São Paulo não sofre de falta de bons restaurantes. Talvez sofra justamente do contrário. Em uma cidade onde novas casas abrem o tempo todo e listas de “imperdíveis” envelhecem depressa, escolher onde jantar tornou-se menos uma questão de encontrar comida boa e mais de descobrir quais lugares realmente merecem algumas horas da nossa noite. Por isso, esta não é uma lista dos cinco melhores restaurantes de São Paulo. Também não é uma seleção dos mais caros. A OAK escolheu cinco endereços por cinco razões diferentes: experiência, identidade, relevância, descoberta e história. Porque há restaurantes onde vamos para comer. E há outros de onde saímos levando alguma coisa além do jantar.
01 — TUJU O JANTAR COMO EXPERIÊNCIA
Há restaurantes em que a cozinha é o centro de tudo. No Tuju, a ambição é outra: fazer com que o prato seja apenas uma das partes da experiência. Sob o comando do chef Ivan Ralston, o restaurante foi concebido para que arquitetura, serviço, ingredientes, louças, iluminação e até o ritmo em que a noite avança participem da mesma narrativa. Não se trata apenas de servir uma sequência de pratos, mas de construir uma experiência que começa antes da primeira garfada e só termina quando o cliente deixa a casa. Em 2026, esse trabalho colocou o Tuju em um lugar histórico. O restaurante conquistou três estrelas Michelin e, ao lado do Evvai, tornou-se um dos primeiros restaurantes da América Latina a alcançar a classificação máxima do guia. A conquista chama atenção, mas talvez exista uma maneira mais interessante de olhar para ela. Três estrelas Michelin não significam simplesmente que a comida é excepcional. Na definição tradicional do próprio guia, a categoria máxima identifica uma cozinha que “vale uma viagem especial”. E essa ideia combina particularmente bem com o Tuju. O restaurante trabalha com menus que acompanham a sazonalidade dos ingredientes brasileiros, mas o que chega à mesa não pretende apenas mostrar técnica. Há uma preocupação em construir contexto: de onde vem aquele produto, por que ele está sendo servido naquele momento e como cada etapa se relaciona com a próxima. É justamente aí que o Tuju se aproxima de uma ideia de luxo que interessa à OAK. Luxo não necessariamente como excesso, mas como atenção. Tempo para desenvolver um ingrediente. Tempo para pensar o ambiente. Tempo para servir. E, principalmente, tempo para quem está sentado à mesa perceber tudo isso. Em uma cidade acostumada a correr — inclusive para jantar — talvez uma das maiores extravagâncias do Tuju seja justamente pedir algumas horas da sua noite. Não apenas para comer. Para prestar atenção.
02 — EVVAI A ITÁLIA QUE SÓ PODERIA EXISTIR NO BRASIL
Durante muito tempo, falar em alta cozinha italiana significava olhar para a Itália. No Evvai, Luiz Filipe Souza fez o caminho inverso: começou a olhar para o Brasil para entender melhor a própria herança italiana. Essa ideia aparece no conceito Oriundi, termo ligado aos descendentes de italianos que vivem fora do país. Técnicas e referências italianas encontram ingredientes, memórias e paisagens brasileiras, sem que uma cultura precise imitar a outra. Em 2026, essa cozinha alcançou um marco histórico. O Evvai recebeu sua terceira estrela Michelin e, ao lado do Tuju, colocou São Paulo entre os raríssimos destinos gastronômicos latino-americanos com restaurantes na categoria máxima do guia. Mas talvez as três estrelas sejam menos interessantes do que aquilo que tornou possível conquistá-las. O Evvai representa uma São Paulo que absorveu cozinhas do mundo inteiro e, depois de algumas gerações, começou a devolvê-las transformadas. Você reconhece a Itália — mas dificilmente encontraria exatamente aquele jantar na Itália. E essa é uma boa razão para reservar uma mesa.
03 — D.O.M. O CLÁSSICO CONTEMPORÂNEO
Há restaurantes que precisam conquistar relevância. Outros enfrentam um desafio talvez mais difícil: continuar relevantes depois de já terem mudado o jogo. O D.O.M. pertence ao segundo grupo. Quando Alex Atala começou a colocar ingredientes brasileiros no centro de uma experiência de alta gastronomia, produtos como tucupi, jambu, priprioca e formigas amazônicas ainda estavam muito distantes do repertório internacional associado à cozinha brasileira. O trabalho ajudou a mudar essa percepção. Mais de duas décadas depois, o D.O.M. permanece com duas estrelas Michelin, mas visitar o restaurante hoje é interessante por uma razão que nenhuma estrela consegue resumir: ele permite observar como uma ideia que um dia pareceu radical conseguiu envelhecer sem virar apenas memória. E existe uma diferença importante entre tradição e acomodação. São Paulo ganhou novos chefs, novos restaurantes e duas casas com três estrelas Michelin. O centro de gravidade da gastronomia paulistana se movimentou — como deveria. Ainda assim, o D.O.M. permanece. Talvez essa seja justamente a razão para incluí-lo nesta lista: não para descobrir o restaurante do momento, mas para conhecer um dos lugares que ajudaram a criar o momento atual.
