Há comidas que experimentamos antes mesmo de prová-las. Talvez você nunca tenha comido o gigantesco bolo de chocolate de Matilda. Provavelmente nunca tenha se sentado diante do banquete quase delirante de A Viagem de Chihiro. E é bastante possível que sua relação com a cozinha de Dona Flor e Seus Dois Maridos tenha começado muito antes de qualquer moqueca chegar à mesa. Ainda assim, basta mencionar essas cenas para alguma coisa acontecer. A memória parece ter paladar. O cinema descobriu isso cedo. Uma câmera aproximada de uma panela, o vapor subindo lentamente, o barulho de uma faca atravessando uma crosta, manteiga derretendo sobre alguma coisa que jamais poderemos alcançar. A tela não tem cheiro. Não tem gosto. Mesmo assim, dá fome. São Paulo resolveu diminuir essa distância. Começou nesta semana a quinta edição do São Paulo Food Film Fest, festival que transforma cinema e gastronomia em partes da mesma experiência. Até 14 de outubro, 42 filmes ocupam salas da cidade com entrada gratuita. Em determinadas sessões, porém, os créditos finais não significam exatamente que o programa terminou.

Depois do filme, chega a comida.

Dona Flor e Seus Dois Maridos encontra a moqueca. A Viagem de Chihiro, o onigiri. Alice no País das Maravilhas, chá e muffin. Curtindo a Vida Adoidado, cachorro-quente. Matilda, inevitavelmente, bolo de chocolate. Não se trata apenas de reproduzir aquilo que apareceu na tela. A experiência mexe com algo mais interessante: a diferença entre imaginar um sabor e finalmente encontrá-lo. Porque comida e cinema compartilham uma habilidade rara. Os dois conseguem transformar momentos banais em memória. Uma refeição pode nos devolver à infância em uma garfada. Uma cena pode permanecer conosco por décadas. Quando os dois se encontram, o que está sendo servido à mesa não é apenas um prato. É uma lembrança que, curiosamente, talvez nunca tenhamos vivido.

QUANDO OS CRÉDITOS SOBEM, A EXPERIÊNCIA CONTINUA

A ideia poderia facilmente virar truque. Exibir um filme. Servir alguma coisa parecida com o que apareceu na tela. Tirar fotografias. Publicar nas redes sociais. Mas o São Paulo Food Film Fest tenta ir um pouco além. A quinta edição ocupa São Paulo de 1º a 14 de outubro, com 42 filmes e uma programação que espalha sessões, degustações, aulas-show, pequenos produtores e atividades gastronômicas por diferentes espaços da cidade. A entrada é gratuita. E neste fim de semana há uma escolha particularmente interessante. No sábado, 3 de outubro, o Centro Cultural São Paulo transforma a relação entre tela e prato quase numa pequena aula sobre o Brasil. Às 15h, um episódio de Histórias da Alimentação no Brasil parte de algo aparentemente banal: a banana. Depois do filme, a chef Letícia Massula assume a aula-show Wantã e Godó — os verdes, os maduros e o caso das bananas. Mais tarde, a programação passa pelas açordas portuguesas e termina com a chef Mara Salles discutindo vegetais brasileiros. Todas as atividades do sábado no CCSP têm tradução em Libras. É um programa curioso porque faz o caminho inverso daquele que estamos acostumados a percorrer. Normalmente vamos ao restaurante e depois queremos saber a história do prato. Aqui, primeiro conhecemos a história.

Depois comemos.

E talvez seja justamente esse intervalo que torne tudo mais interessante. Uma banana deixa de ser apenas uma banana quando alguém conta de onde veio, como atravessou culturas, por que amadurecemos algumas e cozinhamos outras. Uma receita portuguesa muda quando percebemos quantas viagens foram necessárias para que seus ingredientes terminassem juntos dentro da mesma panela. Comida também é documento. Só que desaparece depois que o lemos.

O FILME QUE TODO MUNDO VAI QUERER PROVAR

Há, porém, uma sessão que resume o festival quase perfeitamente — e vale anotar desde já. No sábado seguinte, 10 de outubro, o Reserva Cultural exibe A Viagem de Chihiro. Depois vêm os onigiris. A escolha é quase inevitável. No filme de Hayao Miyazaki, comida não funciona simplesmente como cenário. Ela representa desejo, excesso, transformação, conforto e perigo. Os pais de Chihiro encontram um banquete, comem compulsivamente e acabam transformados em porcos. É uma das refeições mais famosas da animação contemporânea. E existe algo deliciosamente estranho em assistir àquilo numa sala escura e, algum tempo depois, segurar comida japonesa nas próprias mãos. O cinema passou mais de cem anos tentando nos convencer de que aquilo que vemos é real. Este festival acrescenta uma provocação: e se pudéssemos sentir o gosto também?

