Há nomes que pertencem a um produto. E há nomes que carregam uma história inteira. Le Hoyo pertence ao segundo grupo. No início de setembro de 2026, a operação norte-americana de Hoyo de Monterrey apresentou um novo charuto chamado simplesmente Le Hoyo. Produzido em Honduras, ele aparece inicialmente dentro do Hoyo New Legends Sampler, ao lado de Rojo, Oscuro e Shade. O lançamento comercial mais amplo está previsto para depois; por enquanto, o novo Le Hoyo existe apenas no formato Toro de 6 x 52 dentro desse conjunto. Para alguém que acompanha apenas o mercado americano, poderia parecer apenas mais uma extensão de linha. Para quem conhece a história de Hoyo de Monterrey, o nome imediatamente chama atenção. Porque Le Hoyo já existia muito antes desse lançamento. E continua existindo em Cuba. A própria Habanos identifica oficialmente a Serie Le Hoyo como parte histórica de Hoyo de Monterrey. Em 2014, a companhia revitalizou a família com o Le Hoyo de San Juan; em 2018 veio o Le Hoyo de Río Seco. Mais recentemente, o Le Hoyo de San Luis ampliou novamente a série, com apresentação internacional em novembro de 2025 e chegada a determinados mercados em 2026. Portanto, em 2026 acontece algo bastante incomum: há um Le Hoyo cubano e há, agora, um novo Le Hoyo hondurenho destinado ao mercado americano. Não são o mesmo charuto. Não são produzidos pela mesma empresa. E entender como isso é possível exige voltar mais de 160 anos.
ANTES DE EXISTIREM DUAS HOYO, EXISTIA JOSÉ GENER
A história começa em Cuba. Hoyo de Monterrey nasceu ligada a José Gener, espanhol que chegou à ilha ainda jovem e construiu sua trajetória no universo do tabaco. O nome deriva da propriedade Hoyo de Monterrey, situada em San Juan y Martínez, Vuelta Abajo, uma das regiões historicamente mais importantes do tabaco cubano. A própria Habanos registra até hoje a famosa inscrição existente na entrada da propriedade:
“Hoyo de Monterrey. José Gener. 1860.”
A marca Hoyo de Monterrey surgiu em 1865 e se transformou em uma das grandes casas de Havana. Décadas depois, já sob outros proprietários, apareceria o nome que nos trouxe até esta matéria.
Le Hoyo.
Fontes históricas situam a criação da série por volta dos anos 1940, quando Hoyo de Monterrey estava sob Fernández, Palicio y Cía.; a linha teria sido desenvolvida para o distribuidor suíço A. Dürr Co. Até aqui, temos uma única árvore genealógica. Então veio a Revolução Cubana. E a árvore se dividiu.
UMA MARCA. DUAS HISTÓRIAS.
A nacionalização da indústria cubana de charutos depois da Revolução criou uma das situações mais curiosas do mercado de luxo. Marcas históricas continuaram sendo produzidas em Cuba. Ao mesmo tempo, antigos proprietários e empresários ligados à indústria deixaram o país, e versões não cubanas de vários daqueles nomes começaram a ser produzidas para o mercado americano. Esse processo atingiu marcas como Punch, Partagás, H. Upmann e Hoyo de Monterrey. No caso de Hoyo, Fernando Palicio deixou Cuba e posteriormente negociou Hoyo de Monterrey e Punch com a família Villazon. A produção hondurenha de Hoyo de Monterrey começou em 1965. Segundo levantamento histórico da Cigar Aficionado, os primeiros Hoyos produzidos em Honduras chegaram inclusive a utilizar estoques de tabaco cubano adquiridos antes do embargo; esse estoque acabou durante os anos 1970. Em 1997, a General Cigar comprou a Villazon por US$ 81,4 milhões e, com a aquisição, incorporou Hoyo de Monterrey à sua operação. Hoje, o próprio site americano de Hoyo resume essa outra genealogia com uma frase bastante reveladora:
“Hand Crafted in Honduras. Since 1965, Hoyo de Monterrey has called Honduras home.”
