Existe uma vantagem enorme em viver cercado de regras. Você não precisa pensar muito. Durante boa parte do século XX, o guarda-roupa masculino funcionou assim. Havia roupa para trabalhar, roupa para jantar, roupa para viajar, roupa para determinadas ocasiões — e uma quantidade quase britânica de convenções dizendo o que combinava com o quê. Então começamos a derrubar as regras. E foi ótimo. Até descobrirmos o problema. Quando quase tudo pode, saber se vestir fica mais difícil — não mais fácil. Hoje um executivo pode comandar uma empresa bilionária usando camiseta. Um tênis pode custar mais do que um sapato feito à mão. Um blazer pode aparecer com jeans, camiseta ou gola alta. E a gravata, que durante décadas funcionou quase como uniforme do homem bem vestido, tornou-se opcional em ambientes onde seria impensável abandoná-la vinte anos atrás. A elegância masculina não desapareceu. Ela perdeu o manual de instruções. E talvez essa seja a grande questão do estilo masculino contemporâneo. Não se trata mais de descobrir se determinado homem está seguindo as regras. Trata-se de perceber se ele sabe por que decidiu quebrá-las.
“Vestir-se bem deixou de significar obedecer. O problema é que liberdade sem repertório também produz alguns crimes.”
E isso nos leva a uma peça que parecia condenada pela informalidade contemporânea. O terno. Ele continua vivo. Só não precisa mais aparecer todos os dias para provar sua importância.
QUANDO OS HOMENS PARARAM DE PRECISAR DA GRAVATA
Durante muito tempo, a gravata resolvia uma parte considerável do problema. Terno escuro, camisa clara, bons sapatos, gravata. Era possível discutir largura da lapela, comprimento da calça ou nó, mas a estrutura estava pronta. O homem precisava aprender as regras. Hoje precisa desenvolver critério. E são coisas bastante diferentes. Retirar a gravata não tornou o terno automaticamente mais moderno. Em muitos casos, apenas deixou mais evidente aquilo que ela ajudava a esconder: um paletó com proporções ruins, uma camisa inadequada, uma calça comprida demais ou um sapato que simplesmente não conversa com o restante. A informalidade aumentou a liberdade. Mas também aumentou a responsabilidade de quem se veste.
“Quando as regras desaparecem, o bom gosto fica mais exposto.”
É por isso que talvez nunca tenhamos precisado tanto falar sobre caimento.
O LOGOTIPO NÃO CONSEGUE CORRIGIR UM OMBRO
Há uma pequena crueldade na boa alfaiataria. Quando funciona, pouca gente sabe explicar exatamente por quê. O ombro encaixa. A lapela repousa corretamente. O comprimento conversa com o corpo. A calça cai limpa. O tecido acompanha o movimento. Nada grita. Mas tudo parece certo. É justamente aí que marcas menores e ateliers especializados começam a ficar muito mais interessantes do que simplesmente comprar o nome mais conhecido disponível no shopping. Em São Paulo, a Sartoria San Paolo trabalha com alfaiataria bespoke de inspiração napolitana. Cada cliente recebe um molde individual; o processo envolve provas sucessivas e um único terno pode exigir aproximadamente 80 a 100 horas de trabalho manual. Pense no que isso significa. Enquanto grande parte da indústria tenta descobrir como produzir mais peças em menos tempo, existe alguém fazendo exatamente o contrário. Gastando mais tempo para produzir uma. Isso é exclusividade em uma definição que me interessa muito mais. Não porque poucas pessoas conseguem pagar. Mas porque poucas peças conseguem ser feitas.

EXCLUSIVIDADE NÃO É PAGAR PARA SER VISTO
Durante algum tempo, luxo masculino virou sinônimo de reconhecimento imediato. O relógio precisava ser identificado do outro lado da mesa. O tênis, reconhecido pela lateral. A camisa, pela estampa. E o cinto, em alguns casos, parecia carregar uma fivela grande o bastante para informar a marca ao restante do restaurante. Isso é uma forma de consumo. Mas não é necessariamente elegância. Existe outro caminho, muito mais interessante para o homem que começa a construir repertório. É quando alguém olha para uma roupa e percebe que existe alguma coisa especial ali, mesmo sem conseguir descobrir imediatamente quem a produziu. O tecido cai bem. A proporção funciona. A construção é boa. O sapato envelheceu bonito. O relógio conversa com a ocasião. Nada parece desesperadamente interessado em informar quanto custou.