04 — NELITA SOFISTICAÇÃO SEM PRECISAR PARECER SOLENE
Nem toda grande experiência gastronômica precisa começar com a sensação de que entramos em um templo. No Nelita, em Pinheiros, a chef Tássia Magalhães construiu uma cozinha de inspiração italiana que troca parte da formalidade tradicional da alta gastronomia por algo mais contemporâneo: proximidade, personalidade e uma relação muito clara entre técnica e prazer. Massas têm papel importante na casa, mas seria simplista definir o Nelita apenas como um bom restaurante italiano. A cozinha usa essa tradição como vocabulário, não como obrigação. E talvez esteja aí a razão de colocá-lo nesta lista. Depois de Tuju, Evvai e D.O.M., o Nelita representa outra São Paulo gastronômica: aquela em que sofisticação deixou de depender de cerimônia. É um movimento que também aparece em hotéis, bares, moda e até no mercado de luxo. O consumidor continua interessado em excelência — mas nem sempre quer que ela venha acompanhada de formalidade. No Nelita, essa mudança chega à mesa. E faz dele uma escolha especialmente interessante para quem procura um restaurante para uma grande noite sem necessariamente querer que a noite pareça uma grande ocasião.
05 — LA CASSEROLE PARA JANTAR EM UMA SÃO PAULO QUE AINDA RESISTE
São Paulo tem uma relação curiosa com restaurantes. A cidade adora inaugurações, corre atrás da novidade e, poucos meses depois, já procura o próximo endereço. Talvez por isso um restaurante que atravessa mais de sete décadas diga tanto sobre a cidade. O La Casserole abriu as portas em 1954, no Largo do Arouche, pelas mãos da família Racz. Desde então, tornou-se um dos endereços históricos da cozinha francesa paulistana. O entorno mudou, hábitos mudaram, gerações passaram pelaquelas mesas — e a casa permaneceu. Isso não significa transformar tradição em peça de museu. O interesse está justamente em perceber como certos rituais continuam fazendo sentido: serviço atento, cozinha francesa clássica, uma garrafa escolhida sem pressa e a possibilidade de passar algumas horas em um restaurante que não foi desenhado para acompanhar a tendência daquele ano. Depois de Tuju, Evvai, D.O.M. e Nelita, terminar aqui é proposital. Os quatro primeiros ajudam a entender diferentes caminhos da gastronomia paulistana contemporânea. O La Casserole lembra que uma grande cidade gastronômica também é feita dos lugares que conseguiu preservar. Há restaurantes aos quais vamos para descobrir o que São Paulo acaba de inventar. E há aqueles em que sentamos para descobrir o que São Paulo decidiu não perder.
OAK EM 30 SEGUNDOS TUJU 📍 Jardim Paulistano Cozinha: Brasileira contemporânea Por que ir: Pela experiência completa — cozinha, arquitetura e serviço pensados como uma única narrativa. OAK indica para: Uma ocasião realmente especial. EVVAI 📍 Pinheiros Cozinha: Ítalo-brasileira contemporânea Por que ir: Para entender como referências italianas podem ganhar uma identidade genuinamente brasileira. OAK indica para: Quem procura alta gastronomia com personalidade. D.O.M. 📍 Jardins Cozinha: Brasileira contemporânea Por que ir: Para conhecer uma das casas que ajudaram a mudar a maneira como o mundo enxerga ingredientes brasileiros. OAK indica para: Quem gosta de gastronomia também como repertório. NELITA 📍 Pinheiros Cozinha: Italiana contemporânea Por que ir: Massas, técnica e uma interpretação atual de sofisticação, sem excesso de cerimônia. OAK indica para: Um jantar especial que não precisa parecer formal. LA CASSEROLE 📍 Largo do Arouche Cozinha: Francesa Desde: 1954 Por que ir: Pela combinação de cozinha clássica, atmosfera e história. OAK indica para: Quem acredita que tradição também pode ser uma forma de luxo. A ESCOLHA OAK Para impressionar: Tuju Para descobrir: Nelita Para celebrar: Evvai Para ter repertório: D.O.M. Para voltar no tempo: La Casserole




