São Paulo tem restaurantes que impressionam pela novidade. O Rodeio impressiona pelo contrário. Ele ficou. A história começou em 1958, na Rua Haddock Lobo. A família Macedo assumiu a casa no ano seguinte e, ao longo das décadas, ajudou a transformar picanha fatiada, serviço à mesa e acompanhamentos aparentemente simples em parte do repertório gastronômico paulistano. Mas minha relação com o Rodeio do Shopping Iguatemi começa por outro caminho. Antes de sentar às suas mesas, eu vi aquele restaurante nascer. Participei da obra durante sua execução e guardo até hoje um orgulho muito particular de ter feito parte daquele momento. Talvez seja impossível separar completamente essa memória da experiência que tenho hoje quando volto ao restaurante. Porque agora existe um elevador. E isso merece uma explicação. O Rodeio do Iguatemi foi concebido em dois níveis: o bar no térreo e o restaurante no oitavo andar, conectados por elevadores exclusivos. O projeto arquitetônico é de Isay Weinfeld. A configuração já fazia parte do projeto anunciado antes da inauguração, em 2011. Hoje você entra, aperta um botão e sobe confortavelmente. Durante a obra, a história era outra. Nós subíamos pela rampa do estacionamento. Até o oitavo andar. Quem olha para o restaurante pronto, elegante e perfeitamente resolvido talvez tenha alguma dificuldade para imaginar o que significava fazer aquele percurso no meio de uma obra. Eu não tenho. Meu corpo aparentemente preservou essa informação muito bem. Por isso existe uma pequena gratidão quase involuntária toda vez que entro naquele elevador. As portas fecham. O oitavo andar chega sem sofrimento. E penso que certas conquistas da civilização merecem ser mais celebradas. O elevador é uma delas. Esse é um detalhe pessoal, claro. Mas também diz alguma coisa sobre arquitetura. Visitamos espaços prontos e raramente pensamos no período em que eles eram apenas concreto, instalações, poeira, decisões e problemas esperando solução. Eu conheci um pouco desse Rodeio. E talvez por isso tenha um prazer especial em vê-lo funcionando tantos anos depois.

“Alguns restaurantes fazem parte da memória de uma cidade. Outros, por circunstâncias da vida, acabam entrando também na nossa.”
No térreo do Iguatemi, o Bar do Rodeio funciona como uma espécie de primeiro ato. Um drink antes do elevador é uma boa maneira de começar uma experiência que continuará oito andares acima.

UMA PICANHA QUE NÃO PRECISOU SER REINVENTADA

Chegamos, finalmente, à carne. E existe uma palavra que praticamente se confunde com a história do Rodeio: picanha. Não uma picanha escondida sob molho, finalizada com algum ingrediente da moda ou acompanhada por uma explicação de três minutos sobre sua procedência antes que você possa começar a comer. Picanha fatiada. Carne, fogo, ponto e serviço. Parece pouco. Até alguém fazer muito bem. O Rodeio transformou esse corte em uma de suas grandes assinaturas. Em uma reportagem sobre os 65 anos da casa, a picanha fatiada era apontada como responsável por cerca de 60% das vendas do restaurante. O dado ajuda a explicar alguma coisa. Mas não tudo. Porque existe uma diferença enorme entre um prato ser famoso e um prato se transformar em hábito. Há clientes que chegam ao Rodeio sabendo o que vão pedir antes mesmo de receber o cardápio. Isso é patrimônio gastronômico. Não no sentido burocrático da expressão. No sentido mais interessante: um sabor incorporado à memória de uma cidade. E quando a picanha chega à mesa, há outro personagem esperando por ela. Talvez a contribuição mais curiosa do Rodeio para o repertório das churrascarias brasileiras. O arroz. Mas não qualquer arroz.