“Talvez a forma mais sofisticada de exclusividade seja usar algo extraordinário sem precisar explicar a ninguém que aquilo é extraordinário.”
É justamente nesse território que algumas marcas brasileiras merecem muito mais atenção.
O BRASIL TAMBÉM SABE FAZER ELEGÂNCIA
Durante décadas desenvolvemos um hábito curioso. Quando a conversa chegava à alta alfaiataria masculina, nossos olhos viajavam imediatamente para Londres, Milão, Nápoles ou Paris. Com alguma razão. Essas cidades ajudaram a escrever a história da roupa masculina. Mas isso não significa que seja necessário atravessar o Atlântico para encontrar excelência. A Sartoria San Paolo, em São Paulo, trabalha segundo princípios da alfaiataria bespoke de inspiração napolitana. Molde individual, provas sucessivas e dezenas de horas de trabalho manual para produzir uma única peça. É quase uma provocação ao modelo industrial. Enquanto boa parte da moda procura descobrir como produzir milhares de peças mais rapidamente, um atelier como esse dedica algo na ordem de 80 a 100 horas a um único terno. A matemática do luxo muda completamente. O objetivo deixa de ser quantidade. Passa a ser precisão. E isso ajuda a desmontar uma ideia que considero importante para a OAK: uma empresa não precisa ser gigantesca para representar excelência. Às vezes, ser pequena é justamente aquilo que permite fazer algo que uma operação gigantesca dificilmente conseguiria reproduzir.
RICARDO ALMEIDA: QUANDO A ALFAIATARIA BRASILEIRA GANHOU ESCALA
Em outro ponto desse espectro está Ricardo Almeida. Não estamos mais falando de um pequeno atelier. A marca cresceu, ganhou lojas e tornou seu nome conhecido muito além do universo dos apaixonados por alfaiataria. Mas há uma razão para incluí-la nesta conversa. Ela ajudou a demonstrar que alfaiataria masculina brasileira poderia construir identidade própria e relevância comercial sem simplesmente tentar parecer estrangeira. E isso importa. Porque vestir-se bem não deveria significar fantasiar-se de inglês em Savile Row ou de italiano em Florença. Clima, corpo, rotina e cultura também interferem na maneira como nos vestimos. Elegância não é reprodução. É interpretação.
E QUANDO O TERNO NEM É NECESSÁRIO?
É aqui que a conversa fica ainda mais contemporânea. Porque um homem pode estar extremamente bem vestido sem usar terno. A Handred, nascida no Rio de Janeiro, representa uma leitura diferente da sofisticação brasileira: fibras naturais, linho, seda, algodão, volumes mais relaxados e uma relação evidente com nosso clima. É outro vocabulário. Menos escritório. Mais textura. Menos estrutura. Mais movimento. E talvez essa seja uma das grandes conquistas do estilo masculino atual. Finalmente começamos a separar duas coisas que durante muito tempo foram tratadas como sinônimos: formalidade e elegância. Um homem pode estar formalmente vestido e parecer péssimo. Outro pode estar usando calça de linho, camisa aberta e loafer e ser a pessoa mais elegante do ambiente. A diferença está no repertório.

TALVEZ O NOVO LUXO SEJA NÃO PRECISAR PROVAR NADA
Existe uma mudança interessante acontecendo no guarda-roupa masculino. Durante muito tempo, vestir-se também significou comunicar posição. O corte do terno, o relógio, o sapato, a gravata e, mais recentemente, os logotipos funcionaram como pequenos sinais destinados a informar alguma coisa sobre quem os usava. Eles continuam existindo. Mas talvez a sofisticação esteja começando a seguir outra direção. A do reconhecimento que não precisa acontecer. Um tecido extraordinário pode passar despercebido por quase todo mundo. Um paletó feito para aquele corpo talvez seja reconhecido apenas por quem conhece alfaiataria. Um sapato artesanal pode não carregar na fivela nenhuma pista sobre seu preço. E está tudo bem. Talvez esteja justamente aí o prazer. Quando começamos a conhecer melhor aquilo que compramos, a aprovação externa perde um pouco da importância. Escolhemos porque sabemos. Porque sentimos a diferença. Porque gostamos. Essa lógica vale para roupa, relógio, vinho, gastronomia — e certamente vale para whisky. Repertório muda a maneira como consumimos.
