro da trajetória do artista, estado de conservação, procedência e histórico de exposições influenciam a formação de preços. A presença em museus e coleções relevantes também pode fortalecer o reconhecimento de uma produção artística. As galerias exercem papel central nesse processo. Além de organizar exposições e aproximar artistas de compradores, ajudam a documentar obras, desenvolver publicações e estabelecer relações duradouras com instituições culturais. É nesse contexto que a representação de Marina pela Pace Gallery ganha importância. Fundada em 1960, a galeria possui uma atuação internacional consolidada e uma história associada a importantes nomes da arte moderna e contemporânea. Mas há um cuidado fundamental: preço de venda não é sinônimo de valor futuro. Uma transação de US$ 250 mil demonstra que houve demanda por determinada obra naquele contexto. Não garante que ela poderá ser revendida pelo mesmo preço, muito menos com lucro.
O mercado brasileiro está amadurecendo ou apenas alguns artistas estão chegando mais longe?
A presença de artistas brasileiros em grandes feiras internacionais não é recente. Nomes como Beatriz Milhazes, Adriana Varejão e outros criadores ajudaram a ampliar a visibilidade da produção nacional no circuito global. A novidade está na consolidação de novas trajetórias e na capacidade de galerias brasileiras participarem de um mercado que depende de relações internacionais construídas ao longo de décadas. Na edição de 2026, a própria Frieze destacou a história de duas galeristas brasileiras: Nara Roesler, cuja trajetória expositiva começou em Recife há cinquenta anos, e Márcia Fortes, que iniciou seu projeto de galeria em São Paulo há vinte e cinco anos. Essas histórias mostram que a internacionalização da arte brasileira não depende apenas de talentos individuais. Existe uma estrutura de profissionais, instituições, colecionadores e galerias trabalhando para criar condições de circulação e reconhecimento. Entretanto, seria precipitado concluir que o mercado brasileiro inteiro está em expansão com base nos resultados de um único evento. A Frieze oferece um retrato relevante de um segmento altamente especializado, não um balanço completo da economia da arte no país.
O verdadeiro luxo talvez esteja em reconhecer o que ainda não se tornou óbvio
O colecionismo de arte exige uma habilidade que o dinheiro, sozinho, não consegue oferecer: a capacidade de desenvolver um olhar próprio. Comprar uma obra porque seu autor alcançou preços elevados é uma decisão diferente de reconhecer qualidade, coerência e significado em uma produção artística. A primeira pode nascer da expectativa de valorização. A segunda depende de repertório. Isso não significa que o mercado seja irrelevante. Galerias, preços e reconhecimento institucional fazem parte da história da arte contemporânea. O problema começa quando os números substituem a experiência estética. Marina Perez Simão construiu uma linguagem em que paisagens imaginárias, memórias e fenômenos naturais se transformam em imagens abertas à interpretação. Seu sucesso comercial em Londres é um acontecimento relevante. Mas sua trajetória artística não começou com essas vendas, nem poderá ser inteiramente explicada por elas. Talvez essa seja a melhor maneira de compreender o que aconteceu na Frieze: o mercado pode estabelecer quanto alguém pagou por uma pintura. O que ela representa culturalmente é uma questão muito mais difícil — e infinitamente mais interessante.