É verdadeira. Mas existe simultaneamente outra verdade a apenas algumas centenas de quilômetros dali. Em Cuba, Hoyo de Monterrey nunca deixou de existir. A Habanos continua produzindo a marca com tabacos de Vuelta Abajo e mantém em seu portfólio nomes históricos como Double Coronas, Epicure e a própria Serie Le Hoyo. É por isso que pedir simplesmente “um Hoyo de Monterrey” pode significar coisas completamente diferentes dependendo de onde você estiver. Não estamos diante de uma falsificação. Estamos diante de duas genealogias comerciais originadas de uma mesma história pré-revolucionária e separadas por política, embargo, propriedade intelectual e mais de seis décadas de desenvolvimento independente. E é justamente isso que torna o lançamento de setembro de 2026 tão interessante. Porque a operação hondurenha foi buscar para seu novo produto um nome que permanece profundamente associado à história cubana da marca:
Le Hoyo.
Trabalhador em uma plantação de tabaco em San Juan y Martínez, região de Pinar del Río, em Cuba. É nesse território de Vuelta Abajo que se encontram as raízes históricas de Hoyo de Monterrey, cuja história remonta ao século XIX. Crédito: Granma
O NOVO LE HOYO NÃO TENTA SER CUBANO
É aqui que a história fica mais interessante. Seria fácil imaginar que recuperar o nome Le Hoyo significaria tentar reproduzir, em Honduras, a identidade da tradicional série cubana. As informações divulgadas pela General Cigar apontam para outra direção. O novo Le Hoyo é produzido na fábrica Honduran American Tobacco S.A. (HATSA), em Danlí, Honduras, e utiliza tabacos de quatro origens: Honduras, Estados Unidos, Nicarágua e República Dominicana. A construção é bastante específica. A capa é Honduran OSA. Abaixo dela está uma subcapa Broadleaf dos Estados Unidos. Na tripa entram Piloto dominicano, Estelí nicaraguense, La Entrada Corojo 2012 hondurenho e Jamastrán Broadleaf também de Honduras. Não é uma composição que tenta esconder sua origem. É praticamente o contrário. Le Hoyo pode ter um nome que nasceu na história cubana da marca, mas o charuto de 2026 foi construído para contar a história que Hoyo de Monterrey desenvolveu fora de Cuba. E existe outro detalhe importante para quem acompanha lançamentos. Por enquanto, o novo Le Hoyo está disponível somente como Toro 6 x 52, dentro do Hoyo New Legends Sampler, que começou a chegar ao varejo americano em setembro de 2026. O pacote traz quatro Toros: Le Hoyo, Rojo, Oscuro e Shade, com preço sugerido de US$ 27,59. A linha completa virá depois. Estão previstas três bitolas de produção regular: Rothschild — 4½ x 50 Toro — 6 x 52 Gigante — 6 x 60 A General Cigar ainda não informou uma data definitiva para a chegada das caixas individuais dessas três apresentações. Essa distinção é importante porque significa que, neste momento, quem encontra um Le Hoyo hondurenho não está diante de uma edição limitada criada exclusivamente para um sampler. Está diante de uma prévia de uma nova linha regular.
QUATRO CHARUTOS, QUATRO LEITURAS DE HOYO
A escolha do sampler também parece deliberada. O Le Hoyo não chega sozinho. Ele aparece ao lado de Rojo, Oscuro e Shade, três expressões da atual Hoyo de Monterrey americana. Rojo e Oscuro foram apresentados em 2024 justamente como parte de uma renovação da marca, com a General Cigar destacando sua herança hondurenha iniciada nos anos 1960. Agora o Le Hoyo entra nessa narrativa. Scott Abney, brand manager de Hoyo de Monterrey, explicou que a intenção era permitir que o público experimentasse Le Hoyo primeiro ao lado de três charutos hondurenhos já estabelecidos e afirmou que, juntos, eles representam “different elements of the legendary Hoyo story”. A frase é comercial, evidentemente. Mas revela bastante sobre o posicionamento. A General Cigar não está apresentando apenas mais um blend. Está tentando organizar a própria história de Hoyo. E isso transforma a escolha do nome Le Hoyo em algo muito mais interessante do que uma decisão de embalagem. Porque, seis décadas depois da separação das duas trajetórias, o mesmo nome volta a aparecer dos dois lados dessa história. Em Cuba, Le Hoyo continua significando uma família histórica de Hoyo de Monterrey. Nos Estados Unidos, passa agora a identificar um charuto hondurenho completamente diferente. O nome atravessou a história. O tabaco tomou outro caminho.
O MESMO NOME. DOIS CHARUTOS COMPLETAMENTE DIFERENTES.
Agora chegamos ao ponto que pode causar mais confusão — e que torna esta história tão interessante para quem realmente acompanha charutos. O Le Hoyo cubano e o novo Le Hoyo hondurenho compartilham um nome e uma ancestralidade histórica. Sensorialmente e tecnicamente, porém, devem ser tratados como produtos independentes. Em Cuba, a lógica é radicalmente diferente. Os Habanos são produzidos com tabacos cubanos, e Hoyo de Monterrey permanece entre as marcas históricas do portfólio cubano. A família Le Hoyo surgiu ainda antes da Revolução, na década de 1940, associada ao distribuidor suíço A. Dürr Co. A série atravessou décadas, ganhou e perdeu vitolas e continuou evoluindo. É importante, portanto, não imaginar “Le Hoyo” como o nome de um único charuto cubano. É uma família dentro de Hoyo de Monterrey. Do outro lado está o lançamento de 2026. O Le Hoyo americano é produzido pela HATSA, em Honduras, e seu blend é deliberadamente multinacional: capa Honduran OSA, subcapa U.S. Broadleaf e tripa composta por Dominican Piloto, Nicaraguan Estelí, Honduran La Entrada Corojo 2012 e Honduran Jamastrán Broadleaf. A própria Hoyo de Monterrey americana já incorporou Le Hoyo ao seu catálogo oficial. Isso cria uma situação fascinante. Cuba preservou o nome pela continuidade. Honduras o recupera pela herança. E nenhuma dessas frases significa que os dois charutos sejam equivalentes.
O QUE “LE HOYO” SIGNIFICAVA ANTES DE 2026
Aqui existe uma camada que vale conhecer. A série Le Hoyo nasceu na década de 1940, quando Hoyo de Monterrey estava sob Fernández, Palicio y Cía. Registros históricos relacionam sua criação à distribuidora suíça A. Dürr Co., que buscava uma extensão particular dentro da marca. Ao longo do tempo apareceram nomes hoje quase míticos entre aficionados e colecionadores: Le Hoyo du Gourmet, du Prince, du Député, des Dieux, du Roi e du Dauphin, entre outros. Alguns desapareceram. E é justamente aí que o assunto deixa de ser apenas história e entra no terreno do colecionismo. Um Le Hoyo du Dauphin de 1999, por exemplo, não interessa ao conhecedor simplesmente porque é velho. Interessa porque pertence a uma configuração da série que já não existe da mesma maneira. O du Dauphin foi posteriormente descontinuado, transformando exemplares antigos e bem conservados em testemunhos de outra fase do catálogo. Isso ensina algo importante sobre charutos. Raridade não começa quando uma caixa fica cara. Começa quando percebemos que determinada combinação de marca, vitola, época e produção deixou de poder ser repetida exatamente como era. E talvez seja por isso que reutilizar o nome Le Hoyo seja uma decisão tão poderosa. Para o consumidor casual, são apenas duas palavras impressas numa anilha. Para quem conhece a história, elas carregam quase oitenta anos de memória.
E O NOVO LE HOYO, É BOM?
Ainda não sabemos. E essa talvez seja a resposta mais importante desta matéria. O produto acaba de ser lançado no sampler em setembro de 2026. A OAK não o degustou, portanto não vamos transformar descrição de fabricante em opinião editorial nem atribuir notas sensoriais que não são nossas. A General Cigar escolheu um blend que, no papel, é tecnicamente interessante. Mas composição não substitui degustação. É exatamente a mesma disciplina que usamos com whisky: uma boa história pode fazer você querer conhecer um produto. Não pode decidir por você se ele é bom. O que já podemos avaliar é sua relevância histórica. E nisso o novo Le Hoyo conseguiu algo antes mesmo de acendermos um. Fez aficionados voltarem a uma história iniciada em Cuba no século XIX, dividida pela Revolução, reconstruída em Honduras e que, em 2026, volta a compartilhar o mesmo nome nos dois lados.
OAK EM 30 SEGUNDOS
HOYO DE MONTERREY LE HOYO — HONDURAS Origem: Honduras Fábrica: HATSA Formato inicial: Toro — 6 × 52 Capa: Honduran OSA Subcapa: U.S. Broadleaf Tripa: Dominican Piloto, Nicaraguan Estelí, Honduran La Entrada Corojo 2012 e Honduran Jamastrán Broadleaf Lançamento inicial: Hoyo New Legends Sampler Produção: linha regular, com lançamento mais amplo previsto posteriormente Nota OAK: NÃO AVALIADO Colecionabilidade: A OBSERVAR Para fumar: aguardamos degustação OAK Para colecionar: ★★★☆☆