PEQUENO PODE SER UM ELOGIO
É por isso que ateliers e marcas independentes interessam tanto à OAK. Não porque ser pequeno automaticamente signifique ser bom. Não significa. Mas porque determinados tipos de excelência são difíceis de escalar. Há um limite para quantos ternos um alfaiate consegue acompanhar pessoalmente. Para quantos sapatos podem ser construídos à mão. Para quantas peças podem receber dezenas de horas de trabalho sem que o processo precise mudar. Em algum momento, crescer significa necessariamente produzir de outra maneira. E não existe nada errado nisso. O erro talvez esteja em imaginar que sucesso precise sempre significar volume. A Sartoria San Paolo representa uma ponta dessa discussão, com uma lógica próxima da alta alfaiataria artesanal. Ricardo Almeida mostra que é possível crescer preservando uma identidade brasileira ligada à alfaiataria. A Handred percorre outro caminho, usando materiais e construções que conversam melhor com o clima e com uma ideia menos formal de sofisticação. São propostas diferentes. E isso é justamente o interessante. Não existe mais um único uniforme para o homem elegante.
O TERNO NÃO MORREU
Voltamos, então, à pergunta do começo. O terno morreu? Não. Talvez tenha acontecido algo muito melhor. Ele foi libertado. Libertado da obrigação de aparecer cinco vezes por semana. Da gravata obrigatória. Do escritório como único território possível. Da ideia de que elegância masculina começa necessariamente em um conjunto escuro acompanhado de camisa branca. Hoje podemos usar alfaiataria com camisa aberta. Um paletó desestruturado com calça diferente. Linho no lugar de lã. Loafer sem meia aparente. Ou um terno completo e gravata quando a ocasião pedir — porque tradição também pode ser maravilhosa quando é uma escolha, e não uma imposição. O resultado é um guarda-roupa masculino muito mais interessante. Mas também mais exigente. Porque antigamente bastava conhecer as regras. Agora precisamos desenvolver gosto.
“O homem elegante deixou de ser aquele que conhece todas as regras. É aquele que sabe quais ainda fazem sentido para ele.”
E talvez essa seja a melhor definição possível para o estilo masculino contemporâneo. Não aquilo que você veste para que os outros percebam. Mas aquilo que continua fazendo sentido mesmo quando ninguém reconhece a etiqueta.
OAK CÓDIGO Tema: Elegância masculina contemporânea Princípio: repertório antes de logotipo Alfaiataria: menos rigidez, mais caimento Materiais: qualidade que pode ser percebida no toque Brasil: vestir o nosso clima também é sinal de inteligência Exclusividade: produção limitada pode valer mais do que reconhecimento imediato Marcas para conhecer: Sartoria San Paolo • Ricardo Almeida • Handred Vale investir: peças que serão usadas durante anos Evite: transformar o corpo em painel publicitário Regra OAK: se a primeira coisa que alguém percebe é a marca, talvez a roupa esteja falando mais alto do que você.
A moda masculina continuará mudando. A gravata pode voltar. O terno pode ficar mais largo. Depois mais estreito. O loafer será substituído por alguma coisa e, alguns anos depois, provavelmente voltará. Isso é moda. Estilo é outra conversa. É conhecer suficientemente bem aquilo que veste para não precisar trocar de personalidade toda vez que uma tendência muda. Talvez por isso as pequenas alfaiatarias, os bons artesãos e as marcas com identidade própria sejam tão interessantes. Eles lembram uma coisa que a indústria do luxo às vezes parece esquecer: exclusividade não é ser reconhecido por todos. Às vezes é justamente o privilégio de ser compreendido por poucos.