O ARROZ QUE SAIU DO RODEIO E GANHOU O BRASIL

Talvez você já tenha comido alguma versão dele. Arroz, ovo, bacon, cebola e batata-palha. Está em churrascarias de diferentes cidades. Aparece em cardápios, almoços de domingo e restaurantes que provavelmente jamais imaginaram precisar explicar sua origem. Mas essa história passa pelo Rodeio. O hoje conhecido Arroz Biro-Biro, ou Arroz Rodeio na casa, nasceu ali. Já em 1998, a Folha de S.Paulo registrava o Rodeio como criador da receita. E existe algo deliciosamente brasileiro nessa invenção. Não nasceu para ganhar prêmio gastronômico. Não precisava desconstruir coisa alguma. Era arroz ficando melhor com ovo, bacon, cebola e batata-palha. Só isso. E funcionou tão bem que escapou do restaurante. Foi copiado, adaptado, rebatizado e incorporado ao repertório das churrascarias brasileiras. Talvez esse seja um dos maiores elogios que uma receita possa receber. As pessoas esquecerem que alguém precisou inventá-la.

“Alguns restaurantes criam pratos para o próprio cardápio. Outros criam pratos que acabam entrando no cardápio de um país.”

No Rodeio, picanha e arroz acabaram formando uma combinação que não precisa de explicações sofisticadas. Você olha. Entende. E quer comer.

O Arroz Rodeio, conhecido Brasil afora como Biro-Biro, tornou-se um daqueles acompanhamentos que parecem ter existido desde sempre. Ovo, bacon, cebola e batata-palha transformaram uma receita da casa em parte do repertório das churrascarias brasileiras.

QUANDO O SERVIÇO TAMBÉM FAZ PARTE DA RECEITA

Picanha excelente pode ser encontrada em muitos lugares de São Paulo. Um bom arroz também. Mas restaurantes que atravessam décadas raramente sobrevivem apenas porque aprenderam a cozinhar bem. Existe uma parte da experiência que não aparece no prato. O serviço. No Rodeio, há algo particularmente agradável naquele tipo de atendimento que entende o ritmo de uma churrascaria tradicional. A carne chega. É servida. Os acompanhamentos começam a ocupar a mesa. Alguém percebe que uma travessa precisa ser reposta antes que seja necessário pedir. Nada disso deveria parecer extraordinário. Mas está ficando. Em uma época em que tantos restaurantes investem fortunas em arquitetura, louça, iluminação e conceitos gastronômicos, o serviço continua sendo uma das poucas coisas que não podem ser resolvidas simplesmente assinando um cheque. Bom serviço depende de gente. De treinamento. De repetição. E, principalmente, de atenção.

“Talvez o melhor serviço seja justamente aquele que você quase não percebe — porque tudo acontece antes de precisar ser pedido.”

No Rodeio, isso combina particularmente bem com a comida. Porque aquela mesa não foi pensada para ser contemplada. Foi feita para ser compartilhada. A picanha ocupa o centro. O arroz chega de um lado. Farofa, batatas e outros acompanhamentos aparecem. Os pratos começam a circular. E, por alguns minutos, acontece uma coisa que restaurantes sofisticados às vezes complicam desnecessariamente: todo mundo simplesmente começa a comer.

UMA CARTA PARA ACOMPANHAR CARNE — NÃO PARA COMPETIR COM ELA

Mas existe uma diferença entre ter uma grande carta e transformar a escolha da garrafa em demonstração de conhecimento. No Rodeio, eu seguiria pelo caminho clássico. Tintos com estrutura suficiente para acompanhar a gordura e a intensidade da picanha, mas sem a obrigação de procurar a garrafa mais poderosa ou cara da adega. Cabernet Sauvignon, Malbec, Bordeaux, alguns grandes italianos ou brasileiros podem funcionar lindamente. O raciocínio é semelhante ao que aplicamos ao whisky: a bebida precisa melhorar a próxima garfada. Não vencê-la. E, para quem prefere terminar a refeição com destilado, aí sim existe espaço para um bom whisky — não necessariamente ao lado da picanha, mas depois dela, quando a mesa desacelera e a conversa passa a ocupar o lugar da comida. É um ritual que combina bastante com o Rodeio. Sem pressa. Sem invenção.

POR QUE UM RESTAURANTE DE 1958 AINDA IMPORTA EM SÃO PAULO?