O QUE VER — E PROVAR

A programação completa é extensa, e talvez esse seja justamente o erro de quem tentar aproveitar o festival como quem percorre um cardápio inteiro. Não precisa. Escolha uma história que gostaria de experimentar também pela boca. Neste fim de semana, o Centro Cultural São Paulo concentra parte importante da programação. No sábado, 3 de outubro, a alimentação brasileira conduz as sessões e aulas-show: banana, açordas portuguesas e vegetais brasileiros deixam de ser apenas ingredientes e passam a funcionar como pontos de partida para falar de território, memória e cultura. A entrada é gratuita. Para as sessões presenciais, os ingressos são distribuídos uma hora antes, na bilheteria do espaço, sujeitos à capacidade. Em atividades acompanhadas de degustação, é importante conservar o ingresso: ele também funciona como acesso à experiência gastronômica. Mas quem puder esperar alguns dias encontrará talvez a combinação que melhor explica a proposta do festival. No sábado, 10 de outubro, o Reserva Cultural recebe A Viagem de Chihiro. E depois da sessão haverá onigiri. Não é necessário conhecer a palavra para reconhecer a comida. São os tradicionais bolinhos japoneses de arroz moldados à mão, frequentemente envolvidos por nori e recheados de diferentes maneiras. No contexto de Chihiro, porém, o alimento ganha outra dimensão. Em uma história povoada por espíritos, excessos e metamorfoses, comer nunca é apenas comer. Há comida que transforma, comida que ameaça e comida que conforta. O onigiri aparece justamente quando Chihiro está assustada e emocionalmente exausta. É alimento como gesto de cuidado. Talvez seja por isso que algumas cenas gastronômicas sobrevivam aos próprios filmes. Não lembramos apenas do que os personagens comeram. Lembramos do que estava acontecendo quando comeram. É a diferença entre receita e memória.

UMA SESSÃO PARA O BRASIL

Há outra escolha especialmente apropriada para esta edição. O festival celebra os 50 anos de Dona Flor e Seus Dois Maridos, filme de Bruno Barreto lançado em 1976 e transformado em um dos grandes fenômenos populares do cinema brasileiro. Aqui, comida não entra como adereço. Dona Flor ensina culinária. Jorge Amado já havia entendido no romance aquilo que o cinema transformaria em imagem: cozinha, desejo e identidade brasileira podem ocupar a mesma panela. Por isso a moqueca que acompanha a experiência não funciona apenas como referência divertida ao filme. Ela completa uma conversa iniciada na tela.

ANTES DE SAIR DE CASA

O São Paulo Food Film Fest segue até 14 de outubro, com atividades distribuídas por espaços como o Centro Cultural São Paulo, Reserva Cultural e Biblioteca Municipal Roberto Santos. A programação varia conforme o dia, e nem toda sessão oferece degustação. Vale conferir a programação oficial antes de sair — principalmente porque algumas das experiências gastronômicas possuem capacidade limitada. E talvez seja justamente essa a melhor maneira de encarar o festival. Não como uma lista de filmes para assistir. Nem como uma lista de pratos para experimentar. Mas como uma oportunidade de perceber algo que fazemos o tempo inteiro sem notar. Comemos histórias. A receita da avó. O prato de uma viagem. O cheiro de uma casa onde já não moramos. O restaurante de um primeiro encontro. Há sabores capazes de devolver lugares inteiros sem precisar de fotografia. O cinema faz algo parecido. Apaga as luzes, projeta algumas imagens e, durante duas horas, convence nosso cérebro de que estivemos em outro lugar. Talvez cinema e gastronomia tenham demorado tanto para sentar à mesma mesa porque sempre estiveram fazendo a mesma coisa. Tentando transformar o presente em memória. E, desta vez, quando os créditos subirem, não tenha tanta pressa de ir embora. A próxima cena pode chegar em um prato.

OAK EM 30 SEGUNDOS

O que é: São Paulo Food Film Fest — festival que aproxima cinema, gastronomia e cultura por meio de filmes, degustações e aulas-show. Quando: de 1º a 14 de outubro de 2026. Onde: diferentes espaços de São Paulo, entre eles Centro Cultural São Paulo, Reserva Cultural e Biblioteca Municipal Roberto Santos. Quanto custa: entrada gratuita. Os ingressos para as sessões presenciais são distribuídos uma hora antes, sujeitos à lotação. O diferencial: em determinadas sessões, aquilo que aparece ou é sugerido pelo filme continua fora da tela por meio de degustações e experiências gastronômicas. Neste fim de semana: sábado, 3 de outubro, o CCSP recebe uma programação dedicada à alimentação brasileira, com filmes e aulas-show. Para colocar na agenda: A Viagem de Chihiro, em 10 de outubro, no Reserva Cultural, seguida de degustação de onigiri. Para quem: cinéfilos, curiosos por gastronomia e quem procura um programa cultural que vá além de simplesmente assistir a um filme. Dica OAK: não escolha apenas pelo filme. Procure as sessões acompanhadas de degustação ou aula-show — é nelas que a proposta do festival realmente ganha sentido. Vale a viagem? Para quem está em São Paulo, sim. Para quem vem de fora, faz mais sentido combinar o festival com um fim de semana gastronômico e cultural na cidade. OAK PASSAPORTE: ★★★★☆ Cultura + gastronomia + experiência, com o raro benefício de ser gratuito.