Talvez essa seja a pergunta mais interessante desta história. Não é difícil inaugurar um restaurante bonito. Difícil é permanecer relevante quando a cidade ao redor muda. São Paulo é especialmente cruel nesse aspecto. Restaurantes aparecem com projetos milionários, chefs celebrados, reservas disputadas e filas na porta. Alguns anos depois, desaparecem. O Rodeio atravessou gerações. Sua primeira casa surgiu em 1958. Desde então, modas gastronômicas vieram e foram embora, bairros mudaram, o público mudou e nossa própria relação com restaurantes mudou. A picanha continuou chegando à mesa. O arroz continuou acompanhando. E talvez exista uma lição bastante contemporânea escondida justamente nessa aparente resistência à novidade. Nem tudo precisa ser reinventado para continuar relevante. Às vezes, precisa apenas continuar sendo muito bem feito.

O LUXO DE SABER EXATAMENTE O QUE SE É

Existe hoje uma ansiedade curiosa na gastronomia. Todo restaurante parece precisar contar uma história extraordinária. O ingrediente precisa ter viajado milhares de quilômetros. A técnica precisa ter um nome. O prato precisa surpreender. A louça precisa render fotografia. O Rodeio pertence a uma escola diferente. Você vai para comer carne. E encontra uma casa que sabe servir carne. Parece uma afirmação banal até percebermos quantos restaurantes perderam essa clareza tentando ser muitas coisas ao mesmo tempo. Isso também é uma forma de luxo. Não o luxo da ostentação. O luxo da consistência.

“Novidade consegue colocar um restaurante na agenda de uma cidade. Consistência é o que consegue colocá-lo na memória dela.”

PARA MIM, EXISTE AINDA OUTRO RODEIO

É impossível terminar esta matéria sem voltar ao começo. Eu poderia falar apenas como alguém que hoje entra no Shopping Iguatemi, passa pelo bar, pega o elevador, chega ao oitavo andar e senta para comer. Mas seria esconder uma parte importante da experiência. Eu participei da execução dessa obra. Conheci aquele espaço quando ainda não havia serviço impecável, taças sobre as mesas ou picanha chegando ao salão. Havia obra. E havia aquelas rampas. Muitas rampas. Subir até o oitavo piso pelo estacionamento fazia parte da rotina — e posso garantir que o romantismo arquitetônico diminuía consideravelmente depois de alguns andares. Hoje aperto um botão. O elevador sobe. As portas se abrem e encontro um restaurante funcionando exatamente no lugar que um dia conheci entre trabalho, decisões, poeira e construção. Existe uma satisfação difícil de explicar nisso. Talvez seja orgulho. Talvez seja memória. Provavelmente os dois. E é curioso pensar que, depois de tantos anos, uma das coisas que mais gosto naquele espaço não pode ser encontrada no projeto de arquitetura nem no cardápio. É a sensação de ter participado, ainda que em uma pequena parte, da construção de um lugar que continua cheio de vida. Por isso minha relação com o Rodeio Iguatemi nunca será completamente imparcial. Ainda bem. Há experiências que ganham valor justamente porque carregamos alguma história conosco quando atravessamos a porta. E, no meu caso, uma pequena gratidão toda vez que entro no elevador.

OAK À MESA Restaurante: Rodeio Iguatemi Cidade: São Paulo, Brasil Categoria: Churrascaria • carnes • clássico paulistano Desde: 1958 — unidade Iguatemi inaugurada em 2011 Peça: Picanha fatiada Não deixe passar: Arroz Rodeio / Biro-Biro Antes da mesa: Bar do Rodeio, no térreo Ambiente: ★★★★★ Comida: ★★★★★ Carnes: ★★★★★ Acompanhamentos: ★★★★★ Serviço: ★★★★★ Carta de vinhos: ★★★★☆ Experiência OAK: ★★★★★ Ideal para: almoço de negócios • jantar • encontros • famílias • quem aprecia os clássicos de São Paulo Regra OAK: vá pela picanha, peça o arroz e não tenha pressa de ir embora. E uma regra particular deste autor: aproveite o elevador. Eu sei exatamente o privilégio que ele representa